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Artistas de voz lançam campanha em defesa da Dublagem brasileira

Arquivo Geral

26/01/2024 0h01

Atualizada 11/12/2024 19h39

Os dubladores Wendel Bezerra, Selma Lopes, Gilberto Baroli e Christiane Monteiro em vídeos de apoio ao movimento Dublagem Viva — Foto: Reprodução/Instagram

Batizada de “Dublagem Viva”, a iniciativa conta com o apoio de milhares de fa?s e busca acelerar a aprovac?a?o de Projetos de Lei ja? em tramitac?a?o para regular o uso da Intelige?ncia Artificial nesse ramo.

“Na?o e? lutar contra a tecnologia, mas sim regulamenta?-la para que ela possa fazer com que a nossa profissa?o, o nosso trabalho, fique ainda melhor”, afirma o dublador Wendel Bezerra – que da? voz a Bob Esponja, Goku e uma infinidade de personagens – em um vi?deo com mais de 590 mil acessos, disponi?vel no Instagram. A publicac?a?o em questa?o e? apenas uma entre inu?meros posts que promovem a campanha Dublagem Viva.

Articulada por um coletivo de dubladores brasileiros, a iniciativa busca conscientizar o grande pu?blico sobre a necessidade de regulamentar o uso da Intelige?ncia Artificial em produc?o?es dubladas. E a estrate?gia parece estar dando certo: desde que a campanha foi lanc?ada oficialmente, em 19 de janeiro, a pa?gina do movimento no Instagram, ja? ganhou cerca de 60 mil seguidores e va?rios vi?deos com os dizeres “Eu quero a dublagem viva”, comec?aram a viralizar nas redes sociais.

PIRATARIA E CONTRATOS ABUSIVOS

De acordo com a dubladora Angela Couto, uma das porta-vozes do movimento Dublagem Viva, a principal intenc?a?o da campanha e? dialogar com os fa?s e conseguir apoio para uma petic?a?o que ajude a pressionar o Poder Pu?blico para proteger os artistas de voz brasileiros. “Desta forma, poderemos acelerar a aprovac?a?o de alguns Projetos de Lei que ja? se encontram em fase de tramitac?a?o ou, ate? mesmo, conseguir a aprovac?a?o de um decreto presidencial preventivo, que determine o que pode ou na?o ser feito por ferramentas de Intelige?ncia Artificial. Assim, protegeremos os direitos dos artistas e os empregos de todos que trabalham neste segmento”, explica ela, que e? conhecida por dar voz a? personagem Michonne da se?rie The Walking Dead.

Representante setorial de Dublagem no Sated-SP, Angela salienta ainda que a mobilizac?a?o esta? em consona?ncia com reivindicac?o?es feitas por artistas brasileiros por interme?dio de outras associac?o?es, como a Interartis Brasil, e com entidades internacionais. Segundo ela, o apelo por uma regulamentac?a?o de ferramentas de IA, tambe?m e? endossado pelo Sindicato de Actores de Voz y Voice Talents de Madrid (AVTA), pela National Association of Voice Actors (NAVA) e pela Organizacio?n de Voces Unidas (OVU) – que representa artistas de voz da Ame?rica Latina. “Ale?m disso, temos uma parceria com a United Voice Artists (UVA), da qual somos membros fundadores. Ela e? uma associac?a?o que abrange instituic?o?es que representam artistas de todo mundo nas discusso?es em torno da regulamentac?a?o do uso das ferramentas de IA”, explica Angela Couto.

Uma das finalidades do decreto almejado pelos dubladores e? combater o uso de vozes para fins lucrativos, feito sem a autorizac?a?o pre?via dos artistas. Segundo o dublador e diretor Se?rgio Cantu?, que tambe?m integra o movimento, ja? existem no mercado diversos aplicativos ou servic?os que pirateiam abertamente as vozes de va?rios artistas brasileiros. “Embora a gente saiba que o direito a? voz e? personali?ssimo – ou seja, que ningue?m pode usar a nossa voz sem a nossa autorizac?a?o – parece que estamos vivendo em uma Terra de Ningue?m na internet. Enta?o, precisamos de uma pressa?o em cima disso, de uma legislac?a?o que deixe claro que nossa voz na?o pode ser usada sem a nossa autorizac?a?o”, destaca ele, que e? conhecido principalmente por seus trabalhos como o Sheldon, de The Big Bang Theory, e por ser a voz do ator Andrew Garfield.

