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Cinema

Mostra Potestad, no Museu da República, apresenta nove vídeos de Vasco Araújo

O Museu Nacional da República recebe, a partir desta terça-feira (7), a “Potestad”, mostra que reúne nove vídeos do português Vasco Araújo realizados entre 2001 e 2014. Selecionados por Maria João Machado, curadora da exposição, os vídeos têm como premissa os “relatos de poder”, temática central no trabalho do artista. As obras cruzam referências contemporâneas com as grandes narrativas e temáticas da cultura clássica e promovem uma reflexão sobre questões políticas universais. “É a primeira vez que os vídeos são apresentados juntos num contexto museístico”, afirma a curadora.

Na abertura de sua mostra individual, Araújo dará uma conferência sobre o seu trabalho, às 19h30. O artista será apresentado e acompanhado por Wagner Barja, curador do Museu Nacional da República. Será exibido ainda seu último projeto em vídeo, “La Schiava”, inspirado na ópera Aída de Giuseppe Verdi (2015).

“Trabalhando em distintos suportes como a escultura, o vídeo, a fotografia e a performance, Vasco Araújo tem estruturado seu discurso em uma particular forma de desconstruir e reconstruir os códigos de comportamento”, destaca Maria João. Em cada trabalho, segundo ela, redescobre a relação do sujeito com o mundo. “Os jogos de poder, a competência do corpo, da voz (a do próprio artista, que pratica canto lírico), a gestualidade, a linguagem e as formas sociais estabelecidas são repensadas por meio de uma poética representativa”, completa.

“É atualmente um dos artistas mais relevantes no contexto da arte contemporânea internacional. As suas obras fazem parte de acervos e coleções importantes em todo mundo. Seu regresso ao Brasil, desta vez no Museu Nacional da República será, sem dúvida, uma excelente oportunidade para o público conhecer Vasco Araújo e testemunhar a criatividade tão singular do seu trabalho”, destaca João Pignatelli, Conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal no Brasil.

Com um amplo suporte na Literatura e na Filosofia, o artista expõe criticamente o olhar do outro, a ambiguidade das relações, a fragilidade dos sistemas, a construção do real, a identidade e a sexualidade, a virtude da moral e do dever, a geografia dos afetos, as pulsões do desejo e da paixão. “Nas várias obras de Araújo, os diálogos ganham lugar através da multiplicação de identidades, que partem de uma só voz, numa aguda viagem interior”, ressalta a curadora. Neste sentido, de acordo com ela, o artista convoca dispositivos formais associados à ópera, ao Barroco, à etiqueta palaciana, ao Modernismo e à mitologia e define, deste modo, um espaço próprio estético e discursivo.

Sobre o artista

Nascido em Lisboa, em 1975, Vasco Araújo licenciou-se em Escultura pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa, frequentou o Curso Avançado de Artes Plásticas da escola Maumaus, também na capital.

Desde então tem participado em diversas exposições individuais e coletivas em Portugal e no estrangeiro, integrando ainda programas de residências artísticas, como “Récollets” (2005), em Paris, e “Core Program” (2003/04), em Houston.

Em 2003, recebeu o Prémio EDP Novos Artistas atribuído pela Fundação EDP.

Das exposições individuais destacam-se “Debret”, apresentada em Lisboa e na Pinacoteca do Estado de São Paulo (2013), “Mais que a vida”, Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, “Eco”, no Jeu de Paume, em Paris (2008), “Vasco Araújo: Per-Versions”, noBoston Center for the Arts, em Boston (2008), “Dilema” (2004), Museu de Serralves, no Porto.

Relação de vídeos

Duettino (Portugal. 2001. 2’06”)

Primeiro trabalho em vídeo de Araújo. O artista transforma-se numa espécie de estátua de gesso que grita-canta repetitivamente um extrato da ópera de Don Gionanni, mais precisamente, o dueto entre Don Giovanni e Zerlina. Este personagem desperta paixão, angustia e solidão, sentimentos reforçados pela vertiginosa filmagem ao seu redor. O homem no centro, a natureza no fundo, a sua voz convidando a entrar. Guião e direção: Vasco Araújo. Texto original: Dueto da ópera Don Giovanni, de W.A. Mozart. Intérprete: Vasco Araújo.

Hipólito (Portugal. 2003. 15’16”)

Hipólito de Eurípides tem como tema central o desejo sexual. A obra flutua entre o erotismo de Fedra e a castidade de Hipólito, num autêntico drama de linguagem no qual impera a impossibilidade da comunicação verbal. O texto do vídeo é unicamente de Hipólito. O personagem feminino transforma-se no vilão e o masculino em herói. A justaposição entre as imagens e as palavras provoca oscilações de carácter em cada personagem. Guião e direção: Vasco Araújo. Texto original: a partir de extratos de Hipólito de Eurípides. Intérpretes: Sofia Leite e Manuel Frazão. Narrador: José Costa Ideias.

O Jardim (Portugal. 2005. 9’44”)

O Jardim Colonial de Lisboa foi criado em 1906. Durante o Estado Novo, como se denominou a ditadura lusitana, este jardim foi parte da “Exposição do Mundo Português”. Depois da revolução de 1974, passou a chamar-se Jardim Botânico Tropical. Aqui encontram-se numerosas estátuas de bronze que representam os habitantes das antigas colônias portuguesas na África. O artista utiliza uma série de fragmentos de diálogos da Ilíada e da Odisseia de Homero, construindo um enigmático relato. Guião e direção: Vasco Araújo. Texto original: a partir de extratos de Ilíada e Odisseia de Homero. Vozes: João Lisboa Silva, Lucbano Afonço, Maria Luisa da Silva Gabriel, Valdemar Dória e Teodolinda Varela.

