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Empresa de turismo causa aglomeração na Chapada dos Veadeiros

Denúncia enviada ao JBr por guias de Alto Paraíso de Goiás provam que a Ecotour tem levado de 20 a 50 pessoas em passeios durante a pandemia

Pedro Marra

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Há cerca de um mês, uma empresa de turismo de Brasília chamada “Ecotour – Aventuras Ecológicas” tem causado aglomerações com mais de 20 pessoas e, às vezes, com aproximadamente 50 ao trazer turistas da capital federal para passeios em trilhas da Chapada dos Veadeiros. Em denúncia enviada ao Jornal de Brasília por guias locais da região de Goiás, foi informado de que as trilhas para as Cataratas dos Couros, Mirante da Janela, Poço Encantado e Vale da Lua têm sido os pontos turísticos escolhidos pela empresa.

No dia 19 de dezembro, uma mulher que participava de um grupo com cerca de 20 pessoas passou mal durante o passeio e vomitou na trilha da Cachoeira do Abismo (foto em anexo). “As empresas têm vindo para cá trazendo um tipo de público e um tipo de conceito de turismo que a gente sempre lutou para não ter aqui na Chapada dos Veadeiros. A gente nunca quis aqui um turismo de massa, para degradar. Pelo contrário, a gente quer preservar. Queremos um turismo consciente, de educação ambiental. Essas empresas vêm sem nenhuma ideia. Os donos das empresas fazem um turismo diferente de outros municípios, de áreas já degradadas”, critica o guia local, Watson Nóbrega, 39 anos.

Nascido em Brasília, ele é morador de Alto Paraíso de Goiás e trabalha na região como condutor de visitantes há quatro anos. Preocupado com a preservação dos pontos turísticos, que são áreas de Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), ele esclarece o que tem flagrado nas últimas semanas. “Vêm grupos gigantes sem educação ambiental, sem guia nenhum. Esse é um outro problema. Primeiro que não são guias. Contratam pessoas da família e vêm com um grupo de 20 a 50 pessoas, como ocorreu no dia 13 de dezembro. Por ética, quando você vem de fora, tem que contratar um guia local porque é quem conhece a área e sabe o que tem que fazer”, afirma.

Ele reforça a necessidade de um turismo consciente na região. “As pessoas têm que entender que a Chapada dos Veadeiros é uma área de preservação. E esse é o papel do guia local, além da segurança. Porque o guia vai falar da fauna, da flora e da geologia do local. A Chapada não é só cachoeira. A gente faz um turismo de experiência, de natureza. A pessoa tem que vir e sentir o Cerrado, e não passar por cima de toda a história. Não é esse tipo de turismo que a Chapada merece”, lamenta.

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O Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros foi criado em 1961, e abrange uma área de aproximadamente 240.611 hectares. Em 2001, foi declarado Patrimônio Mundial Natural pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

“Não estamos impedindo eles de fazerem os passeios, só queremos que respeitem o nosso espaço que é de preservação, que é de áreas selvagens, sem comunicação e assistência. Nós guias somos todo o tipo de assistência em uma trilha”, explica o guia local, Pedro Terto, 36 anos, há 22 como condutor de visitantes na Chapada dos Veadeiros.

O guia conta que presenciou uma mulher vomitando durante a trilha da Cachoeira do Abismo. “Ela estava acompanhada do único guia local para um grupo com aproximadamente 40 pessoas. Haviam outros guias nacionais, mas não foi visto nenhuma identificação com carteirinha, somente o uniforme da empresa”, acrescenta.

“O treinamento do Condutor de Visitantes da Chapada dos Veadeiros consiste em dar apoio e resgate em rios, trilhas e demais locais de difícil acesso. É um treinamento exclusivo para a localidade”, esclarece.

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No Protocolo Específico, o Ministério do Turismo não detalha a quantidade de turistas por guia, mas traz algumas orientações. “Evitar espaços reduzidos e zonas suscetíveis de concentração de aglomerações; Estabelecer um número máximo de pessoas a que se pode oferecer o serviço de maneira segura; Usar sempre máscaras e orientar aos clientes a fazer o mesmo. Lembrar-se de trocar a máscara sempre que ficarem úmidas. Respeitar a distância de 1,5 metros sempre que possível”, aconselham alguns tópicos.

