Por Vítor Ventura
São muitos os desafios no dia a dia dos pedestres do Distrito Federal. Em vias com um alto fluxo de veículos, um desses obstáculos é atravessar para o outro lado onde não há passarelas. Um exemplo está na EPIA Sul, próximo à Novacap. Por lá, a demora para atravessar é grande, e mesmo com o sinal verde para o pedestre, é preciso apressar o passo para dar tempo de chegar ao outro lado.
O Jornal de Brasília ouviu dos pedestres o que dificulta mais na hora de atravessar as pistas, sobretudo as mais extensas e mais movimentadas. Doriedson Manoel, 55, morador de Águas Claras, costuma atravessar sempre a Epia Sul para ir trabalhar. Ele relatou que já chegou a perder mais de 10 minutos para atravessar as duas vias e, por isso, atravessa correndo mesmo com o sinal vermelho para pedestres quando consegue.
“Particularmente em frente aqui da Novacap tem esse botão que o pedestre aperta, porém ele não atende de imediato. A gente chega a esperar até mesmo 15 minutos. Então no instante que a gente perde a paciência, quando a via dá uma aliviada, a gente atravessa correndo. É um risco, mas o tempo de espera desse aqui é muito extenso”, contou.
Doriedson disse que já houve um pedido para a implantação de uma passarela no local para facilitar a vida dos pedestres, mas que ainda não houve um retorno sobre a construção de fato. “Todo dia quando eu não utilizo o meu carro e venho de transporte público, chegando aqui em frente da empresa eu assim sofro com isso. Diariamente eu uso esse semáforo. Geralmente é essa demora mesmo”, destacou.
Outro pedestre que também falou das dificuldades de andar em certos lugares da capital foi Otalmir Rodrigues. Morador do Sol Nascente de 55 anos, ele relatou ao JBr que costuma andar bastante pela capital. Paciente, Otalmir disse esperar sempre o sinal abrir para o pedestre antes de atravessar uma via movimentada. “O tempo [de espera] eu creio que é necessário. Mas alguns semáforos são muito rápidos, não dá tempo da gente atravessar. Para quem tem um problema de mobilidade na perna ou está de muleta, alguma coisa assim, é bem difícil”, apontou.
Naquela mesma faixa em que Doriedson atravessou correndo, Otalmir esperou pacientemente até que a vez dele chegasse. Foram cerca de três minutos até que os carros finalmente parassem. Ele não perdeu tempo e atravessou sem precisar correr, mas foram apenas 20 segundos até que os veículos pudessem voltar a andar. “Já vi pessoas com dificuldade de andar que demoram muito mais tempo para atravessar do que esses 20 segundos. Quando eu estou atravessando junto com essas pessoas, costumo também caminhar rente a elas, devagarzinho, para ajudar também”, relatou.

Pedestre deve ser protegido
Guilherme Tampieri, especialista em gestão ambiental e de cidades e gestor administrativo da Associação Andar a Pé, explicou ao Jornal de Brasília que a prioridade no trânsito, teoricamente, é do pedestre. Mas essa prioridade se torna difícil ao tratar das estradas.
“A gente tem que entender que rodovias foram feitas para carro, não para pedestre. Então qualquer alternativa ou medida que seja imposta numa rodovia, ela necessariamente vai privilegiar o automóvel, porque é uma estrutura para o automóvel. Isso é uma pena. Porque tem um conceito francês que fala sobre as fissuras que rodovias deixam nas cidades, que é justamente dificultar essa conexão entre dois pontos que outrora poderia ter sido feita a pé, ou de bicicleta. Então, hoje, nas grandes vias do DF, a gente encontra esse problema, que é: qual a solução que se tem para que os pedestres possam atravessar?”
Tampieri destacou que a solução mais factível é a construção das passarelas, apesar delas não serem o ideal olhando por uma perspectiva de segurança pública e até de deslocamento dos pedestres. “O sonho seria jogar os carros para baixo no local da travessia e deixar os pedestres atravessando em nível, porque a prioridade, segundo o Código de Trânsito Brasileiro e a Política Nacional de Mobilidade Urbana, é dos pedestres”.
Tampieri também ressaltou a questão da acessibilidade. “Eu tentei atravessar uma dessas vias ali próximo ao Guará, e foram mais de 7 minutos esperando os carros passarem. Quando o sinal fecha, é um tempo muito curto. Isso eu tô falando de um adulto que não tem qualquer tipo de deficiência ou dificuldade de locomoção. Quando a gente traz, a perspectiva da acessibilidade, das locomoções corriqueiras do dia a dia – pessoas com carrinho, pessoas idosas, pessoas com deficiência – isso gera um grande risco”, reforçou o especialista.
O que diz o DER
Em nota ao Jornal de Brasília, o Departamento de Estradas de Rodagem (DER-DF) informou que em vias de grande fluxo, como a EPIA Sul, onde trafegam 100 mil veículos diariamente, o tempo máximo de espera para a abertura do sinal ao pedestre é de até cinco minutos, desde que haja solicitação por meio da botoeira.
O departamento explicou a dinâmica do semáforo no local. O cruzamento opera em modo atuado, ou seja, a fase de pedestres só é acionada quando a botoeira é acionada. Além disso, trata-se de um sistema sincronizado, integrado a um conjunto de semáforos coordenados. Nessa condição, após o acionamento da botoeira, o sistema aguarda o momento adequado para compatibilizar o ciclo com os demais cruzamentos do corredor, garantindo a operação alinhada e a segurança viária. Somente após essa equalização ocorre o fechamento do tráfego veicular para a liberação da travessia de pedestres.
Sobre a melhoria estrutural para os pedestres, o DER afirmou que a construção de uma passarela próxima à Novacap já foi licitada. O processo encontra-se em fase final de documentação junto à Caixa Econômica Federal, com previsão de início das obras ainda neste trimestre. O prazo estimado para execução é de 210 dias após a assinatura da Ordem de Serviço, com investimento previsto de R$ 3,5 milhões.
Além disso, segundo o departamento, está prevista a construção de outra passarela na rodovia, também já licitada, com investimento estimado de R$ 3,3 milhões. Atualmente, a EPIA conta com 11 passarelas ao longo de sua extensão.