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Tom Wolfe: revolução da mídia, da literatura e surgimento de novo padrão

Eduardo Brito
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Precisa-se de um jornalismo que seja tão informativo e fidedigno como o que conhecemos, agradável apenas como ficção. Com esse conceito, Tom Wolfe, então um respeitado repórter e editor do The New York Times, iniciou o fulminante movimento de renovação da mídia a que se convencionou chamar de Novo Jornalismo. Era a ideia de fugir ao texto pasteurizado, no formato – quem, o que, como, quando, onde, por que, para que e nada mais – que se padronizara a partir da ação das agências noticiosas.

Tom Wolfe gostou tanto de textos que soam como ficção que passou a ensaísta e depois a ficcionista – dos grandes. Partiu do grande sucesso A Fogueira das Vaidades e depois seguiu com uma série de obras primas, como Um Homem de Verdade, Sangue nas Veias, Os Eleitos ou O Teste do Ácido do Refresco Elétrico, cada uma melhor do que a outra. Dez deles estão traduzidos para o Português. Criou, com eles, conceitos que se universalizariam, como o Radical Chic, tirado do título de uma de suas obras.

Tom Wolfe morreu aos 88 anos, em um hospital de Manhattan, em Nova York. Foi em uma segunda-feira, mas confirmada por seu agente Lynn Nesbit somente na manhã de ontem. Ele havia sido hospitalizado com uma infecção.

Eleito de uma geração

Com senso de notícia, talento literário e o hábito de se colocar como personagem oculta em sua escrita não-ficcional, Wolfe fazia jornalismo como quem escrevia ficção e escrevia ficção como quem fazia jornalismo. Vários de seus livros consistem em relatos feitos em primeira mão.

É assim que surgem os experimentos do romancista Ken Kesey com drogas psicodélicas em O Teste do Ácido do Refresco Elétrico ou, depois, Os Eleitos, um relato jornalístico feito a partir de confidências dos pilotos que se tornariam os primeiros astronautas da América.

Tudo isso estabeleceu Wolfe como o rosto de um novo tipo de reportagem — mais tarde, de um novo tipo de romance. Ele chegou a moldar a atual definição de Novo Jornalismo com a publicação de uma coleção de ensaios de 1973 com o mesmo nome, que colocou seus próprios textos ao lado de nomes como Truman Capote, Joan Didion e Hunter S. Thompson.

Ele também era conhecido por seu estilo indumentário icônico, sempre ostentando ternos de três peças branco, sob medida. E conhecido também por um olhar que ele uma vez descreveu como “neo-pretensioso”. Sua aparência, à semelhança de um cavalheiro do sul dos Estados Unidos, desarmou as pessoas. Como ele mesmo afirmou, “a postura o o fez parecer um homem de Marte, o homem que não sabia de nada e estava ansioso para saber”.

“Para fazer o Novo Jornalismo”, escreveu Wolfe em 1970, “você precisa ficar casualmente com as pessoas sobre as quais escreve a respeito por muito tempo … tempo suficiente para que você realmente esteja presente quando as cenas reveladoras acontecerem em suas vidas”. Isso seria aplicado em gênero, número e grau a seus romances.

No que ele chamou de “o grande desafio”, o romance A Fogueira das Vaidades foi publicado em 1987, com grande sucesso comercial. Virou filme. Um retrato satírico da ganância e do dinheiro nos anos 1980 em Nova York, oenredo seguiu a jornada dramática do bem sucedido corretor financeiro Sherman McCoy de Wall Street até um tribunal no Bronx, depois de atropelar um negro com seu carro.

Saiba mais

– Nascido na Virgínia em 1931, Wolfe entrou direto na reportagem ao se formar na universidade, começando na União de Springfield, em Massachusetts. Mais tarde, ele partiu para Washington, depois para Nova York, chegando em 1962 para trabalhar no New York Herald Tribune. Ele nunca deixaria a cidade, fazendo uma casa lá com sua esposa Sheila e seus dois filhos até sua morte.
– Famoso por seu olhar preciso, cruel e perspicaz ao praticar jornalismo, Wolfe era conhecido por bater tão bem quanto apanhava, travando batalhas pública com seus críticos mais apaixonados, como Norman Mailer, John Updike, John Irving e Noam Chomsky, quase todos seus amigos.
– Na New York Review of Books, o autor Norman Mailer escreveu: “Extraordinariamente, escrever bem nos obriga a contemplar a desconfortável possibilidade de que Tom Wolfe ainda possa ser visto como nosso melhor escritor. Quão grato pode sentir-se então por seus fracassos e sua incapacidade final de ser grande – sua ausência de bússola realmente grande”. Mau como um pica-pau.

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