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Livro Medo descreve a Casa Branca de Trump como uma verdadeira bomba-relógio

Publicado

em

Eduardo Brito
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O mais informado livro sobre os bastidores da Presidência Trump se chama Fear – isso mesmo, Medo em inglês -, por conta de um diálogo do seu autor, Bob Woodward, com o próprio Trump, quando o empresário se preparava para lançar-se candidato. Respondendo a uma pergunta do jornalista, o futuro presidente resumiu: poder depende de pessoas sentirem medo.

No entanto, no meticuloso relato de Woodward sobre as intrigas do escritório, os homens do presidente não parecem tremer de medo. O que eles mais sentem é desprezo por Trump ou pena de sua ignorância e da “lógica adolescente” de suas reclamações, desabafos e, principalmente, obsessões.

Medo: Trump na Casa Branca escancara um autêntico “golpe de Estado administrativo”: para evitar besteiras e problemas, figurões de primeiro escalão roubam documentos da escrivaninha de Trump ou simplesmente retardam o cumprimento de ordens atabalhoadas ou intempestivas.

Trump aparece no livro como um comandante indolente, que foge do batente para assistir à televisão por horas a fio, comer cachorro-quente e beber Diet Coke durante o que seus guardiões de jornais chamam, em um eufemismo irônico, de “tempo executivo”.

Periodicamente, ele é levado para assinar textos que ele não leu, usando uma caligrafia irregular que se assemelha a um sismógrafo superexcitado, conta Woodward. Quando seus ideólogos, como Steve Banno, o qualificam de populista, ele maneja a palavra e diz: “Eu amo isso. Isso é o que eu sou, um popularista”.

O livro detalha como auxiliares mais qualificados de Trump tentam organizar uma administração confusa e menosprezam o presidente. O chefe da Casa Civil, general John Kelly, referiu-se a Trump como “idiota” e “desequilibrado”, enquanto o secretário de Defesa, James Mattis, disse que Trump tem o entendimento de “quinta ou sexta série escolar”; John Dowd, ex-advogado pessoal, chamou-o de “um maldito mentiroso”.

O mais chocante é a tutela que os principais assessores impõem, disfarçadamente, ao presidente. Quando ele pretende tomar medida desastrosa – caso da imposição indiscriminada de tributos sobre importações de matéria prima – ao menos dois deles adotam a mesma técnica. Trump exige que a equipe lhe apresente textos de decretos para impor medidas polêmicas. O presidente as coloca sobre sua escrivaninha histórica no Salão Oval. Ao menos dois funcionários de primeiro escalão admitem que simplesmente entravam na sala na ausência do presidente e sumiam com a papelada.

Woodward não entrega quem faz isso. Mas fica muito claro que o diretor do Conselho Econômico Nacional, Gary Cohn, sabia quem retirava os papeis – ou ele próprio fazia o serviço. Cohn nega, claro. Antigo presidente do principal banco de investimentos norte-americano, o Goldman Sachs, Cohn se alarmava com a ignorância econômica do presidente – não, não estamos falando de Bolsonaro, que ao menos admite seu desconhecimento, mas de Trump, mesmo sendo megaempresário.

O presidente assegurou em uma reunião do conselho econômico dos EUA que a solução para o déficit fiscal norte-americano seria imprimir mais dinheiro. Imagine-se o que seria o Tesouro dos Estados Unidos emitir, de repente, 21 trilhões de dólares em papel. Não só o dólar, mas todas as moedas do mundo iriam para o espaço. “Vamos lá. Rode as prensas – imprima dinheiro”, disse Trump, segundo Woodward. Cohn teria dito ao presidente: “Não se pode fazer isso. Temos enormes déficits e eles importam. Precisamos controlá-los”.

Segundo Woodward, Cohn ficou “espantado com a falta de compreensão básica de Trump” sobre economia. Os interlocutores fizeram cara de paisagem e não se falou mais nisso. Essa postura não costuma adiantar muito com Trump. Ele é obsessivo. Ideias polêmicas parecem esquecidas, mas sempre voltam, caso das tarifas sobre importações. Em geral, a razão é política: ele acha que, por mais idiotas que sejam, suas teses lhe trarão mais apoio.

Contesta sem desmentir

Bob Woodward escreveu 19 livros sobre os bastidores de nove presidências dos Estados Unidos, começando por um retrato de Richard Nixon atordoado pelo caso Watergate. Não à toa, Medo vendeu 1,1 milhão de exemplares na semana que se seguiu ao lançamento nos EUA. Fez mais sucesso do que o primeiro livro investigativo sobre a presidência Trump, Fire and Fury, do também jornalista Micheal Wolf.

No início de agosto deste ano, Trump ligou para Woodward depois que o texto já havia sido finalizado. Trump disse ao jornalista: “Você sabe que eu sou muito aberto a você. Acho que você sempre foi justo”. Ambos concordaram em que deveria ter havido uma entrevista antes de o livro ser escrito. Trump inicialmente alegou que ninguém lhe havia informado que Woodward queria entrevistá-lo, atribuindo isso a seus auxiliares com “medo” de falar com ele ou a estar “ocupado”. Reconheceu, porém, que o senador republicano Lindsey Graham – uma das fontes do livro – “mencionou rapidamente” que o autor queria uma entrevista.

No telefonema, Woodward informa Trump que o livro é “um olhar duro sobre o mundo, sua administração e você”, mas será “factual” e “preciso”. Trump conclui, assim, que o livro será “negativo”, “ruim” e “muito impreciso”, porque “é impossível que alguém tenha feito um trabalho melhor do que eu como presidente”.

Após a edição, Trump afirmou que Medo era “apenas mais um livro ruim”, e que Woodward “tinha muitos problemas de credibilidade… Ele queria escrever o livro de uma certa maneira… Eu nunca falei com ele”. Mais tarde, questionou se o jornalista era um “agente” do Partido Democrata devido ao “timing” do lançamento do livro. Nunca, porém, contestou nada escrito na publicação.

Já a secretária de imprensa da Casa Branca, Sarah Huckabee Sanders, divulgou um comunicado dizendo que o livro continha “nada mais do que histórias inventadas”. Alguns dos citados na obra contestaram Woodward, mas tornando claro que o faziam só por obrigação. Kelly disse que não se referiu a Trump como um idiota, enquanto Mattis disse ser “ficção” que demonstrasse desprezo ou desrespeito a qualquer presidente – e evitou cuidadosamente elogiar Trump.


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