Ao sair do dojang (local de combate), ontem, após a derrota para a mexicana Rosário Espinoza, a brasileira Natália Falavigna ajoelhou-se e chorou. Lágrimas compulsivas. Misto de tristeza pelo fim do sonho do ouro pan-americano e de revolta, por discordar dos juízes. Favorável à indignação, com violentos gritos de “juiz ladrão, pancada é solução”, o ótimo público brasileiro presente na arquibancada para a disputa do taekwondo, no Riocentro, aplaudiu o esforço da compatriota. Para os fãs, a medalha de prata na categoria acima de 68kg representava mais do que o ouro da rival.
“Não gosto de reclamar dos árbitros, mas fui prejudicada, um dos motivo do meu choro”, desabafou Falavigna.
A medalha de prata veio logo em seguida ao bronze do lutador goiano Leonardo Santos, na categoria acima de 80kg. Leonardo perdeu o segundo lugar para Anthony Graf, dos EUA. O ouro ficou pendurado no pescoço do cubano Gerardo Ortiz.
“Na minha primeira luta do dia, ainda pela manhã, machuquei o joelho direito. Senti muita dor. Estou com uma lesão séria. Mesmo assim, arranjei forcas para chegar até o final. A torcida merecia. Incentivou muito. Nunca lutei diante de uma arquibancada lotada. É inédito para nós do taekwondo”, emocionou-se Leonardo, ainda mancando.
A prata de Falavigna é a quarta e última medalha do Brasil na modalidade nos Jogos do Rio. E encerra o calendário do taekwondo no Pan. No sábado, Márcio Wenceslau ficara em segundo lugar entre os atletas até 58kg. Domingo, Diogo Silva faturou o primeiro ouro do Brasil no evento (até 68kg).
“Provamos que temos lutadores capazes de brilhar, e muito, lá fora. Batalhamos para dar essa alegria aos brasileiros. Acredito que os resultados nos ajudarão a mudar o panorama do taekwondo no País. Precisamos sofrer mudanças”, cobrou a lutadora, campeã mundial em 2005.
Operação abafa
A reivindidação está atendida. Pelo menos da boca para fora. Ontem, a Confederação Brasileira anunciou reajuste de 50% no salário de Diogo Silva e outros três medalhistas: Natália Falavigna (prata), Márcio Wenceslau (prata) e Leonardo Santos (bronze).
A crise salarial foi detonada por Diogo Silva, no domingo. Ao faturar o ouro, o lutador aproveitou a visibilidade da conquista para cobrar apoio e criticar os dirigentes. Reclamou dos R$ 600 de ajuda de custo. E disparou: “O pior é que essa verba sempre atrasava. Saía de três em três meses. Só colocaram em dia por causa do Pan. No começo do ano fizemos reivindicações, mas fomos ignorados”, detonou o medalhista.
Ontem, ao saber do aumento, Diogo ironizou: “Não creio em Papai Noel. Promessas iguais venho ouvindo desde os 16 anos. Dobrar o que recebo é a mesma coisa que nada. Não muda nossa situação. Vou aplaudir um absurdo desses?”
Leonardo Santos reforçou. “O que o Diogo falou representa o pensamento do taekwondo brasileiro. As medalhas no Pan não são resultado de poucos dias de trabalho. Nos esforçamos por anos para chegar hoje, subir ao pódio, e poder sonhar com uma renovação. Acreditar que a realidade vai mudar”, desabafou.
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