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Cidades

Cheiro de infância: como uma catadora de lixo mantém uma creche na Estrutural

Márcia fundou a creche “Artes e Sonhos”, que vive de doações, do apoio de voluntários e de um reencontro diário do presente com o passado

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Foto: Juan Caballero

Gabriella Cardoso
Jornal de Brasília/Agência UniCeub

Era só uma criança de oito anos de idade. O cheiro do lixo já estava impregnado nas roupinhas, na pele, no nariz, nas lembranças. Márcia saiu com a mãe da cidade baiana de Barreiras e lembra do caminho de mais de 600 km no ônibus até a capital. Instalaram-se numa casinha e precisavam trabalhar. Não tiveram como deixar a menina de fora da lida. Assim, não conseguiu estudar desde pequena.

Passados 17 anos, aquele som do passado, o cheiro do lixo, a imagem de outras crianças à procura de qualquer pista de esperança em meio aos restos continua muito vivo. Tão vivo que ela não saiu da Estrutural e hoje ajuda outras mães a cuidar de bebês e crianças enquanto os pais buscam ganhar a vida. Fundou, assim, a creche “Artes e Sonhos”, que vive de doações, do apoio de voluntários e de um reencontro diário do presente com o passado.

Às 6h da manhã, ela acorda, prepara o café da manhã para os filhos, troca de roupa e começa a receber as crianças da creche. São 34, ao todo, eles vão entrando na sala de 80 metros quadrados, com duas mesinhas infantis e uma mesa grande para adultos para 20 pessoas, e se aprontando para comer a primeira refeição do dia. As quatro voluntárias chegam e oferecem o lanchinho (pão com manteiga e suco) para eles. Logo depois é hora de ir para o tapete emborrachado colorido que fica no canto, com uma televisão onde todos sentam para assistir a desenhos animados. Enquanto isso, as mulheres aproveitam para varrer o chão e recolher os restos do café da manhã.

O desenho acaba e a criançada se dispersa. Correm atrás dos brinquedos na estante (bonecas, jogos, carrinhos, pinos de boliche, pedagógicos) e espalham-se pelo ambiente. No meio da brincadeira, Márcia sempre tem que organizar o que eles vão fazer para ninguém brigar. Tudo em paz e segue para trocar as fraldas de quem precisa (são 10 bebês que chegam todos os dias por lá). O choro se reveza com gargalhadas típicas de criança. O dia só está começando.

Segue a rotina. São 10h20. Agora é hora de comer um biscoitinho para segurar a fome até o almoço e formar uma roda para pintar alguns desenhos no papel. A criançada é estimulada a se orgulhar da arte que fizeram e mostram a nova obra de rabiscos, sonhos e imaginação uns para os outros. As linhas fazem todo o sentido. Pode ser que não pareça, mas eles juram que é o pai ou a mãe ou outro personagem que viram na TV. Lápis de cor e giz de cera ficam espalhados pelas mesinhas e pelo chão. Nesse tempo, ela lembra que precisa amamentar o filho, Emanuel, de nove meses. Momento de paz nessa rotina corrida. Assim, consegue conversar com mais calma e lembrar de todas as dificuldades que passou para chegar até ali.

No lanchinho, a criançada senta às mesas disponíveis e aproveitam para repor as energias e dividir com as amiguinhos o pacote de biscoito. Foto: Juan Caballero

Casada aos 15

Márcia Pinheiro casou com Roque Moreira quando tinha apenas 15 anos – idade hoje do primogênito Roque Júnior. Ela, com 16, em 2004, já era mãe. Logo depois vieram Raquel, hoje com 14, João Vitor, 11, Carmem Lúcia, de seis, e Emanuel (o bebê de nove meses). Sempre viveram com os ganhos do casal como catadores de lixo reciclável, cerca de R$ 600 por mês, pagando as contas, comprando alimentos e direcionando R$ 350 para o jardim de infância. Até que estava ficando cada vez mais caro manter seus filhos lá e decidiu abrir a própria creche aos finais de semana, ajudando também os outros colegas catadores que trabalhavam e não tinham onde deixar as crianças.

Ela vivia naquela casa, em que na sala, sofá, almofadas, estante e televisão já viraram espaço para os visitantes chegarem aos poucos. Agora misturam-se as escovas de dente dos filhos com as das crianças que a chamam de tia. Tudo começou em 2015, com uma iniciativa semanal. Depois, decidiu largar o emprego e viver para a “Artes e Sonhos” a semana toda, das 8h às 18h.

