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Há gente que passa fome a apenas 2 km do Alvorada

Dados do Ministério da Saúde, obtidos pelo Jornal de Brasília, contrariam recente fala do presidente

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Na ultima sexta-feira, oAdriano, 23, e Giovana, 17, enfrentam dificuldades para se alimentar, se viram como podem com o dinheiro da coleta de reciclagem que fazem.Foto: Vitor Mendonca/Jornal de Brasilia

A fome também ronda a capital da República

Cerca de 3,1% das crianças de 0 a 5 anos estão com o peso baixo ou muito abaixo para a idade no Distrito Federal

Larissa Galli e Vítor Mendonça
redacao@grupojbr.com

Na última sexta-feira, o presidente Jair Bolsonaro fez uma declaração afirmando que “falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira”. Alguns dias antes, no dia 15 deste mês, o relatório anual da Organização das Nações Unidas sobre o Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo apontou que a parcela de desnutridos no Brasil caiu de 4,6% da população entre os anos de 2004 a 2006 para 2,5% no período de 2016 a 2018. Isso quer dizer que mesmo com a queda do índice, aproximadamente 5 milhões de brasileiros ainda passam fome.

Entre os indicadores usados pelo Ministério da Saúde para medir a deficiência nutricional estão o Índice de Massa Corporal (IMC), usado mais para avaliação de adolescentes, adultos e idosos; a relação altura e idade, a relação peso e altura e a relação peso e idade, que é o indicador mais preciso para obter informações sobre o estado nutricional.

No Distrito Federal

Dados de 2018 do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan) do Ministério da Saúde mostram que, no Distrito Federal, 3,1% das crianças de 0 a 5 anos estavam com o peso baixo ou muito baixo para a idade. Entre as crianças de 5 a 10 anos, esse número passa para 2,84%. Já entre adultos, 2,39% apresentam baixo peso de acordo com o IMC. Além disso, 10,3% das crianças menores de 5 anos acompanhadas estavam com déficit de altura para idade (desnutrição crônica).

Os números do DF se aproximam da média nacional, mas são menores que a média da região Centro-oeste. Em todo o país, 4,13% das crianças de 0 a 5 anos estão com o peso baixo ou muito baixo para a idade, enquanto em toda a região Centro-oeste o número é de 3,5%.

No recorte de 5 a 10 anos, 3,82% das crianças brasileiras ainda estão abaixo do peso. Na região Centro-oeste, essa média é de 2,49%. Mais de 2% dos adultos brasileiros estão com baixo peso. Esses números mostram que das crianças menores de 10 anos acompanhadas, 393.745 estavam com baixo peso no país.

Bastava o presidente Bolsonaro fazer uma pequena caminhada que ele poderia ver a realidade da fome na capital do Brasil. A 2,4 km do Palácio da Alvorada, residência oficial da Presidência da República, 12 famílias vivem em um acampamento e nem todos os dias conseguem fazer as três refeições diárias recomendadas.

Casal se alimentou de comida jogada no lixo

Adriano, 23, e Giovana, 17, enfrentam dificuldades para se alimentar, já que não recebem cesta básica e as doações são escassas. Foto: Vitor Mendonça/Jornal de Brasilia

O casal Adriano Machado, de 23 anos, e Giovana da Conceição, de 17, vivem há três anos na “invasão cerrado”, como eles chamam o local. Com o pouco dinheiro que ganham da venda de latinhas, eles compram arroz e feijão para se alimentar, mas nem sempre é suficiente. Eles contam que já houve dias que precisaram procurar comida descartada no lixo para não passar fome. Outra vez, Adriano precisou pedir ajuda para o pai para conseguir comprar os alimentos. “Se não fosse isso, a gente ia ficar sem comer. Não recebemos doações e nem ajuda do governo”, diz Adriano.

 Foto: Vitor Mendonca/Jornal de Brasilia

No mesmo lugar, a família de Edson* também reclama da falta de comida. Ele, a esposa e o filho de 6 anos se sustentam por meio da reciclagem e recebem apoio do Centro de Referência de Assistência Social (Cras), que entrega cesta básica, e de solidários que deixam doações de alimentos no local. Quando a situação aperta, eles precisam abrir mão de pelo menos uma refeição do dia. “Às vezes a gente come só 2 vezes por dia”, afirma o rapaz.

Ainda segundo o relatório da ONU, as crianças que vivem em lugares afetados pela insegurança alimentar no Brasil têm uma maior probabilidade de ter problemas no crescimento. Também no Brasil, o documento apontou que viver em lugares afetados pela insegurança alimentar aumenta a probabilidade das mulheres terem anemia.

Saiba Mais

O relatório anual da ONU também apontou que aproximadamente 820 milhões de pessoas não tinham o suficiente para comer em 2018. O número é superior aos 811 milhões, divulgado no ano passado, em referência a 2017.

Na América Latina e Caribe, 42,5 milhões de pessoas passam fome. Também é nessa região que a insegurança alimentar é mais frequente em mulheres do que em homens.

O relatório apontou redução pela metade do número de crianças que sofrem de desnutrição crónica. Mas, segundo a ONU, a redução é muito baixa e coloca as metas de nutrição do Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável 2 fora de alcance.


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