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Bruna Linzmeyer e Zélia Duncan estrelam curta com orgia queer em Sundance

‘Uma Paciência Selvagem Me Trouxe até Aqui’, dirigido por Érica Sarmet, foi um dos 59 curtas selecionados para o evento

Por FolhaPress 20/01/2022 3h37
Zélia Duncan e Bruna Linzmeyer estrelam o filme brasileiro lésbico exibido no Festival de Sundance

A vontade de homenagear a geração mais velha de lésbicas, aliada ao desejo de investigar cenas de sexo lésbico, levou a diretora e roteirista Érica Sarmet a produzir “Uma Paciência Selvagem Me Trouxe Até Aqui”, um dos 59 curtas-metragens selecionados para o Festival Sundance, que começa nesta quinta.


Maior evento do cinema independente americano, o festival acontece só online e registrou número recorde de 10.374 inscrições de curtas. Sarmet concorre na categoria internacional com outras 16 obras.


Conhecida pela militância LGBTQIA+ e por pesquisas acadêmicas sobre pós-pornografia, a diretora queria como protagonista de sua história uma atriz na casa dos 50 anos que fosse lésbica ou bissexual assumida. A busca se tornava cada vez mais árdua, até que Zélia Duncan salvou o dia.


“A gente tinha até feito piada. Estava superdifícil encontrar atriz assim, mas cantora tinha um monte, né?”, diz Sarmet por telefone. “Era muito importante que o elenco, e principalmente essa protagonista, tivesse algum envolvimento emocional no filme, da mesma maneira que eu estava engajada.”


A cantora e compositora interpreta uma motoqueira solitária que se envolve com um bando de jovens lésbicas animadas de Niterói, no Rio de Janeiro, terra de Sarmet e também de Duncan. As garotas são interpretadas por Camila Rocha, Clarissa Ribeiro, Lorre Motta e Bruna Linzmeyer, que apresentou Sarmet a Duncan.


Entre cenas de boate e conversas na cozinha, o grupo discute as diferenças da experiência lésbica entre gerações, como a “vergonha e medo” que a personagem de Duncan sentia de ser descoberta gay quando mais jovem.


“Queria homenagear figuras importantes na minha formação, que lutaram para que a gente pudesse existir de uma maneira mais plena”, disse Sarmet, curadora de um cineclube de filmes lésbicos em Niterói há seis anos.

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Atualmente, ela faz doutorado na Universidade de São Paulo, conduzindo uma pesquisa sobre a construção da sensação no roteiro cinematográfico.


A personagem de Duncan se chama Vange em tributo à cantora e ativista Vange Leonel, cuja voz surge em “Noite Preta”, uma das canções do curta. “Vange era uma pessoa assumida nos anos 1990, tinha coluna de jornal e se colocava como lésbica. Quase ninguém fazia isso na época, era raro”, afirma a diretora.


Ao final de “Uma Paciência Selvagem”, uma cena de orgia entre as cinco personagens desafiou a diretora a tentar responder como filmar corpos de mulheres com desejo “sem recorrer aos códigos da linguagem pornográfica”, algo que ela estudou em seu mestrado.


“Queria fazer algo que fosse excitante, que desse tesão, mas sem recorrer a esses enquadramentos machistas e a certos códigos da pornografia”, diz.

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Um desses códigos, ela conta, é o uso do som para mostrar o prazer das mulheres, já que não existe a prova final do gozo do pênis. “Então o que se faz [tanto no cinema como na pornografia] é pôr as personagens gritando em cena. Por isso a nossa cena é silenciosa, só tem a trilha, sem recorrer a gemidos e barulhos que são formas mais comuns de representar o sexo.”


Em seus estudos, Sarmet diz que não achou nenhum filme com cena de sexo grupal só com mulheres e, por isso, se voltou à única referência que conhecia, a peça teatral “Couve-Flor”, dirigida por Caio Riscado e com roteiro de Rosyane Trotta. Uma das atrizes da peça, Marília Nunes, foi convidada para ajudar na preparação de elenco do curta.


“A gente conversou muito sobre limites, sobre o que cada pessoa sentia confortável de mostrar, de não mostrar, de ser tocado. Era importante que ninguém ficasse desconfortável com aquilo”, afirma, acrescentando que no dia da filmagem todos os celulares foram confiscados.


Com 26 minutos, “Uma Paciência Selvagem” é o segunda curta de Sarmet, feito com o primeiro edital de fomento ao audiovisual da prefeitura de Niterói. O primeiro, “Latifúndio”, é um trabalho experimental pós-pornográfico, rodado em 2013 com artistas de performance e amigos.

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Neste ano, ela pretende filmar seu terceiro curta, agora um documentário, sobre a boate Volúpia, famosa nos anos 1990 em Niterói e frequentada pelo público então chamado GLS -gays, lésbicas e simpatizantes. Duncan não era frequentadora, mas ajudou Sarmet com alguns contatos da época, como o de uma sobrinha de uma das sócias do clube.








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