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Carinhoso apaga 85 velinhas

Ao ganhar letra, em 1937, canção de Pixinguinha/Braguinha virou hino nacional da Música Popular Brasileira

Por Gustavo Mariani 28/05/2022 9h11

Em 1937, a Constituição em vigor “não era mais capaz de assegurar os destinos do país. Emperrava o desenvolvimento nacional”, garantia o presidente Getúlio Vargas, que só em novembro iria mexer com aquilo.

Já que o governo brazuca, do gaúcho que historiadores definiram por “prepotente, egoísta, narcisista e com total desprezo pelos outros, inclusive amigos” – não sofria ameaças de desmoronamento, a primeira-dama Darci Vargas tinha tempo mais do que suficiente para apachar as infidelidades do marido mulherengo. Convocou artistas e a alta sociedade carioca e promoveu festividade musical, em benefícios de crianças pobres, em outubro de 1936 quando o seu parceiro matrimonial mostrava-se, galantemente, tão mau caráter quanto o fora o Imperador Dom Pedro I.

O que aconteceu? Sem definir o que levaria para a promoção – Parada da Maravilhas -, a cantora/atriz Heloísa Helena sugeriu ao compositor João de Barros, o Braguinha, colocar letra no chorinho Carinhoso, de Pixinguinha. Na verdade, este já tivera versos, feitos pelo paulista Bernoit Certain, que até os cantara em programa radiofônico, mas desagradando até o diabo, que deve tê-los queimado, para o bem de todos e felicidade geral dos ouvidos do planeta.

Até ali, Carinhoso era, meramente, mais uma das muitas composições de Pixinguinha e que fora gravada, em 1928, só instrumentalmente, por uma orquestra que ele mantinha com o seu amigo Donga (Ernesto Joaquim Maria dos Santos (1889 a 1974). De vez em quando, os chegados a executavam, pelas quebradas cariocas, mas ficava só naquilo.

Veio, então, o 1937, quando Getúlio Vargas nem mais olhava para a primeira-dama, apaixonado (e traçando) que estava por uma linda mulher de um seu assessor. Como a letra do Braguinha para Carinhoso lhe agradara muito, Pixinguinha propôs gravação à RCA Victor, que topou e colocou à sua disposição um conjunto regional formado por piano, flauta, contrabaixo, violão, cavaquinho, dois clarinetes e bateria.

Bola na boca da caçapa, como ao usuárioa de gíria falavam na época, Pixinguinha dividiu, com Radamés Gnattali, a orquestração para o cantor. Cantor? Qual cantor? Só então Pixinguinha se deu conta de que não havia ninguém convidado para colocar voz na letra do Braguinha. E foi procurar por um. De cara, propôs a gravação a Francisco Alves, que leu os versos, cantou e não topou:

-Pixinga! Você é meu irmão, mora no fundo do meu coração, mas me desculpe. Não vou topar – disse e Pixinguinha contou, mais tarde. Com o fora do Chico Alves, o decepcionado Pixiguinha procurou um outro amigo, Carlos Galhardo, que engrossou-lhe o coro dos rejeitantes:

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-Desculpe, meu irmão, mas não é a minha praia.

Com duas bolas fora no primeiro tempo, Pixinguinha, então, foi procurar uma outra praia, a de Orlando Silva, que já era um cantor popularíssimo. Não deixou de considerar a possiblidade de levar mais uma fora, mas terminou bebendo uma cachaça (uma?) junto com o amigo baiano, que topou gravar.

No dia 28 de maio de 1937, ainda distante de Getúlio Vargas instalar a ditadura do Estado Novo (1937 a 1945) no país – talvez, por falta de tempo, pois passava mais tempo na cama da belíssima amante Aimê Lopes – o conjunto regional da RCA foi ao estúdio, com Orlando Silva e sem o pianista, que não chegara na hora combinada. Sem problemas: o maestro Radamés Gnattali meteu os dedos nos teclados e mandou ver no que a direção do selo norte-americano achou se tratar de um choro estilizado.

O disco com Carinhoso cantado foi lançado em julho. Se Orlando Silva já era o tal, passou a bater recordes e mais recordes de discos vendidos. A sua nova gravação entorpeceu o país. Inclusive, Carinhoso foi incluída na trilha sonora do filme “Você já foi à Bahia? Com nova orquestração e cantada por Aurora Miranda – irmã de Carmem -, já estava editada, quando um brasileiro (mais do que filho daquela senhora que não assinou contrato da jurisdição voluntária do Estado), Aloísio de Oliveira, convenceu ao produtor Walt Disney de que a canção não seria apropriada ao roteiro – The Three Caballeros, nome original.

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Para a maioria dos pesquisadoras da música popular brasileira, se tivesse sido divulgada pelo filme do Disney, seguramente, Carinhoso teria tido, lá fora, mais (ou tanto quanto) sucesso do que Garota de Ipanema, de Tom Jobim e Vinicius de Morais, a brasileira mais + mais gravada pelo mundo – de acordo com o ECAD-Escritório Central de Arrecadação e Distribuição, que fora apelidado, antes, por Pizindim, este era um sujeito carinhoso até com eventuais inimigos.

Certa noite, quando voltava pra casa, foi assaltado por uns vagabundos. O que fez? Convidou a cambada a ir jantar e beber uma cervejinha, em sua casa. E ainda lhes deu dinheiro pra pegarem o ônibus e irem embora.

De sua parte, o autor da letra, João de Barros, o Braguinha, não ficava atrás em termos de coração sentimental. Durante a Copa do Mundo-1950, quando o placar era Brasil 6 x 0 Espanha, ele chorava, emocionadíssimo pelo que assistia. Coincidentemente, uma charanga começou a tocar a marchinha Touradas em Madrid, de sua autoria. Foi quando um torcedor o viu em prantos e comentou com um outro: “Olhe a cara daquele espanhol chorão!” Enfim, Carinhoso deveria ser canção pra ser tocada só quando São Pedro abrisse a porta do Céu pra receber almas carinhosas.

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