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“Coringa” representa uma nova era para o cinema de quadrinhos

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Sentado na frente de um espelho, Arthur Fleck permite que as lágrimas escorram sobre seu rosto e manchem a maquiagem lúdica de um palhaço. Em seu reflexo, o personagem ainda abre um sorriso com os dedos. Os borrões deixados pelas lágrimas expõem aquilo que é inevitável: a descendente espiral até a loucura somente precisa dos elementos certos. Coringa, que está disponível nos cinemas da cidade desde quinta-feira, representa o lado – e ápice – mais subversivo que o cinema de quadrinhos não via há anos.

Coringa: uma jornada até o cume da loucura. Foto – Divulgação

Estrelado por Joaquin Pheonix, Coringa retrata a história de um homem miserável que vive em Gotham City.  Com uma realidade onde nada aparenta dar certo,  seus dias são preenchidos por fantasias,  abusos diários no trabalho, nas ruas, ausência de esperança, uma mãe doente (física e mentalmente), e desprezo por onde passa por ser muito “estranho”. 

Joaquin Phoenix como Arthur Fleck. Foto – Divulgação

Escrito e dirigido por Todd Phillips (da escandalosa trilogia Se Beber, Não Case), este novo filme possui um DNA completamente novo para cânone de quadrinhos e para o próprio diretor que flertava com um cinema mais adulto com Cães de Guerra. Se existe o lado otimista e esperançoso deste gênero dentro da sétima arte, Coringa trouxe um reflexo assustador. Tudo é constituído com densidade, desde a fotografia, trilha sonora até o cenário nauseabundo (nunca se viu uma Gotham City tão arruinada). 

Phillips filma (e emula Martin Scorsese, um dos produtores do título) com diversas camadas. A medida que esses estratos vão se esvaziando, a loucura crescente de Arthur fica cada vez mais explícita. Quanto mais o personagem de Pheonix se conhece (ou se perde), todas as arestas ficam isentas, abandonando essa voluptuosidade e deixando o mais íntimo de Arthur na superfície. Sua loucura fica tão visceral, que o apogeu do filme introduz um marasmo de sentimentos conflitantes. O que é legítimo em sentir sobre Arthur? Empatia ou desprezo? 

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Nasce uma estrela para o cinema comercial

Entretanto, essas características são complementares diante da verdadeira força motriz de Coringa, que seria a atuação desconcertante de Joaquin Phoenix. Por mais que existam as comparações com Heath Ledger, cada um funciona perfeitamente em seu universo. Enquanto o palhaço do falecido ator seja um agente do caos, a versão de Phoenix agarra o niilismo pelo colarinho. É impressionante – e ao mesmo tempo agoniante e triste – ver Arthur desfalecendo mentalmente. Pheonix que vinha demonstrando um talento descomunal para o cinema de arte, revela para o público geral suas capacidades cênicas. 

Pheonix em Coringa: atuação bárbara. Foto – Divulgação

A orquestra do pesadelo (e do sensível) 

Hildur Guðnadóttir é uma compositora islandesa que deu à série Chernobyl aquela roupagem apocalíptica com o seu violino grave. Seus esforços renderam um Emmy de Melhor Trilha Sonora pelo seriado. Mesmo que sejam produtos diferentes, seu trabalho em Coringa é quase um personagem. Sua ausência em tela faria toda a diferença no ritmo e na tonalidade do longa-metragem. Menção honrosa para Bathroom Dance que representa um dos momentos-chave para a história em que Hildur acrescenta vocais acapella para simbolizar a descoberta de um personagem trágico e humanidade despedaçante de Arthur. 

Foto – Divulgação

Em saldo final – no qual pode ser atingido com certo delay – pois Coringa não é de digestão instantânea, o delírio progessivo de Coringa levanta reflexões sociólogicas e psicológicas, indiscutivelmente, mas evidencia uma certeza formidável: esse caráter subversivo para um gênero saturado reinveintou tudo de novo. E se Batman – O Cavaleiro das Trevas foi o pontapé primordial, Coringa  é a cartada final. 

 

Por Leonardo Resende

@leonard0resende


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