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Literatura

Entrevista: Flora Thomson-DeVeaux

“Espero que o Machado seja lido em toda a sua plenitude”

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Por Carlos Alberto Jr.

“To the worm that first gnawed at the cold flesh of my cadaver I dedicate as a fond remembrance these posthumous memoirs.” A frase que você acabou de ler é a versão em inglês da famosa e surreal dedicatória do livro Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis: “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas”. A monumental obra — lançada originalmente em 1881 — ganhou em junho uma nova edição em inglês pela Penguin, com tradução da norte-americana Flora Thomson-DeVeaux, que agora vive no Brasil. Nos EUA, The Posthumous Memoirs of Brás Cubas esgotou nas primeiras 24 horas após o lançamento. Nesta entrevista — originalmente do meu podcast, Roteirices —, Flora fala do inesperado sucesso e dos desafios de verter Machado ao inglês.

Flora, qual sua relação com o Brasil e com o português? Qual chegou primeiro à sua vida?

Olha, nenhum dos dois estava na minha vida antes de eu entrar na faculdade. Eu cresci na Virgínia [EUA], sou de lá; estudei espanhol no Ensino Médio — e, quando entrei na faculdade, só sabia vagamente que queria fazer algo de Humanas. Pensei que talvez a literatura latino-americana figurasse, mas não era a prioridade. E acabei caindo num open house do departamento — em Princeton — e o povinho, muito simpático, chegou lá com panfletos, falando que ia ser superfácil aprender português, já que eu já falava espanhol — essas mentiras.

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Até porque todo mundo que fala português certamente fala espanhol, não é? [risos]

Ah, sim: uma vez que você fala espanhol, é um pulo — são seis semanas. Então primeiro foi a língua; antes disso, tinha tido pouquíssimo contato com o Brasil, o que dirá com a literatura brasileira. Passei o primeiro semestre sofrendo com a língua, um pouco indignada com aquele pessoal simpático…

Mas você já tinha lido algum autor brasileiro naquela época?

Não. A minha porta de entrada para a literatura latino-americana foi [Jorge Luis] Borges.

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E qual foi o primeiro livro brasileiro, de autor brasileiro, antes de você começar a dominar o português?

Cara, não me lembro, porque a gente foi tendo contato com a literatura através das aulas de língua.

Trechos de obras.

Trechos. A gente chegou a ler Dois Irmãos [romance de Milton Hatoun] e fiquei muito chateada, porque era muito vocabulário; eu preciso voltar a ler Dois Irmãos já como falante de português, porque é muita planta, muita coisa, tinha que ficar abrindo o dicionário toda hora… Mas o primeiro livro que realmente me impactou foi a biografia que o Ruy Castro escreveu da Carmen Miranda. Traduzi e me apaixonei. Foi muito difícil — eu lia cada frase 15 vezes —, mas acabei me apaixonando, não só pela prática da tradução, como também por todo aquele mundo da música brasileira dos anos 30. Carmen continua uma grande paixão na minha vida.

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O português que você aprendeu na universidade era o brasileiro?

Era misturado. A primeira professora de português que eu tive era uma norte-americana que tinha sotaque meio baiano, meio pernambucano, porque estudava Luiz Gonzaga. Depois, tive aula com uma inglesa que estudou em Coimbra, então peguei um pouco do sotaque português; e depois com brasileiros. Cheguei ao Rio com um pouco de sotaque português — e todo mundo achou tão bonitinho que logo fiz questão de perder.

Qual foi o momento em que você decidiu —“tenho que ir para o Brasil”?

Comecei a estudar português no primeiro semestre da faculdade — em 2009 — e, depois deste primeiro ano, não era mais uma questão de aperfeiçoar a língua: já estava obcecada. Daí resolvi, no começo do segundo ano, que queria passar o terceiro ano fora, entre a Argentina e o Brasil. E foi o que eu fiz.

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Qual era o seu grau de fluência quando veio para cá? Já estava lendo um livro inteiro?

Já. Travei contato com As Memórias Póstumas no segundo ano, por conta própria. Por mais que o primeiro semestre de português tenha sido sofrido, no segundo já estava lendo literatura; no terceiro, coisas por conta própria; e, no quarto, fazendo aula normal, de seminários de literatura e cultura. Então, quando cheguei ao Rio para fazer intercâmbio, pude dispensar o intensivo de língua para intercambistas: fui direto para as aulas.

