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Atendimento nas delegacias precisa melhorar, diz Torres

Secretário de Segurança Pública do DF, Anderson Torres recebeu o Jornal de Brasília em seu gabinete para analisar o primeiro ano do ex-delegado da Polícia Federal à frente da pasta

Olavo David Neto

Publicado

em

Foto: Henrique Kotnick / Jornal de Brasília
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Secretário de Segurança Pública do DF, Anderson Torres recebeu o Jornal de Brasília em seu gabinete para analisar o primeiro ano do ex-delegado da Polícia Federal à frente da pasta. Apesar da queda no número de homicídios (de janeiro a dezembro, foram 374 casos, 84 a menos que em 2018), Torres se mostra preocupado em melhorar o contato das forças de segurança com a população, já que “todo trabalho que é feito pelo servidor, pelo serviço público – e aqui não é diferente – é voltado para a população”. Tema constante, o feminicídio foi classificado por ele como crime “de fácil elucidação, mas de difícil prevenção”. Para o secretário, além de ações policiais, é preciso uma mudança cultural na população. Nesta área, apesar dos 30 feminicídios oficialmente registrados até o 11º mês de 2019, “a grande vitória foi a discussão, trazer o assunto à tona”. Além disso, Torres defendeu a gestão compartilhada das escolas e garantiu: “agora o projeto vai crescer muito.”

Qual sua avaliação sobre os números criminais e o que mudou dentro da SSP neste ano?

Foi um ano extremamente positivo, ano de chegada na secretaria, de reestruturação, de mudança de rumo. Conseguimos fazer com que as instituições entendessem isso. O processo de integração eu destacaria como o grande avanço deste ano. A Polícia Civil, a Polícia Militar, Corpo de Bombeiros, Detran e o trabalho conjunto nos ajudaram a trazer esses números. Um direcionamento através da questão da inteligência, das manchas criminais, posicionamento de viaturas, a retomada das operações da Polícia Civil de desarticulação dessas quadrilhas, do crime organizado. Eu atribuo a melhora dos números a isso, um combate efetivo, direto à criminalidade.

Mas o que tira o sono do secretário de Segurança? Quais temas o senhor quer solucionar em 2020?

Não é que me tire o sono, mas eu vejo que a gente precisa melhorar o atendimento à população nas delegacias, no 190. Todo trabalho que é feito aqui tem um destinatário só, que a população do DF. Por óbvio, não podemos descuidar de nada que foi feito, os números têm que continuar melhorando e equilibrados. 2020 será um ano de grandes desafios, porque os números do DF em relação ao cenário nacional não são números altos. Diminuir o que, em tese, está dentro de uma média baixa em relação ao país não é fácil. Todo trabalho que é feito pelo servidor, pelo serviço público – e aqui não é diferente – é voltado para a população. Nosso desafio é melhorar o atendimento e estar mais junto da população.

Houve uma preocupação muito grande com o número de feminicídios registrados no DF. Falta aparato estatal para este tipo de crime?

A gente começou a olhar para o feminicídio há quatro anos, a partir da mudança na legislação, quando o separaram do homicídio comum de mulheres. Por isso não era tão falado. Quando entramos, entendemos que precisávamos de um estudo aprofundado do feminicídio. Com base nisso, nos números que nos vieram, nós tivemos uma série de alternativas que até me ajudam a te responder. Primeiro, é um crime dentro de casa, arma branca, que geralmente a mulher não denuncia e que não acontece do dia para a noite, geralmente ele vem amadurecendo, aumentando, e geralmente o Estado não sabe. É um crime de fácil elucidação e de difícil prevenção. Assim que ele ocorre, já se tem o direcionamento: foi o namorado, foi o ex, um cara que não aceita o relacionamento anterior, etc. A motivação é essa. O que falta? É uma questão social e cultural, falta uma mudança nisso. Nós precisamos conscientizar a população. A grande vitória neste ano foi a discussão, trazer à tona o assunto. Sempre que esses assuntos vêm à tona, a sociedade como um todo consegue evoluir. Nesse caso, não tem outro caminho. A gente chega nos casos de feminicídio, às vezes, junto com a imprensa.

