Ana Ferreira
ana.ferreira@jornaldebrasilia.com.br
Manchas brancas, de vários tamanhos, que deixam partes do corpo com a pigmentação diferente do restante. Certamente você já ouviu falar em vitiligo, pois esta não é uma doença que passa despercebida. Mas, você sabe o que é? Quais os sintomas, causas e tratamentos? No último sábado (25) foi comemorado o Dia Mundial do Vitiligo e, o Jornal de Brasília pesquisou sobre o assunto para contar tudo pra você, sobre esta condição ainda pouco divulgada e que envolve tanto preconceito da sociedade.
Segundo a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), cerca de 2% da população mundial, é facilmente diagnosticado pela presença de manchas brancas bem delimitadas, que se situam em qualquer área da pele. As causas da doença ainda não estão claramente estabelecidas, mas fenômenos autoimunes parecem estar associados ao vitiligo. Além disso, alterações ou traumas emocionais podem estar entre os fatores que desencadeiam ou agravam a doença.
Antes de prosseguirmos com o assunto, é importante ressaltar que o vitiligo não é contagioso e não traz prejuízos a saúde física. No entanto, as lesões provocadas pela doença impactam significativamente na qualidade de vida e na autoestima do paciente. Hoje, o maior problema para os pacientes condicionados é a rejeição social.
Lucas Rodrigues, 21 anos, convive com o vitiligo desde os 12. O estudante de jornalismo conta que quando descobriu a doença não sabia nada sobre o assunto e que a maior dificuldade encontrada no dia a dia é lidar com o preconceito social.
“Costumo dizer que o vitiligo nos marca por dentro e nos tatua por fora. As manchas brancas causadas pela doença não coçam, não doem e nem são contagiosas, mas os olhares preconceituosos que recebo diariamente me incomodam bastante”, diz o jovem.
O estudante afirma que o apoio da família no decorrer do tratamento é fundamental.”Um dos momentos mais complicados da minha vida aconteceu quando pequeno, na escola. Era comum ouvir piadas de mau gosto relacionadas à doença. Eu me sentia ofendido todas as vezes que era chamado de dálmata, zebra ou de Michael Jackson”, relembra.
Para tentar amenizar as dúvidas que circulam em torno do diagnóstico, o médico dermatologista do Hospital Universitário de Brasília (HUB), Dr. Roberto Doglia Azambuja, respondeu a dúvidas mais comuns da população:
Jornal de Brasília: O que é vitiligo?
Dr. Roberto Azambuja: Trata-se de um processo de perda de pigmento pela pele, que se manifesta por manchas brancas que podem atingir qualquer área do corpo, sendo mais características nas dobras supra-ungueais, mãos, pés, cotovelos, joelhos, pálpebras e axilas. Podem ser progressivas ou aparecerem e se estabilizarem em algum momento, podendo se ativar novamente eventualmente.
JBr.: Quais os tipos da doença?
Dr.RA: Basicamente, há três tipos de vitiligo: o focal, o segmentar e o generalizado. O focal é o mais comum e se expressa por manchas isoladas, que atingem poucas áreas do corpo, podendo mesmo ser uma única mancha. O segmentar aparece em alguma área, expande-se rapidamente e se estabiliza, não progredindo mais e não aparecendo no outro lado do corpo, isto é, ele ocorre somente de um lado, em um segmento, e, depois de chegar ao máximo de desenvolvimento, não cresce mais. O generalizado ocorre em ambos os lados do corpo, é simétrico e tem a tendência de progredir continuamente ou em surtos, podendo comprometer toda a extensão da pele. Existe ainda um tipo raro, que é uma síndrome, podendo ser afetados melanócitos da retina, do ouvido e das meninges, o que é acompanhado de sintomas diversos.
JBr.: Quais as causas e sintomas da doença?
Dr.RA: Não há causa determinada. Possivelmente, a causa se situe nos genes. Em algumas famílias, o vitiligo é nitidamente genético, pois encontram-se vários membros afetados e mais de uma geração. A maioria dos pacientes com vitiligo, porém, não tem antecedentes familiares de vitiligo, sendo o primeiro caso em várias gerações.
