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Brasília

Violência obstétrica: práticas consideradas "normais" são cada vez mais questionadas

Arquivo Geral

11/10/2014 9h20

A violência durante o parto  é mais comum do que se imagina. Ontem, o JBr. mostrou que 18% das mulheres ouvidas em pesquisa do Ministério da Saúde alegam ter sofrido algum tipo de agressão – física ou psicológica. Mas nem sempre elas se dão conta de que alguns procedimentos usuais são contestados sob este aspecto.

São exemplos disso romper a bolsa, colocar remédios para acelerar as contrações e proceder a episiotomia – corte na vulva ou vagina para aumentar o canal para a passagem do bebê – sem necessidade. 

Segundo o pesquisador Carlos Antônio Montenegro, no livro Obstetrícia Fundamental, a técnica só é   necessária em 10% a 15% dos casos, apesar de ser utilizada em 90% dos partos   na América Latina. 

Melânia Amorim,   ginecologista   e obstetra, afirma que há evidências    de que o corte não só é desnecessário como  pode ser prejudicial. “Sem ele a perda de sangue é menor. O corte também é difícil de cicatrizar, se gastam mais fios para dar os pontos e a abertura acarreta   um aumento da dor no pós-parto. Além disso, muitas mulheres têm dificuldades em retomar a vida sexual”, aponta.

Dor

Para piorar, alguns cortes são feitos às pressas, sem anestesia local. Isso porque muitos profissionais acreditam que a mulher não sente dor naquela região logo após parto, o que, segundo  especialistas do Ministério da Saúde, é um mito. 

A dentista Viviane Araújo,  40 anos, foi uma das vítimas desse procedimento. Ela disse ao  médico que preferia fazer uma cesariana, mas no fim das contas o parto foi normal, com direito a episiotomia. “No primeiro corte eu   não senti nada, mas o médico continuou, foi fazendo cortes cada vez mais profundos e eu comecei a gritar de dor. Ele disse que não poderia parar naquele momento. Assim que dei à luz, ele me fez inalar um anestésico para fazer a sutura”, relata, no documentário A dor além do parto (leia o quadro).

Segundo o promotor de Justiça Diaulas Ribeiro,  há outras práticas  que podem ser prejudiciais, como o uso indiscriminado do fórceps –  para extrair os fetos por pressão da cabeça. Atualmente,  o instrumento é contraindicado porque pode causar lesões e até a morte da criança. 

Entrada de acompanhante é um direito
 
Um tipo de violência mais leve, mas não menos grave,   é a proibição da entrada de acompanhantes na sala de parto. Mães têm direito de ter uma acompanhante durante o pré-parto, parto e pós-parto, o que é assegurado pela Lei Federal 11.108/05. A determinação vale para hospitais públicos e privados, mas a realidade é que poucas gestantes conhecem esse direito e, apesar da legislação, não existem penas previstas para os hospitais que descumprem a medida. Dados coletados em 2012, pela ouvidoria da Rede Cegonha, do Ministério da Saúde, mostraram que 64% das 54 mil mulheres entrevistadas não tiveram acesso a esse direito, e 15% (5,3 mil mulheres)  sequer sabiam que existia essa garantia.
 
Cesárea está banalizada, diz professora
 
Segundo estudos da médica Daphne Rattner, professora da UnB, o número de cesarianas   também é excessivo. “A cirurgia está banalizada. Pode haver reações à anestesia, lacerações, hemorragias, infecções e outras complicações”, explicou, em um simpósio sobre o tema.
 
Dados apresentados por Daphne mostram que a mortalidade materna é de 0,9% nos partos vaginais, mas sobe para 2,7% com as cesarianas. Estima-se que de 85% a 90% das mortes maternas são evitáveis e que dois terços das cesarianas são desnecessárias. A estudante Adriana   Costa,   27 anos, teve o parto antecipado por uma cesariana. “Meu corpo ainda não dava sinais de que era o momento do parto”, alega. 
Outra técnica prejudicial é a manobra de Kristeller, pela qual se aplica  força no fundo do útero para facilitar a saída do bebê. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a prática deve ser evitada, pois pode causar a falta de oxigenação do feto, traumatismo craniano e fraturas de costelas, além de laceração de órgãos da mãe.
 
Documentário
 
O ponto de partida para a reportagem publicada ontem no JBr. foi o documentário A dor além do parto, que trata da violência sofrida pelas gestantes no Brasil. A iniciativa foi produzida por alunas do curso de Direito.
 
O vídeo já conta com mais de 50 mil visualizações no YouTube.  A violência no parto coloca a obstetrícia no primeiro lugar no ranking de erros médicos.

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