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Apesar da queda em relação a 2018, o número de estupros ainda é alarmante. Quais os mecanismo de defesa para este crime?

O crime de estupro, depois da mudança do tipo penal – antigamente estupro era uma coisa única, por isso os números eram mais baixos -, várias outras ações do ser humano são enquadradas como estupro. Como é um crime, em sua grande maioria, doméstico, é um crime de difícil prevenção. A gente tem que fazer um trabalho de investigação, prevenção e conscientização para poder diminuir. Tirando aquele estupro do meio da rua, que geralmente envolve toda uma violência, aí, sim, envolve questão policiamento. Mas o estupro, como é colocado hoje, são consumados majoritariamente dentro de casa.

Além de políticas efetivas, muito se reclama da recepção de vítimas de estupro em delegacias especializadas. Há investimento na preparação desses agentes para casos desta natureza?

É preciso melhorar a capacidade de atendimento à população. Cada caso é um caso, a mulher vítima de violência e estupro precisa de um atendimento especializado. Digo isso porque trabalhei em balcão de delegacia e sei bem, e aonde eu trabalhei não havia isso. Era todo mundo tratado da mesma forma, e a gente percebia muitas vezes o constrangimento, a desistência da denunciante por vergonha. Eu trabalhava numa delegacia, à época, muito simples no entorno do DF. Não tinha condição, não tinha estrutura, nada. A gente precisa especializar isso e dar o atendimento necessário àquela pessoa. Principalmente com relação aos crimes que constrangem, que a pessoa não tem coragem de chegar e falar. Acho que isso é uma coisa que a Polícia Civil precisa trabalhar e nós vamos incentivar isso, conversar muito e trazer esse novo olhar.

As escolas militarizadas foram pivô de alguns casos que geraram revolta, como assédio a alunas e desacato a professores. Quais critérios são utilizados para enquadrar um agente no projeto?

No começo do projeto, nós procuramos policiais que já trabalhavam no Batalhão Escolar , que já tinha essa vivência do dia a dia. Só que agora o projeto vai crescer muito. Mandei um projeto para o governador para criação de alguns cargos para o projeto. Não tenho como atender esse projeto com policiais da ativa, eu vou precisar trazer da reserva, e para isso eu vou precisar de cargos públicos para nomeá-los. A ideia é: toda vez que se recrutar, que aparecer um policial interessado no projeto ele passe por um curso de formação aqui dentro, na nossa Subsecretaria de Valorização Profissional, para que ele entenda as regras do projeto. Fatos como esse [assédio a alunas e desacato a professores], normais. Não acontecem só com militares, acontecem com professores em escolas que só têm professores, de assediar aluna, de brigar com diretor, de discussão. Quem critica é porque tem que se pegar em alguma coisa. O projeto é extremamente vitorioso. Inclusive a gente anda na rua e as pessoas me pedem vaga. Quer dizer, a gente tem um respaldo muito positivo da sociedade, e eu vejo que foi um acerto muito grande desse governo e nossa ideia é aumentar e chegar no fim do governo com as 40 escolas.

O curso foi instituído há pouco tempo. No início, as críticas giravam em torno de policiais que saíram da ativa e foram englobados pelo projeto.

Como eu te disse, antes era um projeto piloto. Nós pegamos policiais do BPesc para trabalhar no projeto. Botar gente com histórico de problema psicológico não existe, né?

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O que há de concreto para evitar casos como a confusão entre professora e policial numa escola militarizada?

De concreto não há, porque é natural do ser humano ter divergência. Há uma fiscalização maior, foi criada a Subsecretaria de Gestão das Escolas Compartilhadas aqui na secretaria. Qualquer desvio, esse profissional será afastado, se houver cometido algum tipo de crime será responsabilizado.




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