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Cidades

Desenvolvimento infantil: crianças sofrem no isolamento

Excesso de eletrônicos e falta de contato com outros pequenos podem afetar a sociabilidade

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Foto: Vítor Mendonça/Jornal de Brasília
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Murilo, de apenas 3 anos, sentiu o isolamento social em decorrência da pandemia do novo coronavírus. Antes da crise, costumava dormir por volta por volta de 20h30, mas a falta de exercícios e o excesso de televisão empurraram a hora da cama para 23h. “O sono dele está todo desregulado. Agora, acorda lá pelas 9h, 10h, e já não consegue tirar a soneca da tarde todos os dias, dependendo da hora que levanta”, lamenta Karla Marques, 27, mãe do pequeno.

Enclausurado como boa parte do mundo, Murilo se tornou uma criança mais irritadiça, menos propensa a conversas e mais inclinada a gritos. “O nível de estresse dele está alto, não tem muita paciência”, relata a assistente administrativa, que está em regime de teletrabalho desde o primeiro decreto distrital relativo à Sars-Cov-2, em março. “Está bem complicado, ele tem muita energia. Como estou em home office, tenho que dar um jeito de entretê-lo, e a TV, que a gente tenta evitar, vira uma solução”, lamenta.

Supostas aliadas, as telas eletrônicas estão por trás da mudança do pimpolho. Pedagoga, Adriana Vilarinho vê o tempo da molecada em frente à televisão com grande preocupação neste momento. “Todos os aparelhos eletrônicos causam hiperestimulação no cérebro da criança”, lembra a servidora da Secretaria de Educação, lotada no Jardim-Escola da 312 norte. “Essa estimulação frequente é semelhante a um celular conectado 24 horas no carregador, e isso causa transtornos emocionais e de sono, como insônia ou mesmo sonolência”, atenta.

Membro da Equipe Especializada de Apoio ao Aprendizado (EEAA), Vilarinho recomenda que os responsáveis conversem com as crianças sobre o período complicado no qual mergulhamos. “Uma saída é explicar que não é só aqui, com elas, que isso está acontecendo”, sugere. “Pegar um mapa mundi e mostrar que Brasil e Estados Unidos estão passando pela mesma situação, que na China e na Itália já diminuiu, na medida do possível. O essencial é mostrar que vai acabar”, exemplifica a instrutora.

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Não é, porém, como se Karla se abstenha do diálogo. “Eu tento explicar, mostrar que tem uma doença muito perigosa, que a gente não pode sair de casa, mas ele não assimila”, relata a mãe. “Acabo de falar e ele pede para passear”, completa. Apesar disso, nas saídas essenciais, como idas à farmácia ou ao mercado, Murilo não se opõe à máscara, ainda que tente correr e pegar objetos pelo caminho. “Quando o levei para vacinar, ele queria sair brincando com as outras crianças”, conta, aos risos.

A ausência de pessoas da mesma faixa etária também é prejudicial, segundo Adriana. Ela ressalta que a convivência com outras crianças é fundamental para a o desenvolvimento social. “A criança precisa estar em contato com gente da idade dela, socializar com seus pares. É assim que aprende a lidar com frustrações e autoconhecimento; é o começo da formação da identidade do indivíduo”, explica.

O relato de Karla mostra que Murilo também sente falta do contato. “Quando ele assiste às aulas da escolinha ele pergunta dos amigos”, conta, lembrando que, mesmo com um quintal à disposição, a falta de um colega deixa as brincadeiras menos divertidas. A ausência do pai, terceirizado no Fórum de Sobradinho, aguça as dificuldades atuais. A alegria ao vê-lo chegar em casa se transfigura em tristeza pela falta de contato, já que demora a entrar em casa, para tirar roupas e outros acessórios possivelmente infectados, e quando entra vai direto para o banheiro.

Fortalecer laços

A fase é difícil, e possivelmente trará consequências para as personalidades ainda em formação. Ainda assim, Adriana aponta que o momento é crucial para a aproximação das famílias. “Ninguém aguenta brincadeira toda hora, mas dá para reservar alguns horários para isso. E pode ser feito com atividades obrigatórias, seguindo quatro hábitos básicos: ordem, higiene, alimentação e sono”, diz a pedagoga. “Mostrar que todos precisam lidar com a arrumação da casa, mas de maneira legal, cantar uma música durante a escovação dos dentes, explicar a importância do sono, por exemplo. No final das contas, tudo vira diversão.

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É o caso de Isabelle, 9, e sua mãe, Tássia Moreira. Dona de casa, Tássia afirma que a filha caçula sempre ajudou com as tarefas domésticas, mas agora, com todos em casa, a organização da rotina é ainda mais rígida. “Com todo mundo dentro de casa fica mais bagunçado, então tem que saber gerir essa dinâmica”, diz Tássia. Apesar dos conflitos com os irmãos, de 11 e 13 anos, Isabelle está tranquila com relação ao isolamento.

Tristeza só mesmo pela falta das colegas, com quem só mantém contato pelos celulares e aparelhos domésticos. Ainda assim, Tássia explica rotineiramente sobre os perigos da doença algoz de mais de 18 mil pessoas no Brasil até o fechamento desta reportagem. “A gente não sabe muito sobre, então sempre repasso o que está nos jornais. A questão da higienização ela assimilou bem”, finaliza.


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