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Jovens relatam perseguição de segurança no Extra

Caso, denunciado ao JBr ocorreu em unidade da Asa Norte com três jovens. Hipermercado abre investigação sobre a situação

Pedro Marra

Publicado

em

Foto: Vítor Mendonça/Jornal de Brasília
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Em denúncia enviada ao Jornal de Brasília, um grupo de três amigos diz ter sido perseguido por um segurança do hipermercado Extra, da Asa Norte, por volta de 19h12 da última quarta-feira (1). Ao longo de várias sessões do estabelecimento, os rapazes informaram que continuavam sendo seguidos pelo funcionário, que só parou quando eles chegaram no caixa para pagar as compras.

Após o ocorrido, os jovens foram até o chefe da segurança questionar a atitude. Em áudio gravado, o responsável pelo setor, Walvademir, diz que é um protocolo padrão da empresa, mas não explica os motivos para os rapazes terem sido seguidos. Segundo o rapaz que fez a denúncia, Gabriel Kleyrner, 24 anos, estudante de Comunicação Social na Universidade de Brasília (UnB), foi a terceira vez que ocorreu essa situação, que ele considera desconfortável.

Ele diz que costuma ir com os amigos à noite ou de madrugada para evitar aglomerações durante o dia. E relata que nem sempre é o mesmo segurança que persegue o grupo de amigos no Extra. “A gente é cliente do hipermercado e praticamente todo dia fazemos compras aqui. E toda vez tem um [palavra confusa] seguindo a gente em todo corredor que a gente passa. Pessoas brancas não passam por isso, então não sabem o que é uma pessoa preta ser seguida. Antes mesmo dela saber se está fazendo alguma coisa de errado, não sabem o quão desconfortável é você estar dentro de um mercado fazendo suas compras e ter [alguém] do mercado seguindo você. E isso se enquadra em crime de racismo, e se o mercado não tomar uma providência eu vou tomar”, protesta o rapaz, morador da Asa Norte.

Em seguida, o chefe da segurança pergunta como foi o tom da abordagem, o que não chegou a ocorrer. “Em algum momento essa pessoa constrangeu o senhor com a fala?”, questiona. Gabriel, então, contesta. “Não só no sentido de fala, ela fica atrás”, diz. Logo após, o responsável pelo setor diz o seguinte: “Eu não quero saber. Nós somos um ambiente público, e por ser público a gente só faz as rondas dentro da loja para ajudar da melhor forma possível qualquer cliente. Independentemente de raça, a gente está aqui para ajudar. Ele [funcionário] tem que andar na loja inteira, senhor”, afirma o homem. “Sim, ele tem que andar na loja inteira, mas não atrás de mim”, retruca Gabriel. “Pode ficar tranquilo, não vou deixar nenhum deles passar nenhum tipo de constrangimento com os senhores. Mas é o nosso trabalho, senhor. Espero que você entenda dessa forma”, propõe o chefe da segurança.

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Ao ouvir o argumento do funcionário, Gabriel critica as medidas de segurança do Extra. “Não é o trabalho. O protocolo de vocês está errado, equivocado. Uma coisa é você andar e outra é você andar atrás…”, diz Gabriel. “Se ele ofendeu o senhor com fala, com discriminação e alguma coisa, aí sim eu falo com o senhor”, alega o funcionário.

No áudio, o estudante discorda do lojista com veemência. “Discriminação não precisa ser fala, são atitudes, atitudes racistas, que pessoas brancas não passam aqui dentro. Já é a terceira vez. Isso não é uma ronda, isso é perseguição. Vou abrir uma ocorrência contra o estabelecimento e o responsável, porque o senhor está sendo totalmente irresponsável, defendendo uma atitude racista dentro de uma loja. Eu não estou perguntando, é uma questão que eu estou afirmando e aconteceu comigo e eu tenho testemunhas. Como vocês passam por cima disso e me falam que é protocolo?”, protesta. “Está certo, o senhor tem que buscar o direito do senhor. A gente está aqui para ajudar da melhor forma possível”, repete o responsável pela segurança do hipermercado.

Após a discussão, Gabriel vai com os amigos conversar com o gerente do estabelecimento, chamado Josué. “Qual o motivo para ele estar atrás de mim? Agora eu quero um motivo plausível e que se enquadre em alguma atitude. Eu não pedi ajuda, meus amigos não solicitaram ajuda”, diz Gabriel. “Ele não falou nada com você? Só circulando na loja? Porque é o papel dele circular na loja”, pergunta o representante da unidade. “Não, ele simplesmente ficou andando atrás da gente. Seguiu a gente até o momento em que fomos até o caixa”, refuta o jovem.

