Jurana Lopes
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Enquanto usuários de drogas perambulam pelas ruas do DF e brasilienses tentam salvar familiares do vício, a oferta de tratamento é enxugada de forma significativa. Em 2013, o governo local custeava 250 vagas em comunidades terapêuticas. Esse número caiu para 164 em 2015 e, neste ano, são apenas 42. Para completar, há recurso garantido somente até junho.
O levantamento é da Associação das Comunidades Terapêuticas do DF e Entorno. A organização relata que o custo médio mensal de um dependente químico é de, pelo menos, R$ 2 mil. No entanto, as comunidades recebem R$ 1 mil. O valor, alega, é insuficiente para bancar cinco refeições diárias e acompanhamentos psicológico e psiquiátrico.
De acordo com o último estudo da Fiocruz sobre o contingente de usuários de drogas no DF, em 2013, havia sete mil pessoas nessa condição – ante 250 vagas oferecidas naquele ano. Atualmente, das cem comunidades terapêuticas conveniadas ao governo, 21 estão em condições de manter contrato e somente três têm contrato até junho. Todas possuem vagas, mas recusam novos acolhidos por falta de recurso. A falta de repasse do GDF também resultou no fechamento de algumas instituições.
“As comunidades que recebiam mulheres e adolescentes fecharam. As poucas vagas que restam são para homens. Somos obrigados a recusar novos acolhidos porque o GDF contingenciou o recurso do Fundo Antidrogas (Funpad-DF) e tirou para outro uso”, alega Areolenes Nogueira, presidente da Associação das Comunidades Terapêuticas do DF e Entorno.
Situação desesperadora
Ela relata que a situação das famílias que não têm condições de pagar tratamento é desesperadora. “Qualquer clínica de reabilitação particular cobra R$ 400 por dia. Não é todo mundo que tem condições de arcar com esse valor. Queremos ajudar, temos vagas, mas, sem recurso, não podemos arcar com os custos. Além do Instituto Crescer, que funciona em Vicente Pires e acolhe 35 dependentes, eu tenho uma chácara com 60 leitos na Ponte Alta, mas nunca coloquei em funcionamento por causa dessa situação”, revela.
Areolenes ressalta que se trata de uma doença, e os usuários não podem ser marginalizados pela sociedade. “São pessoas de boa índole, que em algum momento da vida entraram nesse mundo. Faltam políticas públicas para dar assistência e ajudar essas pessoas. É uma doença séria que deve ser tratada com seriedade”, afirma.
Para a presidente da associação, o governo regrediu com o passar dos anos, pois, em vez de aumentar a oferta de vagas de tratamentos, reduziu.
Acolhidos são mantidos por doações
Psicóloga na comunidade terapêutica Salve a Si, Eliza Andrade explica que a falta de dinheiro é preocupante. Por causa disso, tem pedido ajuda às famílias dos acolhidos. “Temos mais de 70 vagas em aberto, mas precisamos de custeio. Recebemos algumas doações, mas não são suficientes. O gasto com alimentação é muito alto”, afirma.
Segundo Eliza, todos os acolhidos possuem uma rotina dentro da comunidade, pois isso ajuda na ressocialização dos dependentes. Eles são responsáveis pela limpeza, alimentação e produção de pães. Também recebem capacitação em informática e orientação espiritual. O tratamento dura seis meses.
Grupo tenta sensibilizar autoridades
Para sensibilizar o Legislativo local, um grupo que defende o tratamento de usuários em comunidades terapêuticas foi à Câmara Legislativa na última terça-feira. A ideia era pedir o apoio dos distritais na criação de vagas e o descontingenciamento do recurso. Uma audiência pública para debater o tema foi marcada para 5 de abril, às 19h, no Plenário da CLDF.
Stevão Randolfo, presidente da Associação de Apoio aos Dependentes Químicos do Brasil, integrou o grupo que solicitou a ajuda dos distritais para obter recursos junto ao Executivo. Ele começou a lutar pela causa após sair de uma comunidade terapêutica, na qual ficou internado por um ano.
“Eu era usuário de crack, vivi nas ruas do Setor Comercial Sul e no centro de Taguatinga por alguns anos. Depois, me tratei e, hoje, luto para que essas entidades não fechem. O usuário de drogas só vai conseguir se ressocializar, melhorar a conduta e o comportamento em uma instituição dessas. Eu sou prova de que qualquer usuário pode voltar a ter uma vida normal”, relata.
O jovem, hoje com 24 anos, utilizou drogas dos 12 aos 21 anos. Hoje, é atleta e está prestes a concluir a faculdade de Secretariado Executivo. Motivado por sua própria história, Stevão quer mudar a vida de várias outras pessoas viciadas em drogas.
Faltam recursos para ONG
O fundador da ONG Salve a Si, José Henrique França, lamenta não poder atender mais acolhidos no local por falta de recursos. “Hoje, recebemos o convênio só do Governo Federal e do governo de Goiás. Meu maior sonho é receber o apoio do Governo do Distrito Federal e retirar os dependentes de drogas daquele hotel abandonado e do Setor Comercial Sul”, explica o ex-usuário de drogas.