O que diz a legislação?

A Associação Brasileira dos Guias de Turismo (Abgtur) deixa um exemplo prático sobre a irregularidade de um guia nacional trabalhar em outras regiões do país. Conforme a formação profissional e as atividades desempenhadas comprovadas no Decreto 946 de 1º de Outubro de 1993, “um Guia de Turismo Regional do Paraná só poderá atender grupo dentro do Estado do Paraná. Um guia de turismo nacional não poderá ser guia regional nas cidades onde visitar atrativos turísticos, mas sim acompanhar o grupo do seu estado para outras regiões do país (acompanhante). Chegando às cidades, é obrigatória a contratação do guia regional de cada estado”, diz a Associação.

Além disso, o guia de turismo que usa carro próprio para trabalhar e transportar turistas tem de cadastrar o veículo no Cadastro dos Prestadores de Serviços Turísticos (Cadastur). A exigência vale desde 2018, quando passou a valer a Lei 13.785/2018 que estabelece também o registro do Município e do Estado onde a atividade for organizada e onde circula.

“Seguimos todos os protocolos de segurança”, diz Ecotour

O JBr recebeu uma denúncia anônima de como a Ecotour trabalha para realizar os passeios com mais de 20 ou 50 pessoas. “Nunca fizemos um passeio com grande quantidade de pessoas com um guia só. A gente sempre dá todas as orientações para manter o distanciamento com o uso de máscara o tempo todo para não ficar juntinho um do outro. A gente está dividindo o nosso grupo em três ou quatro para manter a distância e não ficar aglomerando tanto. A gente sempre dá a orientação, e fica de cada cliente cumprir. Sempre está dando tudo certo, e estamos conseguindo manter o controle”, garante o proprietário da empresa, Cristhian Luiz, por mensagem de celular.

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De acordo com o rapaz, o local de embarque da van, em Brasília, é próximo ao Hotel Nacional, no Setor Hoteleiro Sul. “Também medimos a temperatura, a gente orienta as pessoas a levarem o seu álcool em gel. O transporte é higienizado antes do passeio. Em relação a isso, a gente toma todas as medidas possíveis.”

A reportagem procurou a empresa para se posicionar sobre o assunto. O próprio dono da Ecotour, Christian, explicou os cuidados adotados pela agência de turismo antes de realizarem as trilhas. “Tomamos todas as medidas preventivas com relação à covid-19. Aferimos as temperaturas de todos os passageiros no embarque, fazemos higienização periódica das mãos com álcool em gel e orientamos a todos que sempre utilizem suas máscaras de proteção. Seguimos corretamente todos os protocolos de segurança. Durante a trilha, dividimos nosso grupo para facilitar a visitação.”

“Vale ressaltar que não somos a única equipe a levar clientes para os atrativos. Diversas vezes encontramos outras agências que exercem o mesmo trabalho na Chapada dos Veadeiros. Além de obviamente, e naturalmente, encontrarmos os atrativos bem cheios nos finais de semana”, acrescenta.

O empregado da Ecotour informa, ainda, que tentaram estabelecer parcerias com guias locais da Chapada dos Veadeiros. “Inclusive, [eles] estão presentes em vários de nossos roteiros. Vale lembrar que isso não é uma obrigação legal, temos todas as prerrogativas para exercer nosso trabalho. Além disso, nenhum dos atrativos estabelece essa (norma) conduta. A Chapada tem diversos atrativos, grande parte deles bem sinalizados, autoguiados e de simples acesso. Nossa equipe é equipada com kit de primeiros socorros, temos treinamento de primeiros socorros, boia de salvamento aquático que nos acompanha em alguns roteiros. O intuito é somente alimentar e auxiliar o trabalho dos salva-vidas locais que já estão presentes na maioria dos destinos visitados”, afirma Christian.

