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Grupo especializado em roubo e desmanche de veículos entra na mira da PCDF

Trata-se de uma megaoperação: são 120 mandados de prisões preventiva e temporária e de buscas e apreensões. 450 policiais participam da ação

Willian Matos

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Willian Matos e Larissa Galli
[email protected]

Uma organização criminosa especializada em roubo e desmanche de veículos é alvo da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF). Trata-se de uma megaoperação: nesta segunda-feira (30), são cumpridos 120 mandados de prisões preventiva e temporária e de buscas e apreensões. Cerca de 450 policiais e 18 auditores da Secretaria de Fazenda do DF participam da ação, equipados com três aeronaves e 100 viaturas.

Os mandados são cumpridos no Distrito Federal, em São Paulo e em Goiás — mais precisamente nas cidades de Campinas-SP, Valinhos-SP, Hortolândia-SP, Indaiatuba-SP, Brasília-DF, Goiânia-GO e Águas Lindas de Goiás-GO.

Como agiam

Em Brasília, 20 lojas de revenda de peças roubadas foram fechadas no setor H Norte de Taguatinga e 14 pessoas foram presas, até o fechamento desta edição.

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Segundo investigações, os veículos eram roubados e furtados em Campinas-SP e regiões vizinhas. Em seguida, eram cortados em galpões gigantes e enviados ao DF e às cidades goianas supracitadas. Pelo menos seis caminhões diferentes faziam o transporte das peças por até três vezes na semana. Cada caminhão comportava, em média, 10 carros já cortados. Em Brasília, o Setor H Norte, em Taguatinga, era a principal região em que os suspeitos atuavam.

O delegado Eric Salum, que atua no caso, relembra que, durante a investigação, uma espécie de quebra-cabeça auxiliou os agentes a entender como o grupo tocava a “verdadeira indústria de roubo e furto de carros”:

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“​Durante a investigação, um desses caminhões acabou sendo apreendido e toda sua carga retirada. Nessa oportunidade, foi possível montar, como um quebra-cabeça, 10 carros completos (quatro portas, capô, tampa traseira, teto, para-choques, paralamas, faróis, lanternas, espelhos e toda parte de acabamento e mecânica). Os criminosos chegavam a enviar as baterias dos carros e até mesmo os extintores de incêndio que vinham ainda carregados.”

O grupo também emitia notas fiscais frias e suprimia os números de identificação do chassi, ludibriando a fiscalização rodoviária e impedindo que as autoridades vinculassem as peças transportadas a ocorrências de roubos e furtos em São Paulo. Ao cometer roubo em um estado e remeter as peças dos carros para o DF e o estado de Goiás, os suspeitos ficavam de fora do radar das autoridades locais.

Para ir além nas investigações, os policiais se infiltraram no Setor H Norte, simularam compras de peças e conseguiram entender como o esquema funcionava, até chegar nos núcleos de SP e GO do grupo criminoso.

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Ilegalidade no H Norte

Para Salum, as lojas do setor de autopeças referido, localizado em Taguatinga, “são um câncer”. “O setor de revenda de autopeças usadas no DF, em especial as lojas localizadas no setor H Norte de Taguatinga, são um câncer instalado em plena capital da república e precisam ser combatidas até mesmo para proteger o bom empresariado que tem sofrido com a concorrência desleal”, afirmou. De acordo com a PCDF, pelo menos 95% das lojas de todo o DF atuam de forma ilegal. Direta ou indiretamente, a grande massa de revendedoras de autopeças comercializam peças furtadas ou roubadas.

A corporação ressalta que as investigações avançam para desvendar outras rotas ilegais de transporte de peças e prisão de mais lojistas que também se encontram envolvidos. “Queremos mandar uma mensagem clara não só aos maus empresários do DF, mas também aos criminosos de outros estados. Quanto àqueles que se achavam seguros por estarem em outros estados, demonstramos que nossa força técnica e operacional é capaz de buscar qualquer um em qualquer ponto do território nacional. Saibam que enviar peças roubadas ao DF não é mais um bom negócio”, avisou o delegado da Coordenação de Repressão aos Crimes Patrimoniais (Corpatri), André Luís da Costa e Leite.