De acordo com Henrique, a Salve a Si possui capacidade para 120 acolhidos, mas, atualmente, atende somente 52 por não ter recurso. “Estamos com a dispensa vazia, demitindo funcionários por falta de dinheiro e recusando novos pacientes porque não temos condições de manter mais gente aqui. Nos últimos dias, recebi mais de 150 ligações e fui obrigado a dizer não para todos”, queixa-se o fundador da ONG.
Nova história
José Ilo, de 43 anos, está internado na comunidade terapêutica há quatro meses e explica que entrar na instituição foi a mais eficaz forma de se recuperar e voltar a viver.
“Passei mais de 20 anos usando drogas. Morava com minha mãe e meus irmãos. Meu envolvimento com as drogas foi ficando cada vez mais profundo, os amigos se afastaram e, quando minha mãe se mudou para uma casa sem espaço para mim, me dei conta de que a situação estava realmente ruim”, lembra.
O cenário começou a mudar após a mãe de José, juntamente com a filha dele e um grupo de dez amigos, o convencerem a se internar na Salve a Si.
Crises de ansiedade
“No início foi muito difícil, eu tinha vontade de ir embora, ficava nervoso e tinha crises de ansiedade. Entrei em depressão, pois nunca tinha ficado tanto tempo longe da minha família. Eu usava maconha e crack, ia para as ruas, mas sempre voltava para casa. Isso gerou uma grande abstinência. Com o tempo, passei a ocupar a cabeça e hoje recebo o apoio da minha família”, relata José.
O ex-usuário explica que perdeu o amor da mãe de sua filha por conta das drogas. “Talvez, se eu tivesse largado as drogas naquela época, hoje eu teria uma família, outros filhos e criado a minha filha”, lamenta.
José pretende retomar sua vida após sair da ONG e quer recuperar o tempo perdido, voltando a trabalhar no ramo imobiliário, além de se aproximar mais da filha e dos demais familiares.
Recuperação depois das cracolândias
H., 26 anos, conheceu 19 estados brasileiros e viveu vários anos nas cracolândias. Ele começou a usar ilícitos aos 12 anos e, após perder sua mãe, aos 16 anos, se afundou nas drogas. A avó o levou ao interior da Bahia, mas não teve jeito. O jovem começou a trabalhar como garçom, mas o trabalho o deixava perto do álcool.
Cada vez mais viciado em cocaína e crack, H. decidiu viajar pelo Brasil. “Morei mais de um ano nas ruas de Curitiba. Conheci lugares tenebrosos por causa da droga. Fiquei dias nas cracolândias de São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro. Por causa de dívidas, quase fui morto por traficantes. Cheguei a beber água de lama, tentei me matar várias vezes”, relembra.
H. diz que conhece bem o Buraco do Rato, no Setor Comercial Sul, e passou dias no local. Após idas e vindas e pedidos de ajuda ao pai, na última vez que ele teve uma crise, na casa do pai, usou drogas na frente dos irmãos e foi agressivo com todos.
“Agredi meu pai, ele chamou a polícia e me deixou na rua. Usei muita droga. No outro dia, procurei minha madrasta e decidi que queria me internar. Meu pai tinha um colega de trabalho que fez tratamento na Salve a Si e me contou como funcionava”.
Quatro meses após iniciar o tratamento, H. se sente melhor: “Meu pai está feliz em me buscar para passar o fim de semana com ele e meus irmãos. Uma certeza que tenho é que não quero mais trabalhar como garçom, pois a profissão me deixa muito perto do álcool”. O rapaz pretende fazer curso na área de tratamento de dependentes quando sair da ONG para ajudar outras pessoas a se recuperar.
Versão oficial
De acordo com a Secretaria de Justiça, hoje, existem 21 entidades com registro válido no Conselho de Política sobre Drogas do Distrito Federal (Conen-DF), sendo que cinco têm contratos com recursos do Funpad para disponibilização de até 152 leitos para acolhimento voluntário a pessoas com transtornos decorrentes do uso, abuso ou dependência de substâncias psicoativas, em regime de residência. Segundo a Sejus, houve redução de vagas ofertadas por conta da crise orçamentária que passa o DF.
Em nota, a Secretaria de Saúde informou que não possui credenciamento nem convênio com clínicas particulares. As internações de dependentes são feitas de forma compulsória, e a rede oferece atendimento aos pacientes das unidades de saúde da rede pública. Atualmente, existem 17 Centros de Atenção Psicossocial, Álcool e Drogas (Caps-AD) em funcionamento no DF, sendo oito voltados para transtornos mentais, dos quais três infanto-juvenis e nove voltados para transtornos advindos do abuso de álcool e outras drogas, sendo duas infanto-juvenis. Todos os Caps oferecem atendimento psiquiátrico, de acordo com o público-alvo de cada serviço.
Segundo o último Plano Diretor de Saúde Mental, são necessários mais aproximadamente 30 Caps no DF, considerando o critério populacional para uma boa cobertura assistencial.