João Paulo Mariano
redacao@jornaldebrasilia.com.br
Apenas dois dos três detidos durante a investigação do latrocínio da jornalista e analista do Ministério da Cultura (MinC) Maria Vanessa Esteves, na última terça-feira, continuam presos. Alecsandro Lima, 26, foi encaminhado para a carceragem do Departamento de Polícia Especializada (DPE) da Polícia Civil e o adolescente J.W.P.G., de 15 anos, está sob tutela da Vara de Infância.
Glauber Barbosa da Rocha, 42 anos, locatário do apartamento onde os outros detidos foram encontrados – Bloco B da 208 Norte –, ficou livre após prestar depoimento e assinar um termo circunstanciado. Ele conversou com a reportagem do JBr. e negou envolvimento no crime, além de alegar não conhecer a vítima.
Tanto Maria Vanessa quanto Glauber trabalhavam no MinC e faziam pós-graduação na Universidade de Brasília (UnB). A coincidência levou à indagação de que poderia haver alguma outra motivação para o crime. “Eu parei de trabalhar em 2014. Fui para uma clínica e, em 2015, nem estava em Brasília”, afirma. Foi nessa mesma época que Maria Vanessa começou a trabalhar no ministério. De acordo com a Divisão de Comunicação da Polícia Civil (Divicom), essas possíveis conexões ainda são investigadas.
- Foto: John Stan
- Foto: John Stan
- Foto: John Stan
Depoimento
- Por que você acolheu os envolvidos e os deixou lá?
Glauber: A verdade é que eu acolhi eles. Eu precisava de droga. Falei: ‘vocês ficam uma semana e depois vão embora’. Depois disso, já rolou faca. Foi sorte não ter sido agredido. Não os expulsei porque fiquei com medo de chamar a polícia.- Eles comentavam sobre os crimes?
Glauber: Comentavam. Eles roubavam carros, casas e o diabo. Levavam mochila. Chegavam até com algema. Uma loucura do c*. Na noite do crime, a gente utilizou crack e maconha, basicamente. Nem tinha botado muita fé que eles tinham feito isso com a servidora, até falei isso para o delegado.- O que você vai fazer agora?
Glauber: Não quero ficar internado. Fiquei dois anos internado. Meu sangue ficou podre. Quero é estudar. Gosto da área social. Acabei faltando muito. Mas quero me livrar da droga.
Esquizofrenia
O homem passou no concurso para o MinC em 2010, mas foi aposentado por invalidez em 2015. O motivo seria esquizofrenia, cujos sintomas se intensificaram com o uso de drogas. “Uso crack, maconha, cocaína. Sou total flex”, brinca, ao expor que não vende, mas utiliza os entorpecentes.
Foi na tentativa de comprar substâncias ilícitas que Glauber conheceu Alecsandro Lima e o adolescente de 15 anos que cometeram o latrocínio – roubo seguido de morte – contra a jornalista. Ele teria chamado os jovens para ficar na casa dele por um tempo, para depois irem embora. Porém, segundo o relato dele, os suspeitos não quiseram sair de lá e ameaçaram o homem com faca diversas vezes. Por medo, ele não os denunciou.
Histórico
Glauber admite que foi preso uma vez. De acordo com a Polícia Militar, no mês passado, o ex-servidor foi detido por dirigir sob efeito de álcool e de entorpecentes, no Plano Piloto. O apartamento dele estaria sempre cheio de usuários de drogas. Eles ficam um tempo lá, dormem, depois vão embora, mas nunca sem causar algumas confusões e pequenos delitos, segundo seus vizinhos.
Uma moradora, que, por medo, não quis se identificar, reclamou que não tem paz devido à presença de Glauber e seus companheiros. “Saio de casa sem celular porque tenho medo”, afirma. Ela diz que no prédio muitas famílias se incomodam com o jeito que o homem se porta e que seria necessária a saída dele. “Tem dias que acordo às 3h ou 4h da manhã com ele gritando e esmurrando as paredes”, revela.
A reportagem do JBr. procurou o síndico do condomínio para saber se alguma providência será tomada para amenizar o desconforto dos moradores. No entanto, ele preferiu não prestar nenhuma informação.
Adolescente tem longa ficha
O adolescente que desferiu o golpe fatal em Maria Vanessa foi apreendido diversas vezes. A última foi em 28 de julho, na 306 Norte, porque havia um mandado de busca e apreensão. Só na Asa Norte, foram cinco apreensões, maior parte por roubo. O major Michello Bueno, que participou da penúltima ocorrência, se indignou ao saber que se tratava do mesmo rapaz: “A lei tinha que ser mais rígida. O policial se frustra. Somos pressionados pela sociedade a dar mais segurança, mas nosso trabalho é desfeito”.
Durante a apresentação dos detidos, o delegado Laércio Rosseto revelou a tranquilidade do menor ao falar da pena branda que ele sabia que receberia. O adolescente seria o mais frio da dupla e não apresentava remorso.
O rapaz está sob os cuidados do setor do Tribunal de Justiça que cuida de adolescentes em conflito com a lei, onde não deve permanecer por mais de 24 horas. O prazo para a sentença ser declarada é de 45 dias. Ele pode permanecer recluso por no máximo por três anos.