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Ao contrário dos europeus, os empresários de Brasília sabiam da procedência das peças. “Os proprietários das lojas estavam comprando, conscientemente, peças roubadas e enriquecendo através da pilhagem do patrimônio da população. Alguns carros eram até oriundos de latrocínios”, explica o delegado responsável pelo caso e diretor da divisão de repressão à adulteração de veículos e desmanches da Coordenação de Repressão aos Crimes Patrimoniais (Corpatri) , Erick Sallum.

Segundo o delegado Sallum, pelo menos seis caminhões foram identificados como meio de transporte das peças. “Os caminhões comportavam até dez carros roubados. Alguns chegavam a fazer a rota SP-GO-DF até quatro vezes por semana, ou seja, aproximadamente 40 carros roubados eram trazidos para Brasília semanalmente”, detalha. “Um dos motoristas que foi preso hoje confessou que trabalhava fazendo esse tipo de frete há mais de 10 anos”, completou.

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Ou seja, a partir desses dados, a estimativa da PCDF é que a organização criminosa já teria enviado ao DF, na última década, pelo menos dois mil carros roubados. Ao chegarem no DF, as peças eram distribuídas em dezenas de lojas que as inseriram no mercado com a emissão de notas falsas, fazendo girar uma máquina de lavagem de dinheiro e uma série de fraudes tributárias.

“A quebra de sigilo fiscal demonstrou que nenhuma dessas lojas estavam emitindo notas fiscais. Sem a emissão dessas notas não há controle financeiro e consequentemente não há o recolhimento tributário. Foi por isso que a Secretaria de Economia do Distrito Federal participou da operação e contribuiu com 18 auditores fiscais para compor as equipes e efetuar as devidas autuações administrativas”, explicou o Erick Sallum.

Dificuldades

Segundo ele, a dificuldade da PCDF é provar que as peças são roubadas, já que muitas não possuíam número de série. “Os empresários envolvidos ainda se utilizavam de uma série de notas fiscais de compras de carros em leilões para dificultar o trabalho da fiscalização”, pontua Sallum.

Segundo a PCDF, ficou comprovado que, pelo menos, 95% das lojas do DF se encontram atuando fora da legislação vigente (Lei n. 12.977/16) que exige uma série de condicionantes para autorização de funcionamento. Também ficou claro que, direta ou indiretamente, grande parte das lojas de autopeças do DF está vendendo peças de carros roubados/furtados não só no DF, como também em outros estados.

O delegado Erick Sallum destacou que isso acontece porque “há uma falha de fiscalização no DF e os maus empresários se aproveitaram disso para crescer”. Além disso, a polícia explicou que ao roubar ou furtar veículos em um estado e remetê-los para outro, a organização criminosa conseguia ficar fora do radar das autoridades locais. Pensando nessa impunidade, os carros roubados eram enviados para o DF.

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Mas, de acordo com a PCDF, essa operação demonstra que a polícia está atenta. “Nós sabemos que no setor H Norte tem centenas de lojas de autopeças e muitas delas revendem peças roubadas. A nossa pretensão agora é analisar o material que nós apreendemos hoje, em especial os telefones celulares, e a partir daí expandir a operação para que a gente consiga, pelo menos, colocar esse mercado nos trilhos”, declarou o delegado.

“Não vamos tolerar a zona de livre comércio de peças roubadas estabelecida no setor H Norte em Taguatinga. Demonstramos que nossa força técnica e operacional é capaz de buscar qualquer um em qualquer ponto do território nacional. Enviar peças roubadas ao DF não é mais um bom negócio”, completou o coordenador da Corpatri, delegado André Luís da Costa e Leite.

Todos os indiciados vão responder por organização criminosa, roubo qualificado, receptação qualificada, lavagem de dinheiro, uso de documento falso e fraude tributária. As penas máximas somadas podem ultrapassar os 30 anos de prisão. As lojas dos criminosos foram interditadas e todos os estoques de peças sem procedência foram apreendidos.




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