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Por fim, o proprietário esclarece o objetivo da Ecotour com os passeios. “Nossa equipe realiza um trabalho de orientação ambiental com os clientes, além de fazermos a coleta de lixo durante nosso percurso. Tentamos realizar um turismo ecológico e sustentável da melhor maneira possível. Entendemos os riscos do momento atual, mas também temos total consciência da qualidade e da segurança com que realizamos nossas atividades. Estamos alinhando nossa programação de 2021 com o máximo de responsabilidade”, finaliza.

Associação local protesta

A 1ª secretária da Associação de guias, condutores e prestadores de serviço em ecoturismo da Chapada dos Veadeiros (Servitur), Zai Costa, 32 anos, conta que representantes da associação levaram a problemática para o Conselho Consultivo da Área de Proteção Ambiental de Pouso Alto (Conapa) e ao Conselho Municipal de Turismo de Alto Paraíso de Goiás (COMTUR).

“A maioria dos atrativos não está dentro da área do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. O ICMBio não pode se envolver muito nisso. Tem um problema aqui que é a capacidade de cada atrativo. Procuramos a fiscalização em relação à quantidade de pessoas que estão vindo, considerando os protocolos do novo coronavírus, porque é muita gente, causa aglomeração, e não é legal. Isso está sendo levado também ao COMTUR porque é algo impactante para a gente a forma como esse pessoal tem atuado dentro da Chapada. A Vigilância Sanitária de Alto Paraíso foi acionada na última semana, que ficaram de dar um retorno para a gente sobre isso”, comunica Zai.

Segundo ela, o contingente de visitantes tem assustado os moradores e guias locais, que têm um acordo ético de coordenar 10 pessoas por grupo. “Na Chapada em geral, é um acordo ético quando a gente faz curso de condutor de visitantes para atuar dessa forma. Essas empresas não contratam guias para orientar esse pessoal. Vêm com instrutores sem nenhum guia local e instrutores que a gente nem sabe qual o tipo de preparo que têm, se carregam algum kit de primeiros socorros ou algum equipamento de salvamento. Se acontece algum acidente com essas empresas, cai sobre nós o problema”, pontua.

“A gente não está acostumado com essa quantidade de turistas por vez em grupos. Eles vêm de ônibus e micro-ônibus. Estamos muito preocupados com a forma como eles vêm trabalhando. Eles argumentam que conseguem organizar os grupos para não lotar. Mas a gente não consegue desfrutar de alguns espaços com a presença de um grupo único de 40 pessoas, nossos clientes ficam desconfortáveis”, lamenta.

Zai também trabalha como condutora de visitantes (guia local) na Chapada há um ano e meio. Ela esclarece que a trilha do Mirante da Janela e da Cachoeira do Abismo exige preparo físico, o que responsabiliza o papel do guia local em dar a devida orientação. “Não é uma trilha fácil, como as trilhas da Loquinhas (complexo de poços e trilhas de fácil circulação). No Mirante da Janela, se você tem um grupo de 40 pessoas, é um grupo geralmente bastante heterogêneo, pode ser que algumas pessoas não tenham condições de fazer esse tipo de passeio. E a gente, que é guia local, consegue fazer essa avaliação antes de preparar o roteiro.”

“Somos favoráveis ao desenvolvimento do turismo e trabalhamos para isso, porém que seja de forma organizada, oferecendo aos turistas uma vivência agradável, valorização cultural, conexão com a natureza e favorecendo a conservação do Cerrado”, conclui a secretária da Servitur.

No dia 18 de agosto, o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros foi reaberto para visitação após publicação do decreto municipal de Alto Paraíso de Goiás. Na decisão, ficou permitida também a retomada de atividades econômicas da cidade, com fiscalização sobre os cuidados sanitários contra a covid-19 e aprovação da prefeitura e liberação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). A autorização foi publicada no Diário Oficial da União do dia anterior (17/12) para liberar a volta das atividades da região.

A Prefeitura Municipal de Alto Paraíso de Goiás foi procurada pela reportagem para esclarecer a denúncia, mas não obtivemos retorno até o fechamento desta edição.




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