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Wesley Murakami é condenado a indenizar paciente que ficou com sequelas

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O médico Wesley Murakami foi condenado a pagar R$ 60 mil, por danos morais e estéticos, a uma paciente que foi submetida a um tratamento para amenizar olheiras, mas ficou com nódulos irregulares nas pálpebras. A mulher precisou passar por cirurgia para retirada do produto injetado e ficou com sequela no olho esquerdo, após o nervo óptico ser afetado.

Segundo o Tribunal de Justiça de Goiás, o procedimento foi feito em 2012, quando a mulher fechou um pacote no valor de R$ 1.868 com onze sessões de lipocavitação, radiofrequência, bioplastia, ultrassom e aplicação de laser CO2, com a finalidade de diminuir o contraste entre pele do rosto e olheiras. O tratamento foi realizado na clínica do médico, a Murakami Estética Facial e Corporal, em Goiânia. Após oito meses, surgiram protuberâncias na região aplicada, que passaram a incomodar a paciente.

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Sem poder exercer medicina, Wesley Murakami está com depressão, diz defesa

A mulher procurou outro médico, que constatou fragmentos irregulares e elásticos dentro de suas pálpebras, com indicativos de malignidade, causados pela aplicação de polimetilmetacrilato (PMMA). A substância é utilizada para enxertos e harmonizações faciais de bioplastia. Para a retirada do produto, foi necessária uma cirurgia, realizada em abril de 2014 e, mesmo com a operação, muitos dos fragmentos não puderam ser retirados, em razão da fragilidade dos nervos da região ocular.

A defesa de Murakami alegou que a paciente estava ciente de possíveis riscos, que a substância PMMA utilizada tinha registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e, ainda, que Wesley Murakami possui pós-graduação lato sensu em Medicina Estética, não havendo falar em inexistência de aptidão ao procedimento. Para o magistrado que proferiu a sentença, contudo, o médico não apresentou nota fiscal da substância utilizada na bioplastia, que comprovasse, ao menos, indício de regularidade no procedimento dermatológico adotado.

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Dano estético

Mesmo com a cirurgia reparadora já tendo sido realizada, o juiz Jonir Leal julgou válido o pedido do dano estético pleiteado pela autora. “Foi necessário um procedimento estético sucessivo ao realizado pelos requeridos (Wesley Murakami e e Murakami Estética Facial e Corporal), a fim de minimizar o dano estético sofrido pela requerida. Por isso, revela-se evidente o nexo de causalidade entre o procedimento estético defeituoso e o dano sofrido pela consumidora em sua aparência”.

O magistrado completou que é a orientação “do direito pátrio de compensar o dano estético, ainda que haja possibilidade de reversão com cirurgias plásticas reparadoras. A lesão definitiva remanescente, ainda que minimizada, que deve ser compensada pecuniariamente”. Murakami foi condenado, também, a pagar danos morais, no valor de R$ 2.053,55, em relação aos gastos médicos posteriores que a autora teve.

Leia mais: “Não houve erro médico”, alega defesa de Wesley Murakami

Jonir Leal acrescentou, ainda, que além de todo o acervo probatório, “foram divulgados, em noticiários de difusão nacional, diversos outros casos de procedimentos malsucedidos realizados pelo requerido. Faces disformes em razão da ministração de produtos de forma imprópria, o que reafirma a direção desta sentença”.

Consulta com a reportagem

O Jornal de Brasília marcou uma consulta com o médico Wesley Murakami. A intenção era conhecer a forma de atuação do profissional, uma vez que muitos pacientes relataram tê-lo procurado para procedimentos simples, mas ele acabava os convencendo de fazer a bioplastia

Em uma sala do Taguatinga Shopping, o médico cobrava entre R$ 80 e R$ 130, em espécie, para avaliar cada paciente. Antes mesmo de nossa equipe entrar no consultório, uma jovem também caminhava em direção à sala de Murakami. Em suas mãos estava um celular com fotos de pacientes insatisfeitas. No rosto, era possível perceber que ela também havia passado pela bioplastia. Revoltada, a jovem dizia que “iria fazer um barraco”, caso o médico não a atendesse. Ao entrar na clínica de estética, Beauté Corps, a garota conversou com uma das funcionárias, que dizia que o inchaço poderia acontecer em algumas pessoas. Antes de ir embora, a garota olhou fixamente nos olhos da repórter, como se quisesse dar algum sinal.