E como foi o aprendizado da gramática do português?

É muito diferente do inglês, mas o espanhol ajudou. Eu comecei a estudar espanhol aos 12 anos; ter essa estrutura românica básica me ajudou bastante. A gramática não foi a principal questão — era mais a familiaridade com as formas da língua, sobretudo a expressão mais coloquial. A primeira barreira era a pronúncia, o que custou bastante; a música ajudou muito com isso.

E você já pensava em trabalhar como tradutora?

Decidi trabalhar como tradutora no momento em que percebi que as pessoas iriam pagar por algo que eu gostava tanto de fazer; eu já estava me divertindo horrores, fazendo traduções literárias por conta própria em aulas e workshops de tradução na graduação. Quando cheguei ao Rio, as primeiras coisas que traduzi foram matérias da Piauí e a legenda de um filme do [Eduardo] Coutinho.

Como você optou por traduzir Machado de Assis?

Eu não acordei um dia e falei: “ó, hoje é dia, hein”. Os primeiros livros que fiz foram de uma pegada mais acadêmica, e um deles era sobre a obra e a poética machadiana; chama-se Machado de Assis: por uma poética da emulação. Traduzi essa análise do João Cezar de Castro Rocha, que cita muita coisa que ainda não havia sido traduzida — correspondências, poesia, peças, contos que só saíram no jornal. Então, acabei já chegando de um jeito meio torto, tendo que fazer umas primeiras traduções parciais.

Mas o mais curioso é que, às vezes, eu traduzia todo um trecho do João Cezar analisando uma determinada passagem de um romance e aí chegava naquela passagem e — quando tentava colar as traduções — não batia com a análise. E não é que o tradutor estava errado ou que o João Cezar estava viajando: é que qualquer passagem de qualquer livro do Machado contém uma multidão de interpretações e leituras possíveis que a gente só vê concretizadas fora da cabeça do leitor quando algum pobre coitado é obrigado a traduzir e fica fixado na página.

A leitura que João Cezar fez enfatizando determinada palavra, determinado conceito, não estava expressa naquelas traduções. Eu me vi obrigada a traduzir muitos trechos de coisas que já haviam sido traduzidas para que o livro fizesse sentido. Tanto eu quanto o João Cezar percebemos que havia espaço para novas leituras dessas obras de Machado. Daí pensei que o doutorado seria uma grande oportunidade de me debruçar longamente sobre uma tradução literária — porque tudo o que o tradutor literário quer, mas quase nunca consegue, é tempo. E aí, tendo essa experiência do Machado fresca, quando entrei no doutorado decidi que queria trabalhar com As Memórias Póstumas.

E qual foi o desafio maior em traduzir Machado? Você se sentiu intimidada?

Preocupada por ter arranjado uma encrenca ao mergulhar em um autor tão importante para a literatura em língua portuguesa? Ah, de encrenca eu nunca tive medo. Primeiro: eu não sabia se a tradução iria ver a luz do dia; você não escreve uma tese de doutorado com a plena convicção de que ela vai ser publicada — a vasta maioria não é. Então era uma coisa solitária. Eu me senti intimidada, sim, porque eu comparo ler ou traduzir o Machado com dirigir um carro ou ter de montar o mesmo carro na fábrica: você pode achar que conhece bem aquele carro, mas, de repente, se vê às voltas com um parafuso e pensa: “onde será que encaixo isso?”.

Por isso eu tinha um plano. Eu tinha a intenção de seguir o método de um outro tradutor machadiano: ele dizia que traduzia alguns capítulos, deixava descansar, voltava nas traduções anteriores, dava uma olhada no que os colegas tinham feito, ajustava e ia para frente. Achei que seria uma maneira legal de proceder, só que logo vi que ficava muito insegura. No primeiro momento, eu estava muito insegura com minhas escolhas e pensei: melhor não tocar nas outras traduções enquanto eu não tiver passado pelo romance todo; quero ter a minha leitura, as minhas escolhas, sem influência e sem esse contato mais direto. Acabei fazendo uma primeira passagem e, daí, deixava o texto descansar. E vi como era fascinante e revelador ler o Machado através das traduções. Muitos dizem que o Machado é ambíguo, escorregadio; que esconde muitos segredos — mas as traduções podem servir como mapa para essas ambiguidades.

Como uma pessoa cuja primeira língua não é o português encara esse vocabulário — para o qual até os brasileiros recorrem ao dicionário?