Quanto a sintomas, geralmente não há. Algumas pessoas sentem coceira antes do aparecimento de manchas, outras sentem em manchas já existentes. Logicamente, a pele despigmentada, por não ter defesa contra os raios solares, fica muito sensível a eles, queimando-se com facilidade. Deve, portanto, ser protegida da exposição prolongada aos raios ultravioleta.
JBr.: Como a doenças se desenvolve em cada paciente?
Dr.RA: Vitiligo é uma manifestação individual. Cada pessoa forma o seu tipo particular e irreproduzível de vitiligo, por uma combinação própria de fatores e responde aos tratamentos de modo inteiramente individual. Por esse motivo, não existe tratamento padrão para todas as pessoas, que dê o mesmo resultado em todas elas.
JBr.: Qual o tratamento para a doença?
Dr.RA: Em casos de vitiligo focal, pode-se ter uma resposta boa a ótima num prazo de seis meses. O comum é que demore mais de um ano. Há pessoas que obtêm cem por cento de recuperação e outras que não apresentam nem a mínima resposta nunca. Vitiligo pode ter cura mas, é uma propriedade do organismo do paciente, não dos tratamentos utilizados. Todos os tratamentos sabe-se que podem curar, mas, se a cura vai ocorrer ou não, dependerá de como o organismo reage a eles. A duração do tratamento é imprevisível. O processo de repigmentação é lento e nem sempre é regular. Pode haver fases de repigmentação, seguidas de fases de paralisação da resposta e até de despigmentação do que já tinha sido repigmentado. O tratamento é feito com medicamentos tópicos e orais e com exposição da pele atingida a radiação ultravioleta de faixa estreita. Em alguns casos, pode ser feita cirurgia com implantação de melanócitos, seguida de fototerapia.
JBr.: Existem fatores de risco? Quais?
Dr.RA: O real fator de risco é a hereditariedade. É certo que, havendo um antecedente com vitiligo, aumenta a possibilidade de algum descendente também ter a doença. Se houver mais de um antecedente, principalmente se houver antecedentes de ambos os lados, paterno e materno, com vitiligo, a possibilidade cresce. Entretanto, não se pode predizer quem vai ter vitiligo nem se alguém vai desenvolver a doença. Quando a pessoa apresenta vitiligo, fatores de risco podem ser ferimentos na pele ou queimaduras, de modo que é preciso evitá-los.
JBr: Existe idade propícia para o surgimento das primeiras manchas? A doença costuma surgir com maior probabilidade em homens ou mulheres?
Dr.RA: Vitiligo se inicia mais comumente até os 20 anos de idade. Depois, começa a cair a possibilidade de desenvolvê-lo, mas não há idade sem risco, podendo iniciar-se mesmo aos 80 anos.Vitiligo já ao nascimento é muito raro. Geralmente, começa depois do primeiro ano de vida. Por motivo desconhecido, há uma ligeira predominância da incidência de vitiligo no sexo feminino.
JBr.: Como é feito o diagnóstico?
Dr.RA: Convém procurar o dermatologista sempre que uma mancha despigmentada aparecer em qualquer área da pele. Nem toda mancha branca é vitiligo, mas, se for, quanto mais cedo for iniciado o tratamento, teoricamente melhor a possibilidade de curá-lo.O diagnóstico basicamente é clínico, pelo aspecto das manchas, utilizando-se uma lâmpada de ultravioleta, que reflete o branco. Em 90 % dos casos é possível dar o diagnóstico dessa maneira. Outra possibilidade, reservada aos casos muito duvidosos, é o exame imuno-histoquímico por meio de biópsia. A biópsia comum não dá nenhuma ajuda para o diagnóstico. Entretanto, em alguns casos, nos quais as manchas podem ser vitiligo ou alguma doença, que tenha aspecto histopatológico característico, a biópsia é válida para confirmar ou excluir essa outra possibilidade.
JBr.: Vitiligo é contagioso? A pessoa que possui a doença pode levar uma vida sem nenhuma restrição?
Dr.RA: Vitiligo não é contagioso e não impede nenhuma atividade da pessoa, exceto exposição das áreas afetadas à luz solar.