Dentro do consultório, Murakami recebeu a repórter com música. Ela disse que sua intenção era fazer limpeza de pele e tratar marcas de espinha. Na primeira conversa, porém, o médico logo disse que o que mais lhe incomodava eram os lábios dela, e não pele. Por isso, indicou a aplicação do PMMA (usado na bioplastia). Para atestar os bons resultados, ele mostrava fotos comparativas de antes e depois de pacientes. Em um caso, ele citou que trabalhou apenas o preenchimento para solucionar marcas de espinha de um homem.

Durante a consulta, Murakami pediu que a repórter ficasse de pé e segurasse um espelho na sua frente. Olhando para o objeto, ele citava imperfeições e como poderia melhorá-las. Em outros momentos, o médico disparava frases sobre a aparência da repórter, como “você é bonita, mas vai ficar ainda mais perfeita” e “seu rosto não é gordo, só precisa de harmonização”.

Ao final da consulta, ele apresentou o orçamento: R$ 4,5 mil para fazer a aplicação do PMMA nos lábios e no nariz, indicados como prioridade. Porém, o motivo inicial da consulta – a limpeza de pele – ele só orçou após insistência da reportagem. Para esse último tratamento, ele recomendou peeling e sessões de laser, além de prescrever medicação: ômega 3, antioxidante e lactobacilos. Sobre as formas de pagamento, foi proposto o parcelamento em até 4 vezes.


https://www.youtube.com/watch?v=weX3TIZWATU&feature=youtu.be

Registrado nos conselhos de Medicina, mas sem especialidade

Wesley Murakami tinha dois registros ativos nos conselhos regionais de Medicina do DF (CRM-DF) e de Goiás (Cremego). No entanto, em ambos não há qualquer indicação de qual é a sua especialidade médica. Caso a especialização existisse, deveria constar ali. Nas redes sociais e nos prontuários, sua assinatura é apenas “médico”.

Em outubro, Wesley Murakami, recebeu uma “Censura Pública em Publicação Oficial” pelo Cremego. Na publicação, feita no dia 23, o conselho ressalta que a penalidade ocorreu por infração aos artigos 1º, 34 e 115 do Código de Ética Médica, que dizem respeito a danos ao paciente, deixar de informar os riscos do tratamento e anunciar títulos científicos que não possa comprovar a especialidade ou área de atuação.

Censura Pública pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de Goiás. Foto: Divulgação

Por meio de sua assessoria de imprensa, o Cremego confirmou a inscrição ativa de Wesley Noryuki Murakami da Silva desde 2003, além de que ele não possui o registro de especialidade médica. Ao ser questionada sobre o andamento dos processos, a assessoria destacou que as apurações ocorrem sob sigilo judicial.

No Distrito Federal, o CRM possui uma sindicância instaurada e um processo ético em andamento. Assim como em Goiás, as informações correm em sigilo, conforme a legislação. Caso seja punido, ele poderá sofrer desde uma advertência confidencial até a cassação definitiva do registro profissional. “O Conselho julga apenas no âmbito ético. Para responder judicialmente, o médico deverá ser denunciado na Justiça”, aponta, em nota.

Médico tem registro ativo nos Conselhos do Distrito Federal e Goiás. / Foto: Reprodução

Saiba Mais

Uma das vítimas de Wesley Murakami é o apresentador do Balanço Geral da Record de Goiás, Oloares Ferreira. A emissora veiculou uma reportagem com outras vítimas. No mesmo dia, o médico postou em suas redes sociais relatos de pacientes que dizem estar satisfeitos com os resultados.


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