A medida presidencial tambe?m pode ajudar a coibir o aparecimento de contratos trabalhistas com cla?usulas abusivas, que comec?am a pipocar pelo mercado de Dublagem, causando inseguranc?a entre os profissionais da a?rea. “Ja? existem cla?usulas que forc?am um consentimento do uso da voz dos artistas, mas na?o deixam clara qual sera? a finalidade. Falam em ceder os direitos da voz para uso indiscriminado. Ou seja, ficamos sem saber como ela sera? usada e sequer e? discutida qual remunerac?a?o teri?amos direito de receber por esses novos produtos”, esclarece A?ngela Couto.

VA?RIOS PROJETOS NO CONGRESSO, POUCA AC?A?O

Atualmente, existem alguns projetos de lei em tramitac?a?o que podem vir a solucionar a tensa?o existente entre artistas de voz e os gigantes do entretenimento. Os principais sa?o o PL 2338/2023 – do deputado Rodrigo Pacheco (PSD/MG) – e o PL 1376/2022, do deputado Pedro Paulo (PSD/RJ). O primeiro e? focado na regulamentac?a?o do uso da Intelige?ncia Artificial. Ja? o segundo determina que produc?o?es dubladas so? sejam exibidas em territo?rio nacional se a versa?o brasileira for produzida por atores brasileiros e empresas sediadas no Brasil.

De acordo com Se?rgio Cantu?, e? importante que esses servic?os continuem a ser feitos em territo?rio nacional, na?o apenas para que os dubladores tenham um controle da produc?a?o e possam garantir que seus direitos sejam respeitados, mas tambe?m para proteger o emprego de va?rios trabalhadores do setor. “Estamos falando de operadores e te?cnicos de a?udio, mixadores, tradutores, produtores. Sem falar em toda a equipe que trabalha nos bastidores do estu?dio, seja no administrativo, na parte da limpeza, na recepc?a?o, na contabilidade. Falar de Dublagem e? falar de trabalho em equipe”, destaca.

Ha? ainda outros projetos que podem vir a ajudar tal setor arti?stico. O PL 2331/2023, do deputado Valdir Vital Cobalchini (MDB/SC), por exemplo, preve? a regulamentac?a?o de streamings no pai?s. O PL 152/2022, do deputado Alexandre Padilha (PT/SP), busca o reconhecimento e representac?a?o sindical dos trabalhadores, artistas e te?cnicos da a?rea de entretenimento. E, por fim, o PL 2370/2019, da deputada Jandira Feghali (PC do B/RJ), solicita a atualizac?a?o da Lei 9610/98, focada em Direitos Autorais. “Inclusive, a pro?pria Lei 9610/98, tal como esta?, assim como o artigo V da Constituic?a?o Federal possuem va?rios dispositivos que mostram que muitos direitos da classe arti?stica te?m sido violados descaradamente”, destaca Angela Couto.

No entanto, mesmo diante de diversos PLs em fase de tramitac?a?o, a discussa?o em torno dessas iniciativas parece na?o avanc?ar por conta da pressa?o feita nos bastidores do Congresso por advogados que representam os grandes estu?dios e empresas de streaming. A lo?gica no atraso e? simples: se o projeto na?o avanc?a, essas companhias ficam mais livres para ditar as regras de mercado.

Caso a discussa?o destes PLs continue a seguir em marcha lenta, pode ser que mais cedo do que se imagina, os fa?s das produc?o?es dubladas venham a se deparar com um cena?rio bem diferente do atual. “Ja? ha? empresas cogitando ter apenas dois dubladores em uma u?nica produc?a?o para fazer todos os personagens com ma?scaras de voz. Imagina a quantidade de pessoas que va?o ficar sem trabalhar”, alerta Se?rgio Cantu?.