Eu usava muito o Oxford English Dictionary, um recurso maravilhoso on-line; tem até um dicionário histórico de sinônimos. É um dos meus passatempos favoritos: você pega uma palavra e não tem apenas uma penca de sinônimos: organizam também pela entrada registrada na língua inglesa. Então, às vezes tem uma palavra do inglês quase medieval que você nunca ouviu falar. Quando havia oportunidade, eu tentava mirar em alguma coisa mais próxima do período do Machado, mas que ainda fosse compreensível para o leitor.

Aqui está um trecho de Dentro da Floresta — coleção de textos para a New Yorker —, de David Remnick . “Até que se formasse a comissão do regime, os tradutores ingleses da Bíblia eram às vezes queimados em uma estaca ou estrangulados, ou, como foi o caso de William Tyndale, as duas coisas. Tradutores são perpetuamente sentenciados, degradados, acusados de falhas mínimas e sem importância e, por fim, destruídos. Os objetos de suas atenções temem seus serviços. Cervantes reclamava que ler uma tradução era como olhar para uma tapeçaria de Flandres por trás: você pode ver os formatos básicos, mas eles estão tão cheios de fios que não se pode avaliar o brilho do original. E ainda assim eles perseveram.” Como você se posiciona em relação ao trabalho que vai permanecer? Qual é a responsabilidade do tradutor?

É um trabalho ingrato. Sofro muito para dar uma tradução por completa — porque, uma vez que você imprimiu, não tem como voltar a mexer naquele ponto-e-vírgula; vira uma fonte de sofrimento. Mas o que eu tento fazer é brigar com essa ideia do tradutor enquanto veículo imperfeito da obra perfeita — porque é o que a gente acabou de ver: como a obra pode ganhar e se revelar através não só da tradução, mas de retraduções.

Vários autores clássicos que foram traduzidos no Brasil nos anos 50, 60, talvez até antes, não o foram do original, mas do francês ou do russo para o inglês ou para o espanhol, e depois uma outra tradução. Fico imaginando as perdas que não acontecem ao longo desse processo.

Ainda acontece muito de ter uma obra de uma determinada língua traduzida para o inglês e daí para outras línguas. Não vai ter tanto tradutor do islandês para o português, por exemplo. Isso não é o ideal; a gente quer sempre que as editoras valorizem o original.

O Machado de Assis — e a literatura brasileira em geral — despertam interesse nos EUA? Como a literatura brasileira — e Machado de Assis em particular, por ser um autor do século 19 — despertaria a atenção do público americano?

Eu não esperava, obviamente, que [o livro] iria se esgotar nas primeiras 24 horas — um romance com 140 anos de idade! Eu ainda estou muito curiosa para saber quem são esses leitores. Imaginava que o apelo principal da tradução seria para quem estava estudando literatura latino-americana de modo geral. Eu estava pensando num leitor talvez mais engajado que a média — e por isso pensei que uma edição anotada faria sentido para a pessoa que tivesse curiosidade de ir atrás: “que revolução é essa sobre a qual ele está falando?; que palavra é essa?”. Então incluí notas de fim de livro; umas 150. Não achei que seriam tantos [leitores] assim; esse interesse logo no primeiro dia realmente me pegou de surpresa.

Existe nos EUA algum escritor com quem poderíamos estabelecer uma relação, de estilo ou costumes, com Machado de Assis? Ou ele é de fato único?

Não tem um Machado de Assis norte-americano — até pela importância dele para a literatura brasileira. Ele é o grande patriarca das letras.

Qual você acha ser a dimensão do Machado de Assis para a literatura mundial? Sei que essa tradução é um enorme esforço para levar a literatura brasileira — de um escritor tão importante — para um público de língua inglesa, não somente dos EUA; mas para todo mundo que lê inglês e não fala português.

O impacto há de ser muito diferente. Quando a gente pensa na inserção de uma obra na literatura mundial, idealmente essa inserção é contemporânea, porque Machado não está dialogando com os leitores 140 anos à frente: estava escrevendo para os leitores da época dele. E tentou fazer com que a obra dele fosse traduzida em vida. Não sei exatamente como vai se dar essa inserção. E acho que não dá para dizer qual a importância de Machado para a literatura mundial, porque isso depende muito de como ele será recebido; de como será lido, interpretado. Eu espero muito que ele não seja lido como eco de outro escritor em língua inglesa; espero que ele seja lido em toda a sua plenitude.


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