João Paulo Mariano
Especial para o Jornal de Brasília
Enquanto o bebê Enzo Gabriel Sousa luta pela vida no Hospital Regional de Taguatinga, do outro lado do DF, no Paranoá, o gerente administrativo Antônio Emílio do Nascimento faz de tudo para não perder o movimento das pernas. O primeiro precisa de uma cirurgia cardíaca urgente, mas nem uma liminar da Justiça adiantou. O segundo tem de retirar uma hérnia de disco que comprimiu a medula e o faz ter dificuldades para caminhar. Os dois são exemplos da crise na saúde, que já fez o governo decretar quatro vezes estado de emergência.
Enzo Gabriel Sousa Luz nasceu forte e cabeludo, segundo a avó do menino, Maria Delmira Sousa. A manicure não gosta de ver as fotos do neto entubado no hospital, para não se emocionar ainda mais. Maria foi pega de surpresa com a doença do primeiro neto. O problema congênito no coração não apareceu nos exames durante a gestação e só foi descoberto depois de um procedimento no hospital.
Versão oficial
A Secretaria de Saúde informa que o paciente Enzo Gabriel está internado na UTI Neonatal de Taguatinga, onde recebe o tratamento necessário para que seu quadro clínico se mantenha estável até que a cirurgia – realizada apenas no Instituto de Cardiologia do Distrito Federal (ICDF) – seja agendada.
A pasta esclarece que o ICDF é unidade conveniada, com oito leitos de UTI Pediátrica, sendo seis regulados para cirurgias. A remoção será realizada assim que o paciente tiver condições clínicas de ser transferido e passar pelo procedimento cirúrgico.
Sobre o paciente Antônio Emílio, a pasta informa que está apurando o que houve com sua cirurgia.
Ressalta ainda que o ar-condicionado apresentou instabilidade e ficou inoperante no último sábado. Devido a isso, as cirurgias eletivas e de maior complexidade precisaram ser reagendadas. E atesta também que as eletivas mais simples continuam sendo realizadas, bem como as cirurgias de urgência.
O neto nem pôde conhecer o quarto arrumado especialmente para ele, pois nasceu no dia 19 de agosto e não saiu mais do HRT. Depois de alguns dias de nascido, foi descoberto um problema respiratório e, em seguida, no coração. O pequeno teve uma parada cardíaca, mas não desistiu de lutar pela vida. Foi para a UTI do Hospital de Taguatinga e ali aguarda a cirurgia que deve tirá-lo dessa situação.
“Minha filha está tensa. Nem pode ficar sempre no hospital porque ele está na UTI. A esperança é a cirurgia para que ele fique melhor, já que deve ter outras sequelas devido ao problema”, lamenta a avó, que reza todos os dias para que tudo dê certo.
Em 31 de agosto, o plantão do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) determinou que o recém-nascido receba o auxílio necessário em uma unidade de UTI Neonatal em local apropriado para fazer a cirurgia de coração. Mas, até agora, nada foi feito.
Só de janeiro a julho deste ano, a Defensoria Pública do DF recebeu 560 pedidos de urgência em UTI – são quase três pedidos por dia. No mesmo período do ano passado, foram 509 e, em todo 2015, 801. As solicitações de tratamento em 2016 até julho somaram 256, para cirurgia 142, e consultas, 72.
Paranoá
“A equipe (do hospital) é fantástica, atende, conversa. Faz tudo o que pode e o que não pode. Mas, para a cirurgia, só se tirarem do bolso deles, e isso não dá”, relata Antônio Emílio do Nascimento, que aguarda para fazer o procedimento que dará a liberdade para andar novamente.
Ele tem uma hérnia de disco que pressionou sua medula óssea e impede de que sua movimentação seja normal. A operação de retirada da hérnia é a saída.
Por enquanto, ele só se movimenta com a ajuda do andador ou da cadeira de rodas. Como morava sozinho, um irmão de Antônio veio de Minas Gerais só para auxiliar o gerente administrativo na locomoção para os exames.
Cancelamento por falha no ar-condicionado
Na semana passada, Antônio Emílio foi encaminhado do Hospital de Base para o do Paranoá, que estaria apto a fazer a cirurgia de hérnia de disco. Porém, o procedimento não foi realizado porque o ar-condicionado quebrou. Antônio explica que ele e outro paciente se dispuseram a consertar o aparelho. Como não havia jeito, a equipe médica deu duas possibilidades: esperar ser chamado para a operação em casa ou no hospital. Ele escolheu a primeira opção.
