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Literatura

A moça que compartilha livros e cultura

O Jornal de Brasília inaugura a seção Brasilienses, com histórias de gente da cidade. Conheça Conceição. Revisora faz sucesso na internet

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Ela ama os clássicos

Quando era bem jovem, lá por volta dos 18 anos, Conceição escreveu um poema que, muito tempo depois, uma amiga resgatou: “Acordei no meio da noite com gemidos no meu quarto. Era minha alma que soluçava”. Com certeza, estava claro que aquele verso revelaria o que seria escrito nas páginas da vida dessa mulher cujo medo e o destino fizeram dela uma brasiliense de coração — a grande paixão pela literatura.

E assim aconteceu. Depois de uma longa e dedicada carreira ligada à educação e aos livros, Maria da Conceição Ferreira se sente quase realizada por conciliar o trabalho de revisora e design gráfico com o hobby de resenhista. Isso mesmo. Hoje, um dos maiores prazeres dessa mineira do interior é compartilhar suas impressões sobre as obras que lê, especialmente os clássicos russos, que tanto ama.
E o curioso nessa história é que agora, com idade que “não é difícil precisar”, Conceição vai se desapegando, aos poucos, dos livros de papel. Ao contrário de muita gente de sua geração, ela conectou-se de tal forma que prefere baixar os eBooks em seu tablet ou salvar obras em PDF, para apreciá-las no notebook. Com as resenhas não poderia ser diferente. Posta tudo na internet, para deleite dos admiradores.

“Tenho mais de 30 livros comprados e ainda não li nenhum. Sabe de uma coisa? Gosto muito do online também porque a gente fica ali e acaba esquecendo da vida”, revela, em tom de brincadeira.
Mas certamente é difícil para essa inquieta professora de formação esquecer de sua trajetória. Depois de largar quatro colégios internos “por dificuldade de adaptação”, fez o curso Normal e, após ser aprovada em primeiro lugar no concurso para o magistério do governo de Minas, passou a dar aulas em escolas primárias de Lagoa Dourada, onde nasceu e atuou de 1964 a 1972, sendo os últimos quatro anos como diretora. Nesse meio tempo, cravou o seu dom em São João Del Rei, licenciando-se, em 1970, em Língua e Literatura Portuguesa, Brasileira, Francesa e Latina.

Em uma noite de 1972, no auge da ditadura militar, Conceição participava do Festival de Inverno de Ouro Preto quando um episódio mudou seu destino. Justamente na hora em que um colega declamava o seu poema Pesadelo, de análise política e social, a polícia chegou e promoveu um “quebra-pau” em busca de estudantes e outros “subversivos”.

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Foi um horror. Até hoje ela não sabe como conseguiu sair de lá. Só lembra que um colega a puxou e a colocou num fusquinha. Eram seis no carro e, na fuga, cada um ia sendo deixado em um local. O dela, a rodoviária da cidade. “Foi lá que ouvi pelo alto-falante: ‘última chamada para Brasília!’. Assustada e com medo de voltar para casa porque sabia que eles iriam atrás de mim, embarquei no ônibus só com a roupa do corpo. Estou aqui até hoje”, relata, emocionada.  

Na capital, apesar do currículo suspeito para os militares, a professora rebelde conseguiu, depois de um processo seletivo, fazer uma bela carreira no Ministério da Educação, onde trabalhou na implantação e avaliação de diversos projetos. Também atuou na UnB e no Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras. Cabia a ela revisar a revista  Educação Brasileira e tudo que era produzido pelo Conselho.

Conceição se aposentou, mas continua trabalhando para editoras em revisões e na arte gráfica de livros técnicos, de poemas ou sobre Teologia, como os do ex-procurador-geral da República Claudio Fonteles. “Ela faz um trabalho simplesmente primoroso”, elogia.
Mas a aposentadoria em nada aquietou a servidora. Além das pinturas barrocas, sacras e do mosaico, outra de suas habilidades, ela sonha agora em publicar um livro com as resenhas que posta no Facebook, na página Nota terapia – Vamos falar de livros, seguida por mais de 8 mil pessoas.

E estímulos para isso não faltam. Quando publicou sua primeira resenha, de Crime e Castigo, uma das obras primas de Dostoiévski, choveram comentários elogiosos ao seu trabalho. E outras resenhas vieram: A morte de Ivan Ilith, de Tólstoi; A mãe, de Maximo Gorki; e A orgia perpétua, de Mario Vargas Llosa. Ela prepara agora sua visão sobre os principais heterônimos de Fernando Pessoa e sobre o desafiante Grande Sertão: veredas, de Guimarães Rosa.

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Casada e com dois filhos, Conceição dorme pouco, de quatro a cinco horas por noite. No entanto, forte em sua aparente fragilidade, não se cansa de fazer o que mais gosta. “Eu amo os escritores russos porque eles te levam em uma viagem aos labirintos da alma de seus personagens. Amo também outros autores, como Flaubert, Fernando Pessoa e Guimarães Rosa”. E completa: “Agora, descobri meu caminho e quero publicar esse livro de resenhas e continuar compartilhando esse mundo fantástico que é a literatura”.

Tomara. Assim que sua nova obra ganhar vida, dona Conceição se sentirá plenamente realizada e sua alma continuará soluçando, bem do jeito que era quando tinha apenas 18 anos.




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