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Folhetim "Outro Lugar na Solidão"

Tosse, seca, febre, dossiês…

Folhetim – Outro lugar na Solidão. Capítulo 5

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Por Marcos Linhares, Adriana Kortland e Marcelo Capucci

– É sempre assim, quando a gente precisa de um capanga… Falou o prefeito para si mesmo, depois de gritar pelo nome de Jamil ao telefone, como se adiantasse alguma coisa. Ligou em seguida para Pablo Fukushima. A agenda clandestina tinha que ser desmarcada de qualquer jeito.

– Bom dia, Seu Giacomo.

– O sacana do secretário esteve aqui cheio de razão… Precisamos de um álibi… Não apareça, porque minha mulher tá vindo pra um almoço de aniversário. Preciso pensar!

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– Sim senhor!

Sem tempo nem para guardar o telefone, já foi receber sua mulher, que chegou com antecedência. Mal entrou, Layla fechou rapidamente a porta do gabinete.

– Giacomo, você precisa conversar com seu filho… Suzana me ligou e está possessa de ciúmes. Ela é boa moça e, além do mais, é herdeira da usina de álcool. Não podemos deixar nosso filho flutuando assim.

O velho riu e puxou a esposa carinhosamente para o lugar mais confortável do sofá, dizendo:

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– Minha querida, você trata esse rapaz como se ele fosse um adolescente de 64 anos, parece brincadeira.

– Giacomo, antes que você destile seu veneno, gostaria de lhe dizer que ele é meu único filho e não importa quantos anos tenha… Enquanto eu habitar a face desta terra, farei o melhor por meu Giacomo Maurício.

Antes que o prefeito pudesse retrucar, a porta se abriu, e Giaco entrou empunhando um vaso de violetas africanas. Os olhos da mãe brilharam, mas ela se policiou para não gostar mais das flores baratas do que devia. Suas mãos se estenderam. Giaco deu-lhe um beijo rápido, à distância, e começou a se justificar, retirando a etiqueta.

– Feliz aniversário, mamãe. Desculpe-me pela simplicidade do presente, mas foi o melhor que encontrei na porta do hospital. Aliás, preciso voltar pra lá o mais rápido possível.

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– Obrigada, meu amor. Feliz aniversário também. Quarenta anos de profissão, quanta dedicação!!! Ah! E as flores são lindas. Minha cor preferida. Pena que não tenham perfume, né?!

Antes que a mulher desqualificasse a imagem da herbácea, o prefeito pegou o vaso de suas mãos e o colocou sobre a mesa, dizendo:

– Pra quê tanta pressa, meu filho? Você não acha que está superestimando demais essa tal pandemia? Isso é o tipo de gripe que todo mundo pega todo ano! Nós nos vacinamos naquelas campanhas pra idosos, estamos resguardados, né? O “doutorzinho” saiu daqui agora, todo estressado porque 30 mil máscaras não serão suficientes. Você não acha uma reação desproporcional? Eu acho! A prefeitura parou tudo o que estava fazendo só pra se ocupar da compra…

– Olha só, pai. O seu secretário de Saúde, que tem o nome de Afonso Chess, é um cara muito capaz e consciente do momento que estamos vivendo. O hospital já operava no limite, agora está um caos. Não conseguimos articular nada porque não falamos a mesma linguagem. O senhor e o ilustríssimo diretor da nossa unidade, aquele tal Fukushima, só podem estar levando isso tudo na brincadeira!

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– Brincadeira, não! Estamos tentando não levar pâniico à população. Simples assim…

– Simples assim? O senhor ainda não experimentou o que é pânico. Parece não estar vendo a situação pelo mundo. Prefeito, entre nós… Você não cumpre as determinações da OMS porque as desconhece e não segue as ordens do governador, simplesmente por não ter afinidades políticas com ele. Simples assim! Se o senhor não se incomoda com a população, talvez devesse considerar que nós três aqui também estamos no grupo de risco. Portanto, aja!

Esperta e sorrateira, Layla interveio:

– Por favor, vocês dois não vão estragar o meu almoço de aniversário, né?! Conta, meu filho, como foi o congresso de geriatria? Fez muitos contatos, conheceu alguém?

Giagomo Maurício estranhou o tom da mãe, e por um instante o associou à fala de Suzana, mas deixou passar para voltar ao assunto da falta de materiais no hospital, e interpelou o pai quanto à entrega ter sido feita por Jamil, seu capataz, e não pela empresa chilena que forneceu o material.

– Falando do diabo, ele mostra o rabo… Murmurou Layla, piscando para o filho, no momento em que Jamil entrou na sala com várias pastas com timbre hospitalar.

Os Giacomos olharam para aquilo com pensamentos diferentes, mas o prefeito se livrou de seu serviçal com a agilidade de sempre, não dando nenhuma chance para debates.

Jamil saiu da sala, despedindo-se com a mesma velocidade com que entrou, sem deixar de olhar profundamente para os olhos de Layla, que tratou de se afastar das violetas e fingiu que procurava algo em sua bolsa de marca.

– Mãe, desculpa, de verdade. Mas a UTI geriátrica está lotada e novos pacientes estão chegando. Eu não posso ficar. Vim só lhe dar um beijo. Fica chateada não, tá? Quando a coisa toda passar, a gente comemora sem esse estresse.

– Tá bom, meu filho, cuidado!

Giacomo Maurício se despediu da mãe com um breve olhar e saiu a passos rápidos.

– Não me diga nada! Sentenciou o prefeito, antes que a mulher o interpelasse.

– E precisa? O que foi que você andou fazendo que não me contou?


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