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Cidades

Racismo em grupo de cervejeiros é denunciado

“Existe racismo? Eu vejo casos isolados”, diz fabricante de cerveja de Luziânia

Pedro Marra

Publicado

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Em um grupo de cervejeiros de Brasília no WhatsApp com mais de 100 integrantes, diversos comentários racistas foram escritos por empresários do ramo de acordo com uma denúncia enviada ao Jornal de Brasília.

Os prints, obtidos com exclusividade pelo jornal contém mensagens enviadas em 26 de junho, que mostram opiniões consideradas racistas sobre casos como o da cervejaria Dogma, de São Paulo. No mesmo dia, a empresa retirou o rótulo da cerveja Cafuza, lançada em 2014, na qual estampava uma escrava com cabelo crespo, fotografada pelo alemão Albert Henschel, na década de 1860.

“Perguntei ontem e hoje para quatro afrodescendentes (vou usar esse termo para não ser chamado de racista) o que achavam do rótulo e se viam racismo. Os quatro acharam o rótulo legal, e não viram nada de racismo. Enfim, cada qual com sua filosofia. Eu vejo pessoas, existe racismo no Brasil? Casos isolados, e tem lei para punir esses manés. Agora usar qualquer coisa em defesa da ‘causa’, onde não se tem nada, e se cria um ‘racismo’ por conta de um rótulo, daí não concordo”, diz Carlos Bufon, dono da microcervejaria Biela Bier, de Luziânia-GO.

Procurado pelo JBr, ele diz que racismo é um caso isolado. “Esse rótulo da Dogma é antigo. As pessoas que mostrei o rótulo são negras. Tem pessoas que considero sem noção que ainda praticam racismo. Consultei quatro pessoas e acharam o cabelo legal. Perguntei se viram racismo, e disseram que não. São pontos de vista particulares. O problema é que isso leva muita coisa negativa para o meio cervejeiro, que é de confraternização. Tem certas pessoas que levam isso fora do contexto”, afirma.

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O cervejeiro se contradiz ao argumentar sobre o preconceito racial. “Não vi racismo na lata. Mas se uma empresa faz uma coisa e ofende um determinado tipo de classe e grupo, pode retirar do mercado o produto. Acho que nem pensaram nessa conotação. Mas existe racismo no Brasil, e tem q ser punido pelo rigor da Lei! Inadmissível em pleno século 21 ainda termos isso. Porém, nesse caso em específico, no meio cervejeiro, eu particularmente vejo casos isolados de racismo, que reforço, têm q ser punidos”, conclui.

Pelas redes sociais, a Cervejaria Dogma publicou uma nota sobre o caso, e “lamenta profundamente pelo uso da figura de uma mulher escrava. Tendo entendido que erramos, a cerveja foi retirada de circulação imediatamente. Também estamos elaborando estratégias para entender como podemos aprender e colaborar oferecendo espaço de voz sobre o tema”, disse a empresa à época.

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Homenagem à cor

Outro homem, identificado como Fábio, durante a conversa pelo WhatsApp, diz que “quem gosta de passado é museu. Não existe cor, raça ou credo. Somos todos iguais. Atrocidades aconteceram e não vão deixar de acontecer. Cabe a nós, cristão ou não, mudarmos essa realidade. Negro, pardos, amarelos, negros, mulatos, albinos, homens, mulheres… qual a diferença? Simplesmente somos todos iguais.”

Em outro momento, o mesmo cervejeiro acredita que, no rótulo da Cafuza, “a intenção não foi menosprezar uma cor, e sim homenagear.”

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O mesmo rapaz diz mais à frente que todos os rótulos da Cafuza foram discutidos e analisados cuidadosamente entre a cerveja e famílias e/ou mercado. “Sou branco, descendente de índio, vou lançar uma cerveja com o nome do meu avô. Qual o problema? Ele era índio. É preconceito”, afirma.

Exercício de desconstrução

Paulo Silva, 45 anos, mais conhecido como Paulão, está há um ano e cinco meses à frente do programa de webrádio Brassaria, que fala sobre cervejas artesanais. O cervejeiro conta que tem debatido tanto o racismo como machismo no meio empresarial. Para ele, a principal influência desses comentários vem do racismo estrutural ainda existente no Brasil.

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“Todos nós fomos criados em uma sociedade machista, racista, escravocrata e patriarcal. Então fomos criados em meio à muitas coisas eram consideradas normais e toleráveis, mas não são”, diz Paulo.

“Devemos fazer um exercício de desconstrução e de enxergar a situação do outro, temos que ter empatia. Nascer branco já é nascer com privilégios e várias portas abertas, privilégios esses que, por muitas vezes, são negados ou nem ofertados aos negros. Algumas dessas portas nunca se abrirão. E é isso que as pessoas têm de entender quando falamos que fulano é branco privilegiado. Não estamos falando de privilégios financeiros, mas privilégios de oportunidades e acessos”, analisa.

Perguntado sobre os efeitos da escolha da escrava na cerveja Cafuza, Paulão acredita que é preciso levar em conta a visão dos pretos em cima de determinado produto. “Uma das palavras mais importantes nessa luta é representatividade. Não é que a cervejaria lançou o rótulo com a intenção pejorativa, mas na visão não negra, talvez eles tiveram uma visão que estavam fazendo uma homenagem. Mas isso é na visão não negra”, pontua.

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Aninho Irachande, 56 anos, é outro representante preto no meio cervejeiro. Há cerca de três anos como dono da Cervejaria Dona Maria, nome em homenagem à sua mãe, ele acredita que é preciso levar em conta a forma como empresários racistas pensam neste mercado.

“O racismo é, infelizmente, presente na sociedade brasileira. Não só no meio cervejeiro. Essas pessoas têm uma percepção do mundo deturpada e deplorável nas suas relações diárias, e trazem isso para o meio cervejeiro. É uma percepção de mundo retrógrado, que não pode ser tolerado. Não são só os empresários [com atitudes racistas], são os consumidores, que infelizmente ainda estão presos a esses estereótipos inaceitáveis na sociedade moderna”, comenta.




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