Defensoria Pública
O Núcleo Plantão da Defensoria Pública do Distrito Federal atende a todos casos de natureza urgente em que há risco grave de perecer o direito do cidadão. Esta foi a forma que a Instituição encontrou para cuidar do direito da pessoa que precisa de assistência jurídica fora do expediente normal dos fóruns, ou seja, entre 19h e 12h do dia seguinte.
Os principais casos atendidos pelo Núcleo Plantão são ações de pedido de UTI nos hospitais, habeas corpus, liberdade provisória, revogação de prisão cível quando o cidadão já pagou os alimentos e continua preso por algum motivo, liberação de corpo para sepultamento, autorização de viagem de menor ao exterior e demais casos de natureza urgente.
As dificuldades começaram há mais tempo. Antônio precisou sair do emprego para se tratar e, sem salário, teve de se virar para pagar por uma ressonância magnética. Caso contrário, teria de esperar quase um mês na rede pública. Ele também arcou com a seringa para o procedimento na coluna. Para o paciente, só existe uma constatação: “A secretaria abandonou os hospitais”.
Ontem, a equipe do HRP o avisou de que a cirurgia ocorreria hoje. Ele se encheu de esperança.
No mesmo hospital, a estudante Deliane Rodrigues, 28 anos, passou por dificuldades parecidas, no mês passado. Após cortar a mão, ela teve que entrar na Justiça garantir o atendimento. “Dois dias depois, consegui fazer a cirurgia em um hospital particular na Asa Sul. Quando procurei uma unidade pública, me disseram que não tinha vaga e havia 900 pacientes na minha frente”, relata.
Ela corria risco de perder os movimentos da mão esquerda. A jovem chegou a procurar o Hospital de Base, onde recebeu os primeiros procedimentos, mas foi orientada a procurar o HRPa. (Colaborou Manuela Rolim)
MAIS SOBRE SAÚDE
Grávida perde o bebê após alta
A família de Bianca Chavier, 19 anos, acredita que a falta de atendimento no Hospital Regional do Gama causou a morte do bebê que a jovem esperava. Segundo a prima Brenda Gonçalves, Bianca, que estava grávida de 40 semanas, sentiu fortes dores e foi levada ao HRG no domingo. No entanto, os médicos enviaram a mulher de volta para casa. O parto seria normal e a jovem ainda não teria dilatação suficiente para o parto.
Para Brenda, a família não tinha a instrução necessária para brigar pelo atendimento, nem para saber o que fazer em um momento como esse. Na madrugada de domingo, Bianca voltou a sentir dores e teve sangramento. No início da manhã, resolveram retornar ao hospital. Quando fizeram novos exames, descobriram que a criança não tinha batimento cardíaco.
Na manhã de ontem, a jovem recebeu medicação para conseguir passar pelo procedimento de um parto normal, pois a cesárea seria muito agressiva. A família de Bianca não deu certeza se vai levar o caso para a Polícia Civil. Ao G1, a Secretaria de Saúde informou que a paciente teve “falso trabalho de parto” e por isso foi liberada.
MPF aciona Justiça por mamografia
Diante da constatação de que quase 6 mil mulheres aguardam para fazer uma mamografia pelo Sistema único de Saúde em Brasília (SUS/DF), o Ministério Público Federal (MPF) enviou à Justiça uma ação civil pública contra a Administração da capital. A principal solicitação é para que o Judiciário obrigue o GDF a apresentar um cronograma que possibilite zerar a fila de espera para o exame no prazo máximo de 180 dias. Pelo pedido, que tem caráter liminar, o cronograma deve ser apresentado, no máximo, em 30 dias.
O MPF requer ainda que o poder público distrital seja condenado a implementar, com urgência, ações de saúde que assegurem prevenção, detecção, tratamento e acompanhamento do câncer de mama no âmbito do SUS/DF. O MPF também quer que a Justiça imponha ao GDF a obrigação de concluir, em 45 dias, os processos de contratação de serviços de manutenção e aquisição dos sistemas e aparelhos necessários à modernização de pleno funcionamento dos serviços de radiologia para o diagnóstico de câncer de mama.