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Terceiro lugar em medicina na UnB vem de Ceilândia

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João Paulo Mariano
redacao@grupojbr.com

Com a divulgação do resultado final das notas do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) ontem, tem muita gente com sorriso de orelha a orelha comemorando a tão sonhada entrada na universidade. Alguns desses sorrisos têm endereço no P Norte, em Ceilândia, e pertencem a George Luiz Neres Caetano, 26, e sua família. O jovem ficou em terceiro lugar em Medicina, um dos cursos mais disputados na Universidade de Brasília.

Há três anos ele estuda para se tornar um dos próximos médicos do Distrito Federal. O primeiro de uma grande família, encabeçada por um pai marceneiro e uma mãe costureira. E foi desse núcleo que o rapaz tirou o apoio para aguentar as dez ou 12 horas de estudo diárias, sem contar os deslocamentos de ônibus de Ceilândia para o pré-vestibular no Plano Piloto.

Até algumas horas depois de ter visto seu nome na tela do computador, o jovem ainda se dizia anestesiado pela informação de ter obtido a vaga com a nota 847 no Enem. Até o momento do resultado, assim como é para todo mundo que tenta uma vaga neste curso, não foi uma estrada fácil. Sem muita escolha, ele se valeu da falta de base educacional em áreas importantes, como exatas, e a dificuldade financeira diária como combustíveis para conseguir chegar lá.

“As pessoas que vêm de comunidades como a minha têm costume de ouvir que não podem ‘chegar lá’. A pessoa é criada, historicamente, para não atingir determinadas metas. Em especial aquelas pessoas que têm uma situação financeira mais delicada”, expõe o jovem, que estudava até na parada de ônibus. “Eu sempre aprendi que o peso da enxada é maior que o da caneta. Então, precisava buscar ir além do que as ofertas que me eram dadas”.

George chegou a fazer uma faculdade pela “pressão de ter algum curso rápido”. Ele se tornou pedagogo em um curso semipresencial. Mas tinha a esperança de ir além e que aquilo pelo qual tanto se esforçava viria. O jovem acreditava que a realidade social apresentada a ele não era a única opção. Também não seriam as limitações das escolas públicas em que estudou que iriam impedi-lo.

O jovem sabe muito bem que o caminho que tem pela frente não é nada fácil. Mas entende que a partir de agora depende dele se tornar um bom médico. Depende dele para que haja uma boa formação profissional e ele consiga atender bem as pessoas. Talvez, daqui a alguns anos, o Hospital Regional de Ceilândia receba um antigo morador da cidade não como paciente, mas como médico. Vai ser mais um dos tantos ceilandenses que levarão o nome na região com orgulho no coração, apesar de todos os pesares.

Foto: Myke Sena/Jornal de Brasília.

Família vibra de emoção e mãe até passa mal

A mãe dele, Zulma Maria Neres, 48, alega que o filho sempre foi estudioso e, nos últimos tempos, tinha que “obrigá-lo” a comer porque ele se fechava no quarto para estudar o máximo que pudesse. A costureira não consegue esconder a felicidade. Porém, a emoção foi tão intensa que a fez parar no Hospital de Ceilândia. A pressão subiu muito e ela começou a se sentir mal. Tudo isso em meio a muitas lágrimas e agradecimentos.

“A gente fica muito feliz. Nem todo mundo consegue. É difícil e precisa de muito dinheiro para fazer Medicina em uma faculdade particular. E quem não quer ter um filho médico?!”, brinca a mãe de quatro filhos. George é o penúltimo. Ela diz que já conseguiu se acalmar e agora só vai comemorar a boa notícia. Para ela, que acompanhou o enterro do filho de uma conhecida após o envolvimento com a criminalidade há pouco tempo, ver que o esforço na criação deu fruto tem um gosto especial.

E não é só em casa que o jovem se mostra esforçado. O professor do pré-vestibular em que George conseguiu uma bolsa de 100%, Rogério Basílio, diz que a evolução dele foi maravilhosa e é um exemplo para todos que por ali passam. “Desde quando o George entrou no (pré vestibular) Reciclagem Educacional há um ano, ele utilizou tudo que podia para atingir seu objetivo. Estamos felizes em proporcionar uma correção da base educacional e tudo que ele precisou. Não é vitimização. Ele tem uma realidade diferente da que eu tive. Sei que não é fácil”, afirma.

Agora, George quer retribuir: “Eu utilizo o SUS e quero trabalhar nele para retribuir o que eu recebi. Eu quero chegar até onde o universo quiser me levar. Quero que outros ocupem o espaço da universidade pública. Quero passar para frente o que recebi. As pessoas não podem se sabotar e achar que nunca podem conseguir, mesmo que seja isso que é ensinado para elas. Tem que resistir. Tem que continuar a lutar”, deixa a lição.


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