MANUELA MOURÃO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Morreu nesta segunda-feira (21), aos 85 anos, a pintora Lucia Laguna, em sua casa, no Rio de Janeiro.
Nascida em Campos dos Goytacazes (RJ), em 1941, a artista construiu uma obra a partir da observação do entorno, incorporando à pintura fragmentos de jardins, casas, telhados, fios elétricos e outras cenas da paisagem urbana.
Seu velório acontece nesta terça-feira (22), das 8h às 10h, na Capela A Premium, no Rio, seguido da cerimônia de cremação.
A trajetória de Laguna começou longe do circuito artístico. Formada em letras, ela trabalhou durante décadas como professora de português e literatura em escolas públicas e particulares. Aposentou-se do magistério em 1994, aos 53 anos, quando passou a frequentar cursos de artes plásticas na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio.
Ali, teve aulas com o artista britânico Charles Watson e entrou em contato com a obra do italiano Giorgio Morandi, cuja pesquisa sobre composição e economia de formas se tornou uma de suas referências.
A pintura de Laguna partia frequentemente das vistas que tinha de seu ateliê e de seu entorno. Folhagens, construções e elementos da paisagem suburbana carioca eram combinados a formas geométricas e áreas abstratas. Em vez de reproduzir diretamente o que via, a artista trabalhava a superfície em sucessivas camadas de tinta, alternando acumulação e apagamento. Assim, figuras surgiam e desapareciam na tela, criando paisagens fragmentadas, nas quais o reconhecível convivia com o abstrato.
“Quando começo um quadro, não sei onde vai parar, nem que paleta terá”, disse uma vez ao curador Paulo Herkenhoff. “Comecei este trabalho aos 54 anos. Eu tinha pressa. Tenho ainda. A pintura é lenta.”
Entre suas exposições individuais estão “Lucia Laguna: Vizinhança”, realizada no Masp em 2018, “Se Hace Camino al Andar”, na Carpintaria, no Rio, em 2021, e “Life is Only Possible Reinvented”, na galeria Sadie Coles, em Londres, em 2022.
Em 2025, apresentou “A Propósito de duas janelas”, na galeria Fortes D’Aloia & Gabriel, em São Paulo. Na época, disse à Folha de S. Paulo que a sobreposição de itens em seus quadros é resultado do modo como enxerga a paisagem a partir da janela. “Vejo as casas de uma distância muito grande, então não consigo distinguir as coisas. Quando chove ou quando a luz do Sol muda, a paisagem também fica com um formato diferente”.
Também participou da 30ª Bienal de São Paulo, em 2012, e de exposições coletivas como “Crônicas Cariocas”, no Museu de Arte do Rio, e “Dos Brasis: arte e pensamento negro”, no Sesc Belenzinho.
Suas obras integram coleções públicas e institucionais como as do Centro Cultural São Paulo, dos museus de Arte Moderna do Rio de Janeiro e de São Paulo, do Museu de Arte do Rio, do Masp e do Museu Nacional de Brasília. A artista deixa a filha, Laura, os netos João e Daniel.