Soraya Sobreira
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Cerca de 70% das famílias brasilienses possuem carro ou motocicletas. Até mesmo em áreas mais carentes do DF, como a Estrutural e o Itapoã, mais de 30% dos moradores têm um automóvel. Ou seja, o veículo particular virou prioridade para a maioria da população, o que se comprova por meio dos dados do Departamento de Trânsito do DF (Detran-DF). Em dez anos, a frota cresceu 98,9%. Até julho deste ano, foram contabilizados mais de 1,3 milhão de veículos, para um total de 2,5 milhões de habitantes – média de um para cada duas pessoas. Os carros são a grande maioria. Estudos apontam que em oito anos, as ruas do DF entrarão em colapso.
As más condições do sistema de transporte público têm feito que até mesmo as famílias mais carentes invistam mais nos veículos do que em suas próprias residências. O marceneiro Jercione Lustosa, 47 anos, é exemplo disso. Ele opta pelo carro para se “livrar dos ônibus”. “Não aguentava mais aquelas humilhações de passar quase duas horas esperando um transporte, e quando chegava, já não tinha espaço para mais ninguém. Então, resolvi juntar umas economias para comprar este carro”, comemora. Jercione comenta que a vida melhorou bastante depois da aquisição. “Antes, pegava dois ônibus para ir trabalhar. Chegava ao serviço cansado desta rotina, sem contar que levava horas para fazer uma viagem de 40 minutos”, relembra.
Morador da Estrutural, Jercione Lustosa comprova o resultado da Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios (Pdad), da Companhia de Planejamento do DF (Codeplan). O percentual de famílias que possui automóvel (32,3%) e/ou motocicletas (7,1%) chega a 39,4% na cidade. O dado da região é o menor entre as 30 regiões administrativas pesquisadas. Entretanto, os números chamam atenção por ser uma cidade com baixo poder aquisitivo.
“Não quero ficar sem carro e ter que depender de um transporte público ruim. Nem que me custe morar em um lugar não muito bom. Uma vez, ao descer do ônibus, minha filha e eu quase fomos esmagados porque o motorista fechou a porta antes mesmo de nós descermos”, conta. Por mês, ele gasta pouco mais de R$ 200 com combustível. “Já deixo reservada esta quantia, já que agora aproveito meu carro para trabalhar vendendo rodos”, explica Jercione.
Com realidade bem diferente, o Lago Sul tem quase que 99% dos domicílios com um ou mais veículos. As motocicletas chegam a 5,8%.