Ale?m disso, outra preocupac?a?o de dubladores e diretores e? que as novas verso?es dubladas comecem a se descaracterizar e perder um dos diferenciais que fizeram com que as verso?es brasileiras se destacassem ate? no exterior: o jeitinho brasileiro de adaptar e recontar histo?rias. “Na?o se trata apenas de copiar, de imitar. A emoc?a?o que toca um coreano e? diferente da emoc?a?o que toca um brasileiro, da sua forma de comunicar”, pontua Wendel Bezerra no vi?deo feito para divulgar a campanha.

De acordo com ele, toda localizac?a?o de uma produc?a?o estrangeira envolve uma sensibilidade arti?stica que as ma?quinas jamais podera?o substituir. Para ilustrar seu argumento, cita o anime Yu Yu Hakusho – considerado um cla?ssico pelos fa?s de Dublagem. “Ele jamais marcaria gerac?o?es se na?o tivesse sido feito por atores com uma veia co?mica; por uma direc?a?o com uma percepc?a?o do que funciona e do que na?o funciona, capaz de entender ate? a psique? de cada personagem para que aquilo seja divertido. Por isso, e? que se chama versa?o brasileira. Na?o e? traduc?a?o brasileira, transcric?a?o brasileira. E? versa?o brasileira”, frisa Bezerra.

DUBLAGEM: UMA PAIXA?O NACIONAL

Na?o e? de hoje que a Dublagem e? vista com carinho por boa parte dos brasileiros. Lanc?ada no pai?s durante a de?cada de 30, a atividade era inicialmente uma estrate?gia para atrair mais espectadores para as salas de cinema do pai?s. No entanto, a atividade so? comec?aria a se popularizar a partir de 1962, com um decreto do enta?o presidente Ja?nio Quadros, que determinava que produtos audiovisuais vindos do exterior deveriam ser transmitidos completamente dublados.

A iniciativa vinha acompanhada de uma outra motivac?a?o: a consolidac?a?o da Televisa?o no Brasil. Vale lembrar que, na e?poca em que a medida entrou em vigor, ter uma TV em casa era um artigo de luxo e que ate? os televisores mais acessi?veis tinham dimenso?es que inviabilizam a leitura de legendas. Sem contar com a quantidade de analfabetos da e?poca: no ini?cio dos anos 60, entre 72,2 milho?es de brasileiros que aqui haviam, quase metade dos adultos na?o sabiam ler.

Seja por ter trazido acessibilidade a diversos pu?blicos – incluindo aqui tambe?m crianc?as e pessoas com dificuldade de leitura ou algum tipo de deficie?ncia visual, intelectual e sensorial – seja por produzir verso?es brasileiras memora?veis de produc?o?es estrangeiras, a Dublagem caiu no gosto dos brasileiros. E? o que aponta um levantamento feito pela Filme B. Publicada em 2015, a pesquisa aponta que as verso?es dubladas respondem por 57% da renda total das bilheterias no pai?s e que 59% dos frequentadores das salas de cinema do pai?s optam por filmes dublados.

Essa prefere?ncia e? confirmada por um levantamento mais recente, divulgado pela Netflix em 2021. Tal pesquisa sinaliza que o Brasil e? o maior mercado da Netflix fora dos Estados Unidos e que aqui sempre ocorreu uma prefere?ncia pelo conteu?do dublado. Um dos exemplos citados da plataforma de streaming e? o da se?rie Lupin, cuja versa?o brasileira foi responsa?vel por 89% das visualizac?o?es do ti?tulo em questa?o.

A paixa?o pela dublagem brasileira tambe?m e? facilmente identificada em manifestac?o?es culturais que reu?nem fa?s das verso?es brasileiras. Uma delas e? a exposic?a?o Chaves: A Exposic?a?o, em cartaz no MIS Experience, em Sa?o Paulo. Com ingressos diariamente esgotados, a atrac?a?o e? a maior mostra de Chaves ja? realizada no mundo e tem a intenc?a?o de homenagear os 40 anos de estreia de um dos seriados de TV mais queridos do Brasil de toda a Ame?rica Latina.

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