Jessica Antunes
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“Livrai-me de todo mal, amém”. A frase estava estampada no baú de uma moto usada para fazer delivery de drogas na área central da capital. Ontem, uma organização criminosa composta por quase 30 pessoas foi desarticulada pela Polícia Civil. O grupo levava drogas para clientes de alto poder aquisitivo na região da Esplanada dos Ministérios. Nos últimos 15 dias, apenas um dos envolvidos negociou com pelo menos 33 pessoas. Eles tinham até assessoria jurídica para evitar flagrantes.
As investigações começaram em fevereiro de 2017, quando a 5ª Delegacia de Polícia prendeu três suspeitos de tráfico de drogas na Vila Planalto. A apuração chegou a 28 pessoas que estariam envolvidas no comércio diário de entorpecentes e todas tiveram mandado de prisão emitido. “A especialidade era fornecer drogas de altíssima qualidade, especialmente a cocaína escama de peixe, a pessoas com alto padrão aquisitivo”, afirma Rogério Oliveira, delegado-chefe.
O grupo organizado atuava como um serviço de tele-entrega em duas motocicletas. “Os compradores contatavam os integrantes da organização criminosa (por telefone, mensagem, rede social) e pegavam a droga com um motoboy geralmente nas imediações dos ministérios e órgãos da Esplanada”, relata o delegado. Não foi constatada nenhuma entrega dentro dos órgãos públicos.
A organização se preparava para o Carnaval. “Queríamos dar um tombo neles para evitar que chegassem novas drogas ou que viajassem em busca delas”, afirmou o chefe da 5ª DP. Nos próximos dias, os usuários devem ser ouvidos. A polícia tem uma lista de todos os que adquiriram drogas do grupo no último ano e pelo menos 50 eram clientes frequentes.
Em carro oficial
Entre os presos está um servidor comissionado da Câmara dos Deputados, que trabalha como motorista do deputado federal Valadares Filho, presidente da Comissão de Desenvolvimento Regional, vinculado ao Partido Socialista Brasileiro (PSB) de Sergipe.
Segundo as investigações, Daniel Lourival Azevedo usava o veículo terceirizado para adquirir drogas no meio do expediente. O parlamentar afirmou que tinha relação estritamente profissional com o homem, que foi exonerado. Em dezembro passado, o motorista recebeu R$ 9.777,20 líquidos, entre salário e benefícios.
Crença na impunidade
Conforme Rogério Oliveira, o delegado-chefe, o grupo estava destemido: “Acreditaram que a polícia não os encontraria”. Para garantir que não fossem pegos, eles tinham assessoria jurídica fornecida por uma ex-estagiária da Procuradoria-Geral da República (PGR), que integrou o quadro do órgão pelo menos até dezembro passado. Marcela Galdino da Silva, 23 anos, dirigia o grupo aconselhando em relação à quantidade de drogas e meio de transporte para evitar flagrantes de tráfico.
A mulher acabou de se formar em Direito e, segundo as investigações, fazia cursinho preparatório para o concurso da Polícia Civil. Em nota, a PGR afirmou que Marcela estagiou no gabinete do subprocurador-geral por dois anos. Ela namorava o homem apontado como líder da organização criminosa.
Carlos Alberto de Almeida Leite, 35 anos, é conhecido como Kaká e coordenava toda a venda da droga, como cocaína pura, haxixe, maconha, merla e LSD. Os entorpecentes vinham da Bolívia e eram mantidos na casa do suspeito. Cada grama de haxixe era vendida a R$ 20. Duas gramas de cocaína chegavam a ser comercializadas a R$ 40. Duas lavanderias, em Águas Claras e no Sudoeste, eram usadas para lavar o dinheiro do tráfico. Os comércios também serão alvo da investigação.
Saiba mais
A ação é do Departamento de Polícia Circunscricional (DPC), que junta as 29 delegacias regionais. Ela reúne 300 policiais, cães farejadores e um helicóptero. A operação foi feita em locais como Águas Claras, Vila Planalto, Asa Norte, Lago Norte e Sudoeste.
Até ontem, foram cumpridos 25 dos 28 mandados de prisão temporária, válida por 30 dias. Os suspeitos também devem responder por associação ao tráfico. Se condenados, poderão ficar presos por até 30 anos.
Também foram cumpridos 35 mandados de busca e apreensão nas residências dos envolvidos. A droga apreendida passará por perícia e o dinheiro será contado.