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DF tem terceiro recorde de queimadas em uma década

Dados do Corpo de Bombeiros mostram que até setembro deste ano, 18,6 mil hectares foram devastados pelo fogo. Só 2010 (30 mil hectares) e 2011 (24 mil hectares) têm números maiores

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Pedro Marra e Catarina Lima
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O Distrito Federal atingiu, neste ano, o terceiro maior recorde de queimadas em 10 anos, segundo levantamento do Corpo de Bombeiros (CBMDF). A capital federal teve 18,6 mil hectares devastados pela ação do fogo até a última atualização dos dados, em 30 de setembro.

O segundo ano com mais área queimada é 2011: foram 24.558,50 hectares afetados, informa a corporação. Essa quantidade só não é maior que em 2010, quando 30.998,54 hectares foram desmatados em Brasília, sendo a maior queima na década. 

A capital federal também teve mais ocorrências de queimadas neste ano do que em 2018 inteiro. Segundo os Bombeiros, em 2020, temos 6.681 chamados para apagar incêndios florestais. Há dois anos, o DF registrou 6.483 combates ao fogo. Em 2019, foram 10.273 ocorrências na capital.

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Somente em setembro deste ano, o Corpo de Bombeiros registrou 8,8 mil hectares de cerrado queimados. Quase 1 mil hectares a mais que no mesmo mês de 2019, período em que 7,9 mil hectares foram queimados.

Com isso, setembro de 2020 também se torna, para o cerrado, o terceiro mais afetado pelo fogo na série histórica. Em 2011, o mês sofreu com a queima de 15.162,80 hectares do bioma no DF. Mas, segundo os Bombeiros, setembro de 2010 foi o mais prejudicial para o cerrado nesta década: 24.434,70 hectares de terra devastados.

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Foto: Lucas Neiva/ Jornal de Brasília

Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) sobre queimadas no cerrado aqui no DF mostram que, em setembro deste ano, foram 83 focos de incêndio no DF. O dobro de 2018, quando foram calculados 41 pontos de queimadas no DF. Entretanto, 2019 teve 116 registros no mesmo período do ano. Para a aspirante a oficial do Corpo de Bombeiros, Clara, são diversos os motivos que levam a esse aumento da área queimada. 

“Por exemplo, o aumento da temperatura juntamente com a diminuição da umidade do ar, longos períodos sem chuva, assim como a ocorrência de ventos muito fortes neste período de estiagem no DF ajudam a propagar de forma mais rápida os incêndios. Além disso, queimadas não autorizadas (queima de lixo, queima de poda e limpeza de pasto), não monitoras e mal aceiradas [contidas], podem evoluir muito facilmente para um incêndio florestal nessa época do ano”, alerta.

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Ainda segundo o Inpe, este ano também teve uma queda nos focos de incêndio em relação a 2019, indo de 213 para 155 locais detectados pelo satélite de referência do órgão federal. Entretanto, 2020 evidencia mais queimadas do que em 2018 como um todo: foram 88 pontos de incêndio em Brasília.

Apesar da dificuldade de combater o fogo, a militar dos Bombeiros deixa orientações de como as pessoas podem agir quando avistarem uma queimada. “É importante compreender que combater um incêndio florestal não é tarefa fácil. Exige treinamento e equipamentos de segurança. Por isso, é importante ter sempre em mente o número 193. E, quando ligar, dar pontos de referência para que os bombeiros localizem o incêndio o mais rápido possível. Em casos de incêndio em áreas rurais mais afastadas, onde os bombeiros podem levar mais tempo para chegar, alguns cuidados básicos são fundamentais: não entrar em desespero; ir com a família para o local mais seguro; e, se possível, retirar os animais domésticos do local de risco”, aconselha aspirante a oficial Clara.

“O bioma todo sofre com essa destruição”, diz bióloga

Foto: Lucas Neiva/ Jornal de Brasília

O Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio) declara que o cerrado cobre cerca de 25% do território nacional, o que representa uma área entre 1,8 e 2 milhões de km² nos estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso do Sul, sul do Mato Grosso, oeste de Minas Gerais, Distrito Federal, oeste da Bahia, sul do Maranhão, oeste do Piauí e porções do estado de São Paulo. 

