Elas causam um efeito devastador em muitas famílias. Capazes de destruir lares, ailment as drogas têm se tornado um problema cada vez mais preocupante ao passo que surgem novas substâncias que se alastram com velocidade no mercado negro. O padrão de idade de pessoas envolvidas com drogas, que antes predominava em jovens entre 20 e 30 anos também tem mudado. De um ano para cá, os Centros de Apoio Psicossocial (CAPS) vêm recebendo crianças com apenas dez anos de idade e também pessoas mais velhas, com mais de 50 anos. “Está fugindo do esperado”, admitiu o coordenador de Saúde Mental da Secretaria de Saúde, Leonardo Moreira.
A realidade se mostra ainda mais assustadora uma vez que existem 4,9 mil dependentes químicos (incluindo alcoólatras) cadastrados para tratamento pela Secretaria de Saúde. Esses são os que procuram tratamento, mas há aqueles que não querem se tratar ou não sabem onde buscar ajuda. Para toda a demanda, entretanto, existem apenas dois CAPS em todo DF, sendo um em Sobradinho e outro no Guará, que recebe cerca de 50 novos pacientes por semana. Em Sobradinho, pelo menos 30 procuram o centro de apoio em uma tentativa de se livrar da dependência química.
Se tratar foi uma das coisas mais difíceis da vida de Guilherme (nome fictício), 28 anos. Ele conheceu as drogas ainda menino, com apenas oito anos, e a partir de então passou a furtar, roubar, seqüestrar e até matar. Tudo para sustentar o vício. Ficou três anos morando na Rodoviária do Plano Piloto. Não foi abusado sexualmente, mas viu muitos meninos passarem por isso. “Hoje eu sei que posso servir de exemplo para outras pessoas não fazerem o mesmo, mas não vejo vantagem alguma no que fiz”, disse ele, que já passou por clínicas de reabilitação.
Deixar a vida das drogas não foi nada fácil para Guilherme. Depois de quase 20 anos envolvido com a criminalidade ele decidiu dar um rumo diferente a sua vida. Hoje, ele trabalha com pintura de carros e avalia que as drogas só lhe trouxeram prejuízo (veja depoimento). Guilherme faz parte de uma parcela pequena que conseguiu se livrar do vício.
Pesquisa
Segundo um levantamento feito pelo Ministério da Saúde sobre o uso de drogas psicotrópicas no Brasil, 17% de 673 pessoas entrevistadas assumiram ter usado algum tipo de droga na vida. Entre eles, 7,8% assumiram já ter usado maconha, 2,2% disseram já ter usado cocaína e 0,3% contaram ter feito uso de merla. O crack teve a mesma porcentagem. A pesquisa foi realizada em sete cidades da Região Centro-Oeste, incluindo Brasília. É a partir desses números que a Secretaria de Saúde tem trabalhado para a aplicação de políticas públicas para a capital. “O tratamento de um dependente químico envolve vários serviços e profissionais. Quanto maior a dependência, maior serão os prejuízos para a pessoa e conseqüentemente o tratamento é mais demorado”, explicou o coordenador de Saúde Mental da Secretaria de Saúde, Leonardo Moreira.
Uma das maiores dificuldades está em convencer um dependente a se tratar. “Qualquer pessoa conhece alguém que tenha se envolvido com drogas, mas muitos não aceitam o tratamento”, explica Moreira. Mas, se por um lado existem aqueles que recusam ajuda, por outro, a quantidade de locais apropriados e profissionais para isso também não supre as necessidades.
A quantidade de CAPS existentes no DF talvez seja um problema para o tratamento do vício. Segundo Moreira, o número está de acordo com o que recomenda o Ministério da Saúde, que é de, pelo menos, um centro a cada 200 mil habitantes. Mas ele assume que o número está longe do ideal. São apenas dois para atender toda a população do DF, mas a intenção é de que seja construído pelo menos mais um em Ceilândia, onde a incidência de uso de drogas é constante. “É bastante crítico ainda, mas isso vem de uma defasagem de muito tempo”, avalia Moreira.
Quem sofre com o vício das drogas não tem muitas opções. Atualmente, o serviço de desintoxicação é realizado em 13 dos 19 hospitais regionais da Secretaria de Saúde.
Os encaminhamentos para recuperação geralmente são dados pelos centros de saúde e demais serviços de assistência primária. A intenção é que todas as unidades hospitalares tenham profissionais capacitados para realização de desintoxicação de pacientes até o final do próximo ano. Uma das apostas do governo para os próximos anos é fazer um trabalho de conscientização. “Durante muito tempo isso não foi feito. A gente precisa fazer uma abordagem do assunto de forma mais ampla, voltada para a prevenção e para o tratamento”, acredita.