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A 19km, a água da piscina é mais limpa

Mapa da desigualdade aponta a diferença social entre áreas como a Estrutural e o Plano Piloto, 75% dos desempregados no DF no primeiro semestre eram negros

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Capital marcada pela dicotomia

Apenas 19 km separam a miséria da Estrutural da vida confortável de quem mora no Plano Piloto

Olavo David Neto
redacao@grupojbr.com

Poder e riqueza convivem diariamente com a miséria e a desigualdade na capital do país. Apesar do Produto Interno Bruto orçado em R$ 244,683 bilhões em 2018 – a oitava maior marca do Brasil – a discrepância entre as 31 Regiões Administrativas é gritante, e esse é o tema do Mapa da Desigualdade, publicação do Movimento Nossa Brasília em parceria com o Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) e a Oxfam. Divulgado na última semana, o estudo compara os índices das RAs mais carentes – Estrutural, Samambaia, Sol Nascente, Itapoã e Paranoá – aos números do Plano Piloto.

E 19 quilômetros é a extensão do abismo entre os extremos candangos. Contrastada com o Plano Piloto, a RA XXV, que compreende o Setor Complementar de Indústrias Abastecimento e a Cidade Estrutural, sequer parece uma vizinhança do poder público nacional. Apesar de próximos, o técnico audiovisual Gabriel Lima e conselheiro Tutelar Clóvis Campos Júnior vivem realidades distintas.

Clóvis é uma das raras exceções da RA no que diz respeito a transporte público. Ele gasta de cinco a dez minutos no trajeto entre a residência, no Setor Norte, ao local de trabalho, no Setor Central. Assim, o homem é um entre os 36,37% dos habitantes da região que exercem ofícios dentro da cidade, enquanto o mesmo índice chega a 88,5% no Plano Piloto, caso de Gabriel.

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Além disso, Clóvis declarou se deslocar de moto até o local de serviço, ao contrário de mais da metade da população da Estrutural (56,6%) que necessita do sistema público de transporte para trabalhar, e de apenas 16,4% dos residentes na RA I do Distrito Federal. Para Gabriel, inserido nos 83,6% do Plano Piloto, a locomoção é o carro próprio, e o deslocamento toma, também, de cinco a dez minutos do dia, “quando o trânsito ajuda”.

A qualidade do asfalto às margens de uma das principais vias do DF deixa a desejar. Numa região em que apenas 47,6% das casas têm acessos asfaltados – contra 100% das Asas Sul e Norte -, Clóvis se encaixa na maioria. “Minha rua não tem qualquer tipo de calçamento, e é uma rua sem saída; na chuva, é impossível sair de moto, porque os buracos viram poças de água”, comenta o servidor. Os alagamentos são problema crônico para 47,8% da população da RA.

Quando o assunto é saúde, Clóvis se aproxima da “elite” da região. Isto porque ele está entre o 5% dos moradores que têm acesso a planos de saúde. Mesmo assim, ele nunca foi atendido na própria região, e sempre se desloca a Taguatinga quando precisa de auxílio médico. “Eu nunca procurei atendimento aqui na Estrutural, porque não tem”, comentou. Para a vizinhança de Gabriel, porém, não é novidade contar com assistência paga, já que 85% da população do Plano Piloto usufrui dos serviços

Até o acesso ao lazer sofre impactos com as discrepâncias sociais entre as RAs. Com quase uma campo poliesportiva por quadra resi dencial, os moradores do Plano Piloto podem praticar esportes, por necessidade ou lazer, diariamente. “Sempre quando eu saio do trabalho mais cedo, eu jogo uma bola”, revela Gabriel. Para quem reside na Estrutural, porém, a realidade é outra, mesmo para um servidor com ensino superior completo. “As quadras de esportes são muito ruins, falta manutenção, falta cuidado; e são poucas, então estão sempre lotadas”, lamenta o conselheiro.

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De opções culturais, a sazonal Festa do Milho – que depende de apoio governamental e nem sempre é realizada – é tida como a única celebração festiva na Estrutural. Apenas uma biblioteca pública tem sede na RA, e mesmo assim a variedade de livros é baixa e de pouca qualidade, segundo Clóvis. “Além de ter um acervo pequeno, não há nenhuma campanha de incentivo, ninguém sabe o horário de funcionamento.” Não é o caso, mas, se quisesse, Gabriel teria à disposição cinco das mais bem avaliada bibliotecas comunitárias do DF.

Tanto desprezo pela cultura culmina em aumento da sensação de vulnerabilidade. “A convivência nos torna acostumados, mas a gente é rodeado por insegurança; muito tráfico de drogas perto das residências, dos trabalhos, das praças”, denuncia Clóvis. A demora dos encarregados por garantir a tranquilidade da região não colabora para apaziguar os medos, já que, “quando a polícia chega eu me sinto seguro, embora ela dificilmente apareça quando chamada.”

Na Asa Norte, a situação é outra. “Fico sempre atento, mas não me sinto inseguro”. Com boa assistência policial, o morador do Plano Piloto não possui queixas contra operações policiais. “Eu tenho uma imagem boa, sempre buscando ajudar da melhor maneira possível”, finaliza.


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