About being different (Portugal. 2007. 18’24”)

Este vídeo explora as ideias de comunidade e marginalidade tendo como inspiração a obra Peter Grimes de Benjamin Britten, na qual um pescador é perseguido pelas pessoas da aldeia. Vasco Araújo entrevistou cinco vicários que viram a obra e os seus comentários são uma reflexão sobre a noção de comunidade e de indivíduo. As construções em tijolo da paisagem urbana de Gateshead funcionam como um símbolo visual que ilustra o conceito de uniformização. Guião e direção: Vasco Araújo. Intérpretes: Rev. Bernice Broggio, Rev. Jim Craig, Rev. Canon Ray Knell, Rev. Val Sheddon e Rev. Mark Worthington. Música: a partir da ópera Peter Grimes, de Benjamin Britten.

Mulheres d’Apolo (Portugal. 2010. 18’24”)

Filmado na Sociedade Filarmônica Alunos de Apolo, uma das academias de baile mais antigas de Lisboa, os alunos são os próprios personagens do vídeo. Evoca o mito de Apolo, deus da mitologia grega, que apoiou Tróia e as suas mulheres. O monólogo, criado a partir de vários textos, entre eles As Troianas de Eurípedes, relata justamente essa coragem e resistência das mulheres de Tróia e é dito por uma mulher que procura um escape à solidão e mal trato do marido no salão de baile. Um olhar heroico-trágico, mas também profundamente triste. Guião e direção: Vasco Araújo. Texto original: Vasco Araújo. Intérpretes: Albina Bileu, Ana Maria Alves, Fernanda Gama Vieira, Maria Adelaide da Horta, Maria Armanda de Almeida e Vasco Araújo. Voz: Lúcia Sigalho.

Augusta (Portugal. 2008. 7’23”)

Neste trabalho, Vasco Araújo propõe uma mise-en-scène composta por leões de pedra que dialogam sobre a criação de uma nova cidade, em contraponto ao regime opressivo da cidade antiga. Augusta é uma reflexão sobre os conceitos de poder, utopia e desejo, mas, sobretudo, sobre as noções históricas de “cidade ideal” e “Império”. O diálogo entre os dois leões, filmado em Whashington, é construído com base na comédia As Aves de Aristófanes. Guião e direção: Vasco Araújo. Texto original: a partir de As Aves de Aristófanes. Vozes: Peter Shaw e Walter Bilderback. Música: extratos da banda sonora do filme Cleopatra de Alex North e Ben Hur de Miklos Rozsa.

Impero (Portugal. 2010. 17’39”)

O Império Romano organizava-se com base em regras e ações político-sociais específicas, comandadas por um imperador e um senado. Atualmente, as ações e relações sociais relacionadas com a obtenção de poder levam a uma espécie de impérios pessoais. Impero, um texto original de André E. Teodósio, estabelece uma ponte entre estes dois tipos de império gerando um paralelismo entre as noções de império individual e coletivo. Guião e direção: Vasco Araújo. Texto original: André E. Teodósio. Intérprete: Mónica Calle. Vozes: Mónica Calle, Massimo Angeloni, Anna Bernardi e Valeria Pola. Música: Old Polish Music, op.24, de Henryk Mikolaj Górecki.

O Percurso (Portugal. 2009. 17’39”)

Este vídeo apresenta a viagem de um homem e de um menino de etnia cigana que perderam a sua terra e vão em busca de um novo lar. Ao longo do caminho, desenvolve-se um diálogo no qual a verdade de uma geração é transmitida à seguinte.

Cortado por imagens da Virgem de Macarena, que assume aqui um modelo quase maternal, este trabalho de Araújo acentua toda a mística inerente a um percurso de sabedoria rumo à liberdade. Guião e direção: Vasco Araújo. Texto original: José Maria Vieira Mendes. Intérpretes: Cristóbal Fernández e Nehemías Santiago. Vozes: Belén Jurado, Nehemías Santiago e Sergio Sáes.

Retrato (Portugal. 2014. 17’04”)

Retrato é sobre a memória. A memória de um lugar, de uma casa, de uma família. Vários retratos (reproduções de Eduardo Malta) povoam as paredes de uma casa desabitada. A câmara capta-os como se fossem uma natureza morta. Esta situação é o ponto de partida para um diálogo entre os personagens que existem nessa mise-en-abyme e que falam dos seus sentimentos, jogos de poder, da relação com o “outro”. Um ambiente de mistério e sedução. Guião e direção: Vasco Araújo. Texto original: José Maria Vieira Mendes. Música: Tristan und Isolde: Vorspiel and Isoldes Liebestod (para dois pianos), Ankunft bei den schwarzen Schwänen e Elegy in Aflat, de Richard Wagner; Opera paraphrases e Isolde’s Liebestod, de Franz Liszt.

Serviço:

Potestad
Abertura: 7 de fevereiro, às 19h, com a presença do artista português Vasco Araújo.
Data: 7 de fevereiro a 5 de março de 2017.
Visitação: de terça a domingo, das 9h às 18h30.
Local: Museu Nacional do Conjunto Cultural da República.
Endereço: Setor Cultural Sul, lote 2.
Entrada franca e livre para todos os públicos.

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