A casa Tenda Espírita Pai Benedito do Congo, localizada no Setor Oeste do Gama, tem sido alvo de ataques por intolerância religiosa praticados por vizinhos do condomínio Império. Em janeiro deste ano, mês marcado nacionalmente pelo combate à intolerância religiosa, o terreiro foi atacado duas vezes com o arremesso de pedras, tijolos e restos de concreto, enquanto as liturgias estavam em andamento. O início do conflito aconteceu ano passado durante as celebrações de Cosme e Damião, e, agora, os ataques atingem a propriedade neste último final de semana.
Segundo Anísio Pereira, 23 anos, sucessor e integrante da casa, os episódios se intensificam em datas de celebrações religiosas. “No dia 17 de janeiro, durante a maceração de ervas e os preparos com cantigas rituais, eu e as demais pessoas presentes na casa começamos a ouvir barulhos muito fortes no telhado. Quando subimos para verificar, vimos que estavam jogando pedras, vindas do condomínio vizinho”, relata. Dois dias após o episódio, foi registrado boletim de ocorrência na Delegacia Especial de Repressão aos Crimes Raciais, Religiosos ou de Intolerância (Decrin) e na 20ª DP. “Não foi possível identificar quem jogou as pedras, porque a pessoa se esconde atrás dos muros do condomínio”, afirma.

Quatorze dias depois, no último sábado (31), um novo ataque ocorreu, desta vez mais grave. “Por volta de 21h55, novamente durante a gira, as pedras foram lançadas ainda mais próximas das pessoas, atingindo a área onde fica o público”, conta Anísio. Naquela noite, cerca de 60 pessoas ainda participavam do ritual religioso. “Tem criança, idoso, famílias inteiras participando das giras. O terreiro é um espaço de acolhimento, escuta e cuidado espiritual. Aqui fazemos tratamentos.”
Para Anísio, a motivação dos ataques é clara. “No mesmo espaço onde funciona o terreiro existem salões de festa com música ao vivo, DJs e caixas de som. No terreiro, a gente apenas canta e bate palmas, sem instrumentos de percussão. Se fosse barulho, o incômodo seria com os salões. Por isso, digo que são ações de intolerância religiosa. Além disso, no ano passado, durante o Cosme e Damião, nossa eletricidade, que fica a cargo do condomínio, foi cortada propositalmente, deixando-nos no escuro por cinco dias, utilizando o gerador do nosso espaço para ter luz”, ressalta.

O sentimento entre os frequentadores é de insegurança. Mesmo diante das agressões, ele afirma que a casa seguirá aberta. “Aqui a gente acolhe, escuta e orienta. Prestamos atendimento espiritual à comunidade e ajudamos pessoas que chegam fragilizadas emocionalmente. A gente continua pela fé, pela ancestralidade e pelo compromisso com a comunidade. Não vamos nos calar”, conclui.
Dados e nota
Esse caso recente no Gama reflete um cenário comum no Brasil. Dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) informam que, no país, pelo canal Disque 100, foram registradas 2.774 denúncias de intolerância religiosa entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026. Conforme previsto na Constituição Federal e na Lei do Racismo (Lei nº 7.716/89), atos discriminatórios ou violentos contra manifestações religiosas são considerados uma violação da liberdade de crença, punível com reclusão de dois a cinco anos e multa, equiparados ao crime de racismo, inafiançável e imprescritível.
Em nota enviada ao Jornal de Brasília, o Condomínio Império informou que tomou conhecimento dos fatos no dia 2 de fevereiro de 2026 e que, desde então, a administração vem averiguando a denúncia e apurando as informações necessárias para prestar esclarecimentos aos órgãos competentes. Segundo o comunicado, até o momento o condomínio não foi formalmente acionado pela polícia para solicitação de imagens ou outras informações, mas afirma que, assim que houver requisição oficial, irá colaborar integralmente, dentro dos limites legais e respeitando as normas de privacidade e segurança dos moradores.

A administração também ressaltou que não compactua com qualquer forma de discriminação, intolerância ou violência e reforçou que toda religião tem o direito legal de existir, se manifestar e exercer suas atividades de forma livre e respeitosa, conforme assegurado pela legislação brasileira. Por fim, o condomínio declarou que permanece à disposição das autoridades para contribuir com a apuração dos fatos.
Em defesa da liberdade
Líder comunitária em Samambaia, Mãe Francys de Oyá repudiou os recentes ataques a terreiros e casas religiosas de matriz africana no Distrito Federal. Para ela, as agressões vão além de danos materiais e ferem a liberdade religiosa, a dignidade humana e a história do povo brasileiro. “ Terreiros são locais de fé, acolhimento, cuidado espiritual. Agredi-los é negar direitos garantidos pela Constituição Federal e reforçar práticas de ódio que não podem mais ser toleradas em uma sociedade que se diz democrática: Nossa fé não propaga violência. Ela ensina respeito, equilíbrio, amor ao próximo e conexão com nossos ancestrais. Exigimos respeito, exigimos justiça e que os responsáveis por atos de preconceito e agressão sejam devidamente responsabilizados”, conclui.
Onde denunciar intolerância religiosa?
Os casos de intolerância religiosa podem ser denunciados por diferentes canais oficiais, ma das principais ferramentas é o Disque 100, canal do MDHC, que funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana, e recebe denúncias de violações de direitos humanos, incluindo ataques motivados por discriminação religiosa. O serviço permite registro anônimo e também pode ser acessado pela plataforma digital do governo federal.

No DF, as ocorrências podem ser registradas na PCDF, em qualquer delegacia, ou direcionadas à Decrin. O registro pode ser feito presencialmente ou, em alguns casos, por meio da delegacia eletrônica, sendo recomendável apresentar provas como fotos, vídeos e relatos de testemunhas.
Em situações de flagrante, ameaça imediata ou risco à integridade física, a orientação é acionar a Polícia Militar pelo telefone 190. Além disso, denúncias também podem ser feitas ao Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), especialmente em situações de reincidência, violação de direitos coletivos ou omissão do poder público.