Como não cobra nada pelo serviço, Márcia vive de doações de comida, fraldas, material de limpeza, brinquedos e tudo que possa ser usado por eles. Ela diz que, às vezes, o marido não entende o motivo de ela continuar fazendo isso e não dar a “devida atenção” para ele, mas a ex-catadora se fia no que acredita ser o objetivo de sua existência. “Deus me deu essa missão e é isso que vou fazer, se você não me entender eu posso fazer o quê? Enlarguecer a porta para você passar se ela tiver pequena. Tem coisa que vem na vida da gente com um propósito, e eu vou com essa missão até o fim”.

Quatro dos cinco filhos também ajudam a cuidar das crianças toda manhã na creche, pois à tarde estudam. E mesmo sabendo que aquela é a vida da mãe, às vezes reclamam que ela não pode comprar roupas, brinquedos, videogame e outras coisas para eles, pois precisa gastar o pouco dinheiro que tem com fraldas, produtos de limpeza, comida para as crianças e cestas básicas para as quatro ajudantes no final do mês.

No último Natal, o filho mais velho, Roque Júnior, foi o primeiro a correr até o carro que vinha cheio de presentes para as crianças que passaram a povoar o ambiente. Finalmente realizaria o sonho de ter um videogame para distrair a molecada. Quando abriu o embrulho, chorou de emoção em ter em suas mãos o que tanto quis. Hoje ele conta todo animado, com um sorriso de orelha a orelha, como foi aquele momento. Não deixa o presente conectado à televisão da creche porque morre de medo que os pequenos estraguem o controle.

Já Raquel, segunda mais velha, elogia a mãe sempre que pode. Assim que recebeu a notícia de que sua casa viraria uma creche brilhou o sorriso, porque assim teria muitas crianças para brincar, já que ela e os irmãos ficavam quase sempre sozinhos antes. Também se mostra compreensiva ao fato da mãe se preocupar mais em comprar as coisas para as outras crianças do que para ela. Só não gosta de dividir seu creme de cabelo, pois acaba bem mais rápido e tem medo de que os piolhos de algumas crianças migrem de uma cabeça para a outra. A menina se enche de orgulho para falar como a mãe age com os pequenos. “Ela é brincalhona, se joga no chão com as crianças, brinca, faz até bolo e pipoca, ela é muito carinhosa com elas, é bonito de ver”.

Márcia Pinheiro, 31 anos, criadora do Projeto Artes e Sonhos. Foto: Juan Caballero

Metamorfoses

Márcia era uma pessoa estressada, sem paciência, grossa e que não levava desaforo para casa. Depois de descobrir que tinha pressão alta e não poderia mais viver daquela forma agitada que vivia, abriu a creche e se transformou em outra pessoa. Uma das voluntárias – e prima de Márcia -, Franciele Almeida, de 27 anos, disse que a “antiga” Márcia morreu e Deus fez nascer uma nova desde que a creche começou. Raquel completa: “até com a gente em casa ela mudou, não briga, não grita, tem mais paciência”.

A ex-catadora também passou por outra experiência que mudou sua vida para sempre. Em dezembro de 2018 foi convidada para mostrar sua história no programa Hora do Faro, na TV Record. Só não sabia que ganharia R$ 30 mil para comprar o tão sonhado terreno da nova creche.

Até abril deste ano pensava em construir um lugar melhor para as crianças, mas os planos mudaram quando seu bebê foi internado e descobriram uma doença crônica no pulmão, originada por um fungo que vive na madeirite e uma bactéria no estômago. Por esse motivo teve que começar a construir no terreno ao lado sua nova casa, planejando um quarto para o casal, um para as meninas e um para os meninos. O material que está sendo usado é todo doado, e ela tem medo de que não consiga o suficiente para terminar a obra.

Em um futuro próximo, Márcia pretende derrubar a creche existente e construir outra do zero. Já sonha com tudo e conta como será o novo espaço. “Vai ter uma cozinha enorme, dois banheiros no fundo, uma salinha toda de tapete emborrachado, um berçário para os menores dormirem e um quarto para os maiores”, conta, o brilho do olhar ofuscando a simplicidade da construção. Mas para isso pensa em começar a cobrar uma taxa de R$ 35 das crianças que ficam meio período e R$ 50 para os que ficam o dia todo, pois está cada dia mais difícil para as voluntárias sustentarem as famílias.

Mesmo com tantos problemas, Márcia nunca deixa de sorrir. De acordo com seus filhos, ela é muito brincalhona e alegra todos que passam por lá. Foto: Juan Caballero

Decepções

Infelizmente, Márcia já escutou muita coisa ruim sobre si. No ápice das críticas, ouvir que era egoísta por não dar as doações que recebia para os pais das crianças, mantendo tudo para a creche. Ela conta que muitos pais não valorizam seu trabalho, reclamam constantemente quando ela ou as monitoras dão dicas sobre seus filhos, não entendem quando algo some porque alguma criança escondeu e elas não acharam, e, agora começam a reclamar do preço da futura taxa que terão que pagar.

