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Reservatórios do Descoberto e do Torto/Santa Maria batem recorde da década no acúmulo de água

Melhorias nas instalações, chuvas e conscientização são responsáveis; professor alerta para novas crises a longa prazo

Olavo David Neto

Publicado

em

Foto: Willian Matos/Jornal de Brasília
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Os reservatórios do DF nunca estiveram tão cheios. De acordo com o monitoramento feito pela Agência de Águas, Energia e Saneamento do Distrito Federal (Adasa), o nível das águas nas barragens dos Rios Descoberto e Santa Maria alcançou, ao fim da primeira quinzena de setembro, os maiores níveis da década, com 85,8% e 95% das capacidades preenchidas, respectivamente. Além do recorde a curto prazo, o acúmulo no Descoberto é o 4º maior da série histórica, iniciada em 1987.

Os números são motivo de comemoração para o Distrito Federal, que entre 2016 e 2018 anos passou pela pior fase nos sistemas de captação de água, com destaque para 2017: no do Descoberto, responsável pelo abastecimento de quase 64% da população da capital, a água desceu a 22,7% dos quase 103 milhões de metros cúbicos de capacidade no mesmo período observado pelo Jornal de Brasília, enquanto o Torto/Santa Maria, que irriga 19% do DF, registrou apenas 33% de volume hídrico.

As primeiras quinzenas de setembro dos últimos dez anos apresentam média de 62,6% da capacidade para a barragem do Descoberto. Na do Torto/Santa Maria, que também conta com águas da bacia do Paranoá e do Bananal – além de abastecer a menos gente -, o índice se manteve com média superior a 86%. Juntos, os dois sistemas são responsáveis pelo abastecimento de aproximadamente 73% da população brasiliense. Os outros 27%, ressalta Jorge Werneck, diretor da agência, “vêm de poços artesianos”.

Para o gestor, há um “somatório de fatores que explicam o acúmulo recorde nas barragens. Dois deles são responsabilidade dos órgãos públicos. “Houve uma melhora sistemática na gestão dos recursos hídricos, além da capacitação da infraestrutura hídrica do DF com a instalação de novas tubulações”, aponta. Outro fator de peso para o momento histórico é natural, e vem dos céus. “O início do período chuvoso de 2019 foi muito ruim, mas nesse ano já houve chuvas acima da média”, lembra Werneck.

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Segundo levantamentos da Adasa, em parceria com a Companhia de Saneamento do Distrito Federal (Caesb) e o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), houve mais de 1.500 milímetros de precipitação em três pontos ao redor da barragem do Descoberto entre setembro de 2019 e agosto de 2020, período considerado como “ano hídrico”.

Pandemia elevou o uso doméstico

Há, finalmente, o aspecto de cunho popular, já que, após o ápice da crise hídrica, em 2017, os níveis de consumo por habitante não apresentaram aumentos significativos. “O padrão de consumo urbano está muito próximo do observado nos períodos críticos. Em 2017, conseguimos baixar para cerca de 130 litros diário por habitante, e hoje temos mais ou menos 135 litros”, comemora o diretor. “Sem dúvidas a crise trouxe uma conscientização maior”, atenta.

Karla Marques observou um aumento de cerca de 15% nas tarifas de água de março para cá. Apesar da conscientização de não alongar os banhos do filho, Murilo, de apenas três anos, as obrigações de higienização de roupas e sapatos e a própria limpeza das mãos após um período na rua exigem mais cuidados da assistente administrativa. “Se a gente sai para a padaria, apenas lava as mãos minhas e do meu filho, tira os sapatos e junta para lavar depois; se vai ao mercado, porém, que leva mais tempo, chega e já tira as roupas para lavar”, explica.

Outro fator diz respeito à época do ano. “Como está muito quente e seco, eu deixo o Murilo um pouco mais de tempo no banho, para refrescar. Mas, geralmente, eu que dou banho nele, então passo sabão, xampu e logo saímos”, completa Marques. De acordo com o diretor da Adasa, houve crescimento de 4% no consumo residencial, que representa 85% de todo o fornecimento no DF. Os 15% restantes se dividem entre o setor agrícola, além de estabelecimentos comerciais, industriais e sedes de órgãos públicos. Estes últimos, ressalta Werneck, apresentaram redução de 20% a 25%, em função, sobretudo, do teletrabalho.

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Obras e novas instalações aumentarão a capacidade hídrica do DF

Jorge Werneck apontou alguns aspectos que podem contribuir para a autonomia hídrica do Distrito Federal num futuro próximo. Segundo ele, falta pouco para a conclusão da ligação entre os sistema independente Sobradinho/Planaltina ao do Torto/Santa Maria, obra que permitirá melhor gestão e planejamento. “Essa iniciativa vai permitir que haja um controle. Se um estiver abaixo, passa-se a utilizar do outro”, explica ao JBr. o gestor da reguladora. Outra carta na manga é a finalização da represa de Corumbá IV, em Goiás, para fornecimento de água ao sistema do Descoberto.

Para o hidrólogo Henrique Leite Chaves, as saídas sinalizadas pelos gestores dos recursos hídricos no DF são boas, mas a curto prazo. “É razoável essa ligação [do sistema do Santa Maria a Sobradinho/Planaltina] porque a prioridade é o abastecimento ao consumo humano, mas é um cobertor curto”, explica o professor da Universidade de Brasília (UnB). “Torna o sistema Torto/Santa Maria mais vulnerável e passível de sobrecarga”, preocupa-se. Segundo diz, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) aponta redução de 30% nas chuvas da região para os próximos 30 anos.

Assim, seriam “aqueles pratos equilibrados em palitos, que tem de ficar rodando um a cada momento”. Mesmo a construção de Corumbá IV não aliviaria a situação, já que boa parte da produção será destinada a produção de energia. Para Chaves, a melhor solução é resolver os problemas no fornecimento do DF. “Uma alternativa é resolver a perda de água, que desperdiça quatro mil litros por segundo”, aponta o docente, indicando que essa é a quantia prevista para fornecimento ao Distrito Federal da barragem goiana.

A Caesb ressaltou à reportagem os investimentos feitos em infraestrutura hídrica, sobretudo no quesito apontado por Chaves como crucial. “Realizamos investimentos massivos no combate às perdas de água, com mais de R$ 56 milhões em obras de setorização e substituição das redes”, aponta o diretor de Operação e Manutenção da estatal, Carlos Eduardo Pereira. “Também investimentos na ampliação do Reservatório R1, além, é claro, da Estação de Tratamento de Água do Lago Norte”, completa.

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