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Quase 130 mil jovens do DF não estão na escola nem trabalham

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Jéssica Antunes
jessica.antunes@jornaldebrasilia.com.br

Ana (nome fictício) sabe ler, escrever e fazer contas, mas abandonou a escola no sexto ano do Ensino Fundamental. Ela não tem emprego, casou-se aos 13 anos e, hoje, aos 17, carrega no ventre seu segundo filho. A garota, que não tem planos para o futuro, é parte dos quase 130 mil jovens da capital que não estudam nem trabalham. A maioria, como ela, é mulher e a gravidez é um dos principais motivos que levam as garotas a abandonar escola, o trabalho ou ambos. Conforme o Perfil da Juventude do Distrito Federal, divulgado nesta semana, o maior percentual da chamada “geração nem-nem” tem entre 18 a 24 anos e é composta por negros.

Saiba mais

  • O governo de Brasília vai oferecer 1,6 mil vagas na nova etapa do programa “Brasília + Jovem Candango”. O projeto é uma oportunidade de primeiro emprego para jovens de 14 a 18 anos, em situação de vulnerabilidade social, em órgãos públicos do DF.
  • O objetivo é também dar capacitação profissional. Para participar, os candidatos devem estar matriculados em escolas da rede pública de ensino do DF e as famílias dos alunos precisam estar inscritas no Cadastro Único do governo. As inscrições podem ser realizadas pelo site www.jovemcandango.org.br.

“Vou ter um serviço ruim, se tiver, e cuidar dos meus filhos”. É assim que a adolescente, que sonhava ser professora, se vê no futuro. Ela sequer tem carteira de trabalho. Buscou por serviços informais em padarias, lanchonetes e áreas de limpeza. “Mas não contratam pela idade”. Planeja voltar à escola. Um dia. Sem prazo. Agora, com o nascimento do caçula, o plano está ainda mais distante. Seu marido, de 21 anos, também não terminou os estudos, mas trabalha sem carteira assinada como motorista. Aos filhos, Ana deseja que consigam estudar plenamente.

A adolescente vive na Estrutural, uma das regiões com maior taxa de jovens de 15 a 29 anos que não trabalham nem estudam. Ali, o índice é de 26%, atrás de cidades como Fercal (29%), Itapoã (27%) e Recanto das Emas (27%). Segundo o Perfil da Juventude, a maioria dos nem-nem é de negros (23%), que vivem nas áreas com menores conclusões de ensino e estão nas regiões com maior proporção de jovens até 29 anos. No entanto, são aqueles que têm entre 18 e 24 anos que compõem a maior parte dos que não estudam nem trabalham. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), eles são 9,6 milhões em todo o País.

Ocupação

No DF, conforme o Perfil da Juventude, a inserção produtiva entre as regiões mais ricas acontece mais tarde. Enquanto na Estrutural 78% dos jovens até 24 anos trabalham ou estão desempregados, apenas 39% dos jovens do Park Way, por exemplo, já entraram na produtividade econômica. Quando o assunto é remuneração, a desigualdade é ainda mais evidente. Aquelas regiões em que menos pessoas recebem acima de dois salários mínimos têm também a maior parcela de quem não concluiu o ensino básico. No Sudoeste/Octogonal, 82% dos jovens ganham além de R$ 1.760. Na Estrutural, por sua vez, o salário de apenas 7% ultrapassa isso.

Número

Não negros:

  • 81% trabalham e/ou estudam%
  • 19%% “nem-nem”

Negros:

  • 77% trabalham e/ou estudam%
  • 23%: “nem-nem”

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgou, neste ano, a “Carta de Conjuntura sobre o mercado de trabalho” e mostrou: a taxa de ocupação entre os jovens brasileiros vem caindo desde 2013. Os desocupados passaram de 8% em 2015 para 12,2% este ano. O IBGE aponta ainda que 46,5% dos jovens de 15 a 29 anos estão sem trabalho e 20% não estudam nem trabalham.

Quem sofre mais com o desemprego no DF são jovens, mulheres e negros. Informações da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED), realizada pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), apontam que o desemprego nas regiões administrativas com rendas mais baixas cresceu de 22,2% para 22,5% em um ano.

Ponto de vista

“Faltam políticas públicas para a juventude”, assegura o sociólogo e cientista político Antônio Flávio Testa. Para ele, não há dúvidas de que locais vulneráveis influenciam as grandes taxas de nem-nem. “Além da falta de oferta de educação de qualidade e da desmotivação da juventude, a economia local não absorve a população em idade produtiva. Quando conseguem, apelam para serviços informais”, afirma. Em relação ao fato de que a maioria dos nem-nem é de garotas que abandonam escola ou trabalho, o sociólogo diz que “acontece há mais de dez anos”: “É um problema sério porque elas deixam as salas de aula, não têm condições de cuidar dos filhos e, sem formação e dinheiro, ficam ainda mais vulneráveis”.


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