Tanta negatividade desestimula e ameaça a continuidade de sua missão, mas, certa vez, ouviu da televisão que “temos que ser nosso próprio remédio, não temos que esperar o remédio vir de outra pessoa, temos que bater a poeira e dizer que hoje vai ser melhor que ontem” e se inspirando nisso acha forças nas crianças. E toda manhã acorda mais feliz e cheia de vontade de ajudar o próximo.

Inclusive, diz que ela e as monitoras são os pais daquelas crianças. Com as “tias”, elas aprendem a ler, escrever, desenhar, dividir, dar e receber carinho e a amar. Franciele foi até uma reunião de pais e professores na escola de uma pequena, pois os pais estavam trabalhando, e recebeu um elogio que valeu por 10, segundo a professora, a menina estava se dando muito bem e saiu espalhando pela escola que aprendeu a escrever na creche com as tias. Assim que chegou da escola, sentou todas as crianças enfileiradas e as ensinou a escrever.

Descaso

Atualmente há somente uma creche pública na Cidade Estrutural. São 351 crianças que estão na lista de espera, de acordo com levantamento realizado na Secretaria de Educação do Distrito Federal. No plano de obras da SEEDF existe a previsão de construção de mais duas creches públicas na região, uma na quadra 03 e outra na quadra 07. Os projetos de arquitetura estão prontos, mas ainda não há uma data definida para a inauguração das novas unidades.

Antes de ter a ideia de abrir uma creche, Márcia tentou uma vaga para sua filha na creche pública, mas a fila de espera era muito grande. Ela diz que a falta de estrutura pública de educação na região é descaso do governo. “Se eu, catadora Márcia, montei uma creche com R$ 300, cuido de tantas crianças com ajuda voluntária, por que o governo que tem milhões não monta creche em tudo quanto é lugar? Porque não querem, porque não tem aquela visão que um pai de família tem, porque eles não estão no nosso papel de dia a dia”, vocifera a educadora.

Por não existirem creches públicas para todos e as particulares serem muito caras, ela criou o projeto que faz muita diferença na sua comunidade. Pelos mesmos motivos, Franciele ajudou Márcia a criar a creche, pois não tinha como continuar pagando R$ 450 em instituições para crianças. E conclui que a Artes e Sonhos ajuda muitas pessoas que passam por essa mesma situação. Agora, encontraram uma forma de deixar seus filhos seguros e trabalharem tranquilos.

É o caso da Luana Silva, de 26 anos, mãe e catadora que mora perto do projeto e resolveu deixar seus dois filhos (a menina de seis anos e o menino de um ano e sete meses) com Márcia para voltar a trabalhar e gerar renda para sua família. Ela disse que as creches na Estrutural são muito caras, não tinha condições de pagar esse valor todo mês e na Artes e Sonhos seus filhos estão se desenvolvendo e evoluindo muito e que Márcia é bastante querida e especial tanto para os pais, quanto para as crianças que lá frequentam.

Franciele Almeida e Luana Silva com seu filho, de um ano e sete meses. Foto: Juan Caballero

Quem é a Márcia

A dona do projeto faz de tudo para dar às crianças a infância que não teve. Se uma delas falta, ela dá um jeito de ligar ou até ir à casa da pessoa saber o que houve, e não fica tranquila até saber que está tudo bem.

Pedi para que ela descrevesse a pessoa Márcia e o que ela falou me surpreendeu. “Eu sou uma pessoa muito besta, hoje estou do jeito que estou porque fiz para os outros e esqueci de mim, às vezes me olho no espelho e vejo como estou acabada, tenho 31 anos e pareço ter 60. Sou um pouco explosiva, mas procuro fazer o bem e quero ter meu lugarzinho lá no céu”. Ela também diz que muitas pessoas a chamam de louca e perturbada, mas logo replica: “ai do mundo se não fossem os loucos, que os certos, que podem fazer, não fazem. Aí tem que vir os loucos para fazerem a diferença e me sinto muito orgulhosa do meu trabalho”.

Daqui a cinco anos Márcia se vê no mesmo terreno que vive hoje, mas com sua casa pronta, a creche reformada e com o trabalho mais evoluído e ensinando cada vez mais as crianças da comunidade. Ela reza todos os dias para que o Governo do Distrito Federal possa regularizar a área que ela mora e não a tire a força da terra onde tudo começou.

Quando chega a hora de ir embora, as crianças pegam suas mochilas cheias de roupas e objetos pessoais que foram usados durante o dia. Foto: Juan Caballero


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