Mesmo com essa biodiversidade, a bióloga Isolda Monteiro esclarece como o ecossistema do cerrado fica propenso à queimadas nessa época do ano. “Por conta das árvores serem espaçadas, elas permitem a chegada de uma insolação maior do solo, e promove o desenvolvimento de farto estrato herbáceo (diversidade de ervas), formando um tapete graminoso. Devido a esse ciclo de vida, essas gramas têm folhas e partes florais dissecadas na época da seca. Esse material fino e seco passa a construir um combustível altamente inflamável”, comenta. 

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Ela destaca a influência das queimadas ilegais para o agravamento do tempo quente e seco no cerrado. “Raios, faíscas provenientes das ações do homem e queima de restos podem iniciar a combustão da vegetação. A partir de então, o fogo se propaga rapidamente. Por isso que a gente tem com mais facilidade essa queimada. O bioma todo sofre com essa destruição. Um fogo vai desencadeando outro no cerrado”, diz.

Quando perguntada sobre a autoproteção da flora desse bioma, Isolda confirma que o existe uma “capacidade maior [do cerrado] se regenerar, justamente por nossas árvores serem adaptadas ao fogo. O nosso clima é mais seco, e as árvores têm ceras específicas, por isso não perdem tanta água. A gente tem sementes adaptadas que se abrem com o fogo, por exemplo. Todo o nosso cerrado é bonito por isso. 

Outro ponto citado pela bióloga é sobre o sistema subterrâneo desenvolvido da flora do cerrado. Segundo ela, um dos mais importantes são as raízes que essas plantas possuem.

“Servem para que [as plantas] tenham uma absorção de água melhor e fiquem mais protegidas. Os caules aéreos são as camadas mais espessas da epiderme, agindo como isolante e impedindo que o fogo chegue até a parte do tecido vivo da planta. As folhas dos estômatos, por onde ocorrem as trocas gasosas para que a planta sobreviva, fazem com que ela perca menos água do que ela perderia nas face superior. A cutícula espessa é um composto de lipídios chamado de cutina, e essa substância é impermeável. Isso serve como proteção contra a perda de água. E tem as pilosidades [das folhas], que são basicamente tricomas adaptados, que faz com que diminua a perca de água dessas plantas”, conclui.

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Secretaria de Meio Ambiente do DF

De acordo com a coordenação do Plano de Prevenção e Combate a Incêndios Florestais (PPCIF), da Secretaria de Meio Ambiente, apesar da baixa umidade do ar e do risco de queimada, a prevenção feita com antecedência neste ano tem surtido efeito. Isso porque a Sema garante o controle total de todos os focos de incêndio do Distrito Federal.

O secretário de Meio Ambiente, Sarney Filho, chama a atenção para as ações educativas.

Foto: Lúcio Bernardo Jr./Agência Brasília

“A ação humana intencional ou por negligência é a maior causa de incêndios florestais no DF, por isso é importante reforçar as ações educativas e de vigilância nas nossas Unidade de Conservação (UCs) distritais”, diz ele. “O PPCIF é essencial para o DF uma vez que valoriza e fortalece os órgãos distritais e federais, unindo todos em prol do Cerrado.”

Em 2020, o Instituto Brasília Ambiental contou com recursos no orçamento repassados pelo Governo do Distrito Federal (GDF) que possibilitou a contratação de 148 brigadistas antes do início do período de queimadas. Este contingente atua desde julho nas áreas mais vulneráveis ao fogo e também no Jardim Botânico. Além da presença dos brigadistas, o fogo tem sido controlado pelos aceiros – espaços devastados da vegetação para impedir a propagação do fogo -, queimas prescritas e campanhas educativas.

Alerta

O Distrito Federal ainda enfrenta um período de alerta máximo diante das altas  temperaturas e os índices baixos de umidade. De acordo com Instituto Brasília Ambiental (Ibram), as chuvas registradas na semana passada não afastaram os riscos de incêndio. Diante disso, a secretaria de Meio ambiente e o Ibram reiteram a necessidade de colaboração de todos. A queima do lixo, de entulho e pontas de cigarros acesas jogadas na vegetação podem provocar graves incêndios.




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