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Cidades

Circos do DF dependem de doações para se manter em meio à pandemia

Com picadeiros e caixas vazios, artistas e gestores contam com a colaboração da população dos locais onde estão montadas as estruturas para se manter

Olavo David Neto

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Desde 12 de março sem atividades, os circos do Distrito Federal vivem à base de doações. Com picadeiros e caixas vazios, artistas e gestores contam com a colaboração da população dos locais onde estão montadas as estruturas para manter a dieta de funcionários e até animais. As dificuldades vão além, como a falta de apoio estatal, e, principalmente – segundo eles – as arquibancadas vazias, com o silêncio de uma plateia impedida por força maior de pagar em risadas e aplausos o trabalho cultural.

De “sangue circense”, como ele próprio define, Fágner Domingo Rufino, 33, está há sete anos na gerência do Dubai Circus. Com as atividades canceladas desde março, confessa que está caçando ocupações em meio à pandemia. “Estou procurando o que fazer. Às vezes pratico minha marcenaria, conserto alguma coisa nos ônibus. Fica parado não dá”, relata ele, que acumula as funções de eletricista, soldador e tesoureiro da instituição.

Com a lona montada atrás de si, Rufino lamenta o período ocioso, e diz que a ajuda dos moradores do Areal e de Águas Claras é fundamental na superação dos desafios diários. “Não tem como agradecer. Eu tenho até três veterinários que cuidam dos meus cachorros; é só chamar que eles vêm”, comenta. Sem a renda dos espetáculos – que varia de R$ 800 a R$ 3 mil, a depender do dia e do local -, o Dubai viu comprometida a folha de RS 2.700 semanais da organização.

Boa parte da trupe recebeu o auxílio emergencial do Executivo federal, mas o dinheiro é majoritariamente utilizado para saldar as despesas anteriores – acumuladas graças ao congelamento do caixa. Situação inversa acometeu o Circo Vitória. Das 20 pessoas empregadas, apenas Michele Mocellim, a gerente, percebeu o benefício estatal. “Só me cadastrei por conselho da professora dos meus filhos, que estudam em Samambaia. Achei que, por ser do circo, não receberia”, conta a também locutora dos espetáculos.

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De acordo com ela, os editais abertos pela Secretaria de Cultura para auxílio à classe artística também deixaram o mundo circense escanteado, já que, pela baixa instrução que marca os picadeiros, os projetos não tinham formalidade na escrita. Mocellim garante que sua organização foi a primeira do DF a ser notificada da paralisação, em 10 de março – concretizada dois dias depois. “Chegamos no dia 1º, estreamos no dia 6, e logo depois estávamos parados”, conta.

Relativamente preso à QI 23 do Guará II, o pessoal do Vitória se incomoda com o sedentarismo, mas aproveita o tempo na terceira passagem pela RA para criar vínculos. “É ruim porque a gente se acostuma a viajar, estar na estrada; mas é bom porque conhecemos a população, se apega com os moradores”, relata.

Com três filhos e mais um por vir, a gestante se diz temerosa com a situação atual. “Estou apavorada”, diz, entre risos nervosos. “Não sei o que vai ser da gente. Já tenho medo pelos outros meninos, mas esse que está vindo vai conhecer um mundo doente”, lamenta. Ela é, ainda, a única a deixar as instalações, e apenas para o pré-natal do bebê, que já adentra o quarto mês de gestação.


Prejuízo social

“O problema maior é o riso, os aplausos. É difícil viver assim”, conta Rufino. Acostumado à estrada, sair do Areal não é uma opção. “O deslocamento para a [avenida] Castanheiras [em Águas Claras], gasto, por baixo, R$ 3.500. Não compensa, e não teria como repor esse dinheiro que nem temos depois”, preocupa-se. Segundo ele, alguns funcionários do circo saem para “bicos” nas redondezas, sempre com o cuidado necessário na hora do retorno. Previsão de volta não há. “A gente quer trabalhar, mas só com segurança. Sem segurança para a plateia e para a gente, não tem como”, garante o gestor.

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Para a sociedade, de acordo com Fágner, o circo e as atividades culturais são necessárias até como questão de sobrevivência. Conforme conta, uma das últimas apresentações da trupe demoveu um homem do suicídio. “Ele disse que saiu para beber e se matar, mas entrou no circo e era o que mais ria. Depois, esperou todo mundo sair e nos explicou a história, agradeceu todo mundo que se apresentou”, relembra. Em meio a uma pandemia, para Rufino, o riso teria o mesmo efeito.

Michele já até calculou o espaço nas arquibancadas do picadeiro para uma possível volta – que considerou próxima quando da reabertura dos bares e restaurantes, no início desta semana. “A gente calculou que se botar cem pessoas [num espaço com capacidade para 250], fica cada uma a quase quatro metros da outra, numa área ventilada e aberta”, aponta a secretária.
A classificação das atividades circenses como não-essencial é justa, para ela, mas esconde uma necessidade quase espiritual, ainda mais num momento difícil. “Na TV só tem ‘coronavírus’, e está todo mundo nervoso, com medo. O riso alivia, sustenta”, finaliza.




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