Raphaella Sconetto
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Em apenas um mês de uso, as 299 novas viaturas da Polícia Militar já são alvo de críticas. Policiais revelam que os cubículos dos carros – modelo ASX, da Mitsubishi – não conseguem transportar mais que dois presos e, a depender do porte físico, somente um. Caso se trate de ocorrência grande, é preciso pedir ajuda a outras equipes que estejam com carros maiores. Outro problema é o local onde o estepe é guardado: ao lado do cubículo, ocupando o espaço que já é pequeno. Apesar da insatisfação do pessoal, a Polícia Militar alega que houve um estudo antes da compra, e o modelo está apto para o policiamento.
As quase 300 viaturas custaram mais de R$ 30 milhões – cada tem o valor de R$ 106.311,10. Um policial militar relata que a crítica é unânime em todo o seu batalhão. “O modelo não funciona para a nossa atividade. Anda bem, tem estabilidade, mas não tem cubículo. Aquilo é uma gaiola pequena. Só cabe um e não tem como ir com as pernas esticadas ou numa posição confortável. O preso só pode ir de cócoras ou ajoelhado”, ilustra.
Para ele, o que era para ajudar acabou complicando. “Por exemplo, quem está no Linea (Fiat) tem o costume de pedir apoio. Como vamos conseguir apoiar a condução se a nossa viatura não tem esse aporte?”, questiona. “A gente tem que contar com a Pajero. Estamos tirando uma viatura que poderia estar patrulhando para poder dar o apoio”, completa. No caso das Pajeros, é possível que quatro detidos se acomodem no cubículo.
A situação se torna ainda mais delicada depois que o Conselho de Direitos Humanos do DF questionou o uso. “A gente nem coloca preso lá dentro porque sabe que pode dar problema. Se colocarmos, corremos risco de sofrer com um processo de tortura”, afirma o policial. “Se for claustrofóbico, pode morrer de desespero lá. Não há condições de transportar ninguém”, reforça.
Para o militar, não há justificativas para a presença do pneu no porta-malas. “Foi uma exigência da corporação, porque disseram que o estepe original era mais fino. Só que nós nem trocamos pneu. Se der problema, a gente aciona o pessoal da manutenção. Os estepes da Pajero, por exemplo, ficam na garagem, nem saem”, comenta. “Era mais fácil adaptar. Tirar aquele pneu, aquela gaiola e adaptar todo o porta-malas. Era mais inteligente”, sugere.
Readequação
Vice-presidente da Associação dos Praças Policiais e Bombeiros Militares do DF, o sargento Manoel Sansão reconhece que o espaço pequeno para transportar os detentos pode, inclusive, afetar a produtividade. “As outras viaturas conseguem pegar até quatro pessoas de uma única vez. Com essas, se tivermos uma ocorrência de grande vulto e apreensão, não vai ter como. Vai ser preciso deslocar outras viaturas que poderiam estar atendendo outras ocorrências”, reitera.
O porta-malas original da ASX tem um volume de 415 litros. Com pneu, cai para 380 litros – uma redução de 8% da capacidade. Quando comparado com o volume da Pajero, o novo modelo sofreu uma redução de 67% da capacidade – se levar em consideração que o porta-malas da Pajero tem um compartimento total de 1.160 litros. Já a GM Blazer, modelo ainda mais antigo, tem 435 litros no porta-malas – 15% a mais que o volume da ASX.
Para Sansão, o melhor seria a readequação e, em caso extremo, a compra de novos carros. “Se o cubículo está ruim, tem de se ser adequado para atender aos policiais e à sociedade. A Polícia Militar tem que fazer pesquisa antes de comprar, porque é o policial que está na rua e sabe qual o melhor carro para uso. É adaptar o espaço ou comprar novas”.
Ponto de vista
Em nota, a Polícia Militar defendeu a compra. A corporação alegou que o modelo ASX passou por avaliações, como a segurança do policial e o desempenho do carro para a atividade, antes da aquisição. “Essas questões são avaliadas por uma comissão de estudo designada pelo Estado-Maior da Corporação. O modelo ASX possui o centro de gravidade relativamente baixo, propensão de capotagem moderada (17%), bom desempenho técnico, boa capacidade para situações fora de estrada e para áreas esburacadas, espaço interno reforçado, adequado para guarnições e para transporte de pessoas detidas, entre outros”, alega.
A polícia diz ainda que o compartimento para transportar os detidos possui todas as características que atendem a Lei 8.653/93. “Ventilação natural, iluminação natural, divisória entre o compartimento de bagagens e passageiros, proteção do assoalho, laterais e teto em fibra ou material plástico de alta resistência virtualmente indestrutível pela ação de um homem adulto sem ferramentas, porta grade com fecho externo que proteja a porta original do veículo”, afirma, em nota.
Sobre os estepes, a PM informou que, por conta da atividade policial, os pneus precisam ter medidas específicas e, muitas vezes, serem reajustados – como aconteceu com as viaturas modelo ASX. “O estepe precisou ser reposicionado para que fosse cumprido o exigido na lei e para que ficasse resguardada a segurança dos policiais”.
De acordo com o porta-voz da corporação, major Michello Bueno, a Polícia Militar possui variados modelos de viaturas que conseguem atender todas as ocorrências. “Temos viaturas com cubículos grandes, sem cubículos e com cubículos pequenos. A maior parte das ocorrências é de menor potencial ofensivo, como discussão de vizinhos, acidente de trânsito. São ocorrências resolvidas no local e que não há prisões”, argumenta.
Em casos de ocorrências com grande apreensão, o major garante que a PM estará preparada para o transporte. “Todo batalhão tem viatura com cubículo grande. Há casos em que o preso pode ir no banco de trás, por não apresentar periculosidade. Não há nada ilegal. Estamos dentro do padrão exigido pela lei”, assegura.
Saiba mais
Atualmente, a Polícia Militar conta com uma frota de duas mil viaturas, de duas e quatro rodas. Os modelos são diversos: Linea, Fiesta, Etios, Blazer, Pajero, Frontier e Corolla, entre outros.