Maria da Conceição, doméstica de 30 anos, convive com uma ironia diária. Passam ônibus de cinco em cinco minutos em uma parada à frente de onde costuma esperar o transporte para o serviço, mas quase nenhum no ponto onde fica. “Se percebo que estou há mais de duas horas aqui esperando, pego um pirata mesmo. Se não tiver, o jeito é caminhar”, reclama. O trajeto que ela percorre tem mais de um quilômetro.
O JBr. mostrou ontem que o Governo de Brasília articulou para que o veto ao Projeto de Lei (PL) 958/2012, a respeito da liberação de micro-ônibus novamente na capital, não fosse derrubado na Câmara Legislativa. Conforme o secretário de Mobilidade, Marcos Dantas, a ação foi “uma questão de coerência”.
Na edição passada, ele afirmou ao JBr. que os micro-ônibus roubariam passageiros do atual sistema e tornariam a tarifa técnica – custeada pelo governo – ainda mais cara. Dantas disse, ainda, querer entender “que locais são estes que não são atendidos pelo transporte público”.
Os relatos da doméstica Maria da Conceição e de outros passageiros, porém, dão conta de inúmeros pontos desassistidos. Maria mora no Itapoã, mas não é lá que encontra dificuldades. Desde 2007, trabalha no Park Way, perto do aeroporto – serve à mesma casa há dois anos – e, ao desembarcar na parada da BR- 040, cruza um canteiro para esperar o ônibus responsável pelo trajeto por entre as quadras. É aí, em uma zona nobre e repleta de mansões de luxo, que existe o problema.
“O jeito é pegar os carros (de transporte pirata) que passam. Em dia de fiscalização, não tem jeito e eu caminho. É longe. Eu já chego cansada ao serviço”, desabafa. Não é um caso isolado. A diarista Ana Cláudia Tavares de Oliveira, de 25 anos, também sofre com isso. Como seu local de trabalho fica ainda mais distante, andar raramente é uma opção.
“Moro no Jardim Ingá (município de Luziânia-GO, na Região Metropolitana do DF) e de lá eu sempre consigo chegar até aqui. Para chegar à casa do meu patrão é que não dá, muitas vezes. Ou é pirata ou não é”, revelou, pouco antes de embarcar em um Corsa cinza, utilizado irregularmente para levar passageiros.