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Protestos marcam sepultamento de Pedrolina: “Parem de nos matar”

Inconsolável, mãe da vítima lamenta: “hoje os homens acham que têm direito de matar mulheres”

Willian Matos

Publicado

em

Foto: Larissa Galli/Jornal de Brasília
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Larissa Galli, Pedro Marra e Willian Matos
redacao@grupojbr.com

Na manhã desta quinta-feira, familiares e amigos se despediram de Pedrolina Silva, perseguida e morta por um homem no último domingo (1). O enterro da assistente social de 50 anos, que aconteceu no cemitério de Taguatinga, foi marcado por indignação e tristeza.

Os presentes soltaram balões brancos pedindo paz e justiça para as mulheres e enfeitaram o túmulo de Pedrolina com flores. Uma faixa de protesto com os dizeres “parem de nos matar”, em referência aos vários feminicídios que ocorreram no Distrito Federal, também foi levantada durante o sepultamento.

A mãe de Pedrolina, dona Alice, se mostrou abalada. Inconsolável, ela chegou a dizer que “hoje os homens acham que têm direito de matar as mulheres”. Inconformados com o crime e tristes com a perda, alguns familiares chegaram a passar mal. O filho de Pedrolina, Matheus, permaneceu calado e chorando durante todo o sepultamento, e passou mal ao se despedir da mãe.

Foto: Larissa Galli/Jornal de Brasília

O irmão mais velho de Pedrolina, Francisco, disse ao Jornal de Brasília que agora que está caindo a ficha sobre a morte da irmã. “Depois de toda a turbulência, o que mais dói é lembrar do estado que ela foi deixada, pior que um animal”, lamentou. Ele foi fazer o reconhecimento do corpo de Pedrolina no Instituto Médico Legal.

Uma amiga de Pedrolina chegou a comentar que ela reclamava das atitudes do rapaz que confessou o assassinato. “Ela falava que tinha um homem que vivia assediando e atrás dela”. Um outro amigo, Francisco Camelo, de 62 anos, confirmou que Pedrolina comentava sobre o vizinho que a incomodava. “Quando ela ia lá para casa, ela dizia que tinha um homem queria namorar com ela, mas ela não queria relacionamento nenhum”.

As amigas de faculdade de Pedrolina também estiveram presentes no sepultamento. Elas se formaram em Serviço Social pela Universidade Católica de Brasília em agosto de 2017. Em seu trabalho de conclusão de curso, Lina, como era chamada pelos amigos e familiares, fez uma pesquisa sobre a violência contra mulher negra no DF.

“Estamos dilaceradas, sem chão. A insegurança é muito grande. Agora nós temos a certeza de que somos presa fácil. Esse é o problema e nossa maior indignação”, afirma a amiga Claudia Regina Carvalho, de 42 anos. No peito, uma foto da festa de formatura da turma estampa a camiseta que vestia, com o dizeres “Feminicídio não!”.

Foto: Larissa Galli/Jornal de Brasília

“Ela queria liberdade, estava super feliz, morando sozinha, tinha concluído o curso, estava trabalhando e tinha acabado de conseguir um apartamento próprio”, lembra Claudia, sobre as recentes conquistas da amiga. “Estava vivendo uma fase muito boa. Depois de trabalhar por sete dias, ela saiu de casa feliz da vida para se divertir e não voltou. Foi cruelmente assassinada, estuprada e esfaqueada”, lamenta. “É um momento muito difícil”, conclui.

Está marcado para o próximo domingo, às 8h, um protesto contra a violência contra a mulher e em memória à Pedrolina na parada de ônibus em que ela foi atacada, na 815 sul (Via L4), organizado pelas amigas da vítima. No dia 10 de setembro, elas também estarão presentes manifestando sua revolta na audiência pública que acontece na Câmara Legislativa sobre os casos de feminicídio que assombram o DF.

Boas lembranças

“O crime é revoltante, mas agora ficam as lembranças boas. Pedrolina era gente fina, uma pessoa maravilhosa, com um sorriso lindo, muito especial”, lembra o amigo Camelo. As amigas de faculdade também lembram de “Lina” com muito carinho. “Ela era muito guerreira, sorridente, centrada e alegre. Gostava muito de estar com a gente e sempre animava participar de encontro com as amigas. No que que foi assassinada, ela tinha certeza que ia ter um dia feliz, de lazer”, finaliza.

O caso

Pedrolina Silva estava desaparecida desde o último domingo. Ela havia marcado de encontrar algumas amigas em uma parada de ônibus na frente da Unieuro, na L4 Sul, às 9h30, para passar o dia no clube Assefaz, no Setor de Clubes Sul. A mulher, que saiu do Paranoá Parque, local onde morava, chegou ao ponto, mandou uma mensagem de voz a uma amiga informando que estava ali e, depois, não respondeu mensagens e nem atendeu ligações. O GPS do celular dela indicava que o aparelho havia sido arremessado no Lago Paranoá.

A Polícia Civil (PCDF), sem pistas do que poderia ter acontecido, tentou acesso às câmeras de segurança da universidade para buscar alguma movimentação. Nas imagens obtidas, foi possível ver Pedrolina sendo abordada por um homem e, após curto período de luta corporal, sendo arrastada por ele. Carros e ciclistas passavam pelo local, mas ninguém interviu. É possível ver abaixo:

VÍDEO: corpo de mulher atacada na L2 Sul é encontrado.A 6ª Delegacia de Polícia (DP) recebeu um print da família que mostrava a última localização do celular da mulher no meio do Lago Paranoá.

Publicado por Jornal de Brasília em Terça-feira, 3 de setembro de 2019

Após quase 36 horas de apreensão, o corpo de Pedrolina foi encontrado já sem vida, a cerca de 300 metros da parada de ônibus. Um dia depois, por volta de 12h, o suspeito foi preso.

O suspeito, que aparece nas imagens lutando com Pedrolina e arrastando-a em seguida, é João Marcos Vassalo da Silva Pereira, de 20 anos. À polícia, ele confessou que seguiu a vítima desde quando ela saiu de casa, no Paranoá Parque, pegou o mesmo ônibus que ela, desceu uma parada depois dela e voltou ao local em frente a Unieuro andando a pé. Em seguida, acontece a briga visível nas imagens das câmeras de segurança.

João Marcos confessou aos policiais que abusou sexualmente de Pedrolina e, em seguida, a matou com um corte de faca no pescoço.

Pedrolina sempre dizia a um amigo que havia um homem querendo namorá-la, mesmo com ela recusando as investidas. Foto: Reprodução

A 1ª Delegacia de Polícia (Asa Sul) é responsável pelas investigações. Segundo a delegada-chefe, Bruna Eiras, “ele disse que a intenção era a violência sexual, mas resolveu matá-la para ocultar o crime do estupro. Talvez ele responda por feminicídio”, afirmou.

Antecedentes criminais

O homem já tem duas passagens na Polícia: uma por tráfico de drogas, em 2017; e outra por tentativa de roubo, em 2018. Com isso, a Polícia Civil afirma que o criminoso vai responder pelos crimes de homicídio qualificado, estupro e roubo do celular da vítima.

Apesar das evidências de João Vassalo ser o real criminoso do caso, a delegada Bruna pondera que irá “aguardar a prova técnica do DNA”.


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