Em seguida, a amiga de Gabriel detalha mais informações da situação. “Tem vezes que a gente vem de madrugada, aí a gente se separou para comprar algo diferente. E eles [Gabriel e o outro amigo] estavam juntos, e o cara foi atrás deles. E tinha ninguém no mercado. Por isso que a gente está reclamando, porque é uma situação desconfortável”, esclarece Cecília Baptista, 19 anos.

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“A gente vai estar conversando para ver essa questão direitinho o que está realmente acontecendo. Se caso ele fez isso ou não, vamos ver o que vai ser decidido, porque a todo instante a gente tem problema de furto, ter que chamar a polícia, a todo momento. Então, estamos ligados o tempo todo. Vou analisar direitinho. Se caso isso aconteceu, a gente vai apurar direitinho para isso não acontecer mais. Mas de antemão, peço desculpas pelo fato de vocês dizerem que foram perseguidos”, conclui.

Ouça o áudio:

Testemunha confirma outro caso

Amigo de Gabriel no grupo de jovens, João Felipe de Souza, 19 anos, confirma a história contada por Cecília, em que já passaram por outra situação de perseguição no hipermercado.

“Estávamos no Extra pela madrugada em um grupo de amigos. Como era madrugada e o mercado já estava mais vazio, a gente não se importou tanto que o fiscal de prevenções ficasse mais próximo. Em dado momento, para agilizar as compras, a gente se dividiu pra pegar as coisas de lugares diferentes, então ficou eu e o Gabs [apelido de Gabriel] juntos. Fomos para outra parte que era totalmente contrária ao lado do mercado em que estávamos, e o fiscal ficou atrás da gente durante todo esse tempo. Quando chegamos no setor que queríamos, ele ficou vigiando a gente, os negros do grupo, porque a outra galera que se separou eram brancos”, detalha.

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“Ele só parou quando a gente ficou reparando que ele estava lá. Isso gerava incômodo porque ele estava como se fôssemos roubar algo. A gente percebe quando estão olhando para gente desconfiados. É aquela olhada de canto que você repara ou quando você olha para ele, ele tenta disfarçar que estava nos observando. O que nos diferencia do restante das pessoas? Ele veio atrás dos negros e ficou até perceber o incômodo. Em momento algum realizou o mesmo tipo de tratamento com as outras pessoas que eram brancas”, relata João.

Extra vai abrir investigação interna

Procurada, a assessoria do Extra enviou uma nota de pesar devido à situação causada com Gabriel e seus amigos. “Assim que teve conhecimento sobre o caso, o Extra instaurou uma investigação interna para apurar com os envolvidos na abordagem os motivos do ocorrido e, assim, tomar todas as providências necessárias. Também está em contato com o cliente para ouvi-lo e mantê-lo atualizado do andamento da apuração. Independentemente disso, a rede não concorda com a situação pela qual os clientes descrevem ter vivenciado e reforça que não possui protocolo orientando tal atitude. Nenhuma prática discriminatória é tolerada pela companhia, que estaria em total desacordo com suas políticas e valores. A rede retornará ao cliente o mais breve possível, tão logo tiver novas informações sobre a apuração”, diz o texto de posicionamento da empresa, que já entrou em contato com Gabriel assegurando que irá tomar as devidas providências.

Unidade pivô do caso fica localizada na 716 Norte. Foto: Vítor Mendonça/Jornal de Brasília

Ocorrência registrada

Diante do ocorrido, Gabriel registrou boletim de ocorrência eletrônico na Polícia Civil (PCDF) no início da tarde de quinta (2). A natureza do caso foi dada como perturbação da tranquilidade. No denúncia documentada, diz que ele “estava no mercado Extra com dois amigos, quando pela terceira vez, um fiscal de prevenção de perdas começou a lhes seguir por todos os corredores do estabelecimento. Disse que a perseguição só parou quando foram para o caixa efetuar o pagamento.”

Ao final, o texto menciona as perguntas feitas pelo rapaz aos funcionários do hipermercado. “Então, questionaram o responsável pela segurança do estabelecimento o porquê do funcionário lhes seguir em todos os corredores que iam, e a resposta foi que esse era o protocolo da empresa, que ele só estava lá para lhes ajudar. Questionaram por segunda vez, dizendo que a atitude do funcionário os deixou extremamente constrangidos, dado que não era a primeira vez. A atitude racista foi perceptível, quando solicitou falar com o gerente geral, Senhor José, que deu a seguinte justificativa: ”Aqui todos os dias temos um grande índice de furtos e roubos, então pode ser que ele estava em uma investigação e os confundiu”, finaliza a ocorrência.

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