Menu
Brasília

Táxi x Uber: Conflito ainda sem solução

Arquivo Geral

27/10/2015 6h15

Jéssica Antunes

jessica.antunes@jornaldebrasilia.com.br

Alexandre Rocha não conseguiu dormir. Com pontos na cabeça, enfrentou o dia de ontem com dores. Motorista da Uber há apenas um mês, ele foi vítima de represálias por parte de taxistas em duas ocasiões e, da última   vez, saiu  ferido e com o veículo danificado após agressão no Setor Hoteleiro Norte. Ele não é o primeiro a sofrer consequências da briga entre os motoristas dos serviços, enquanto o    governo ainda discute a regulamentação.  Para taxistas, a briga, registrada em gravação, foi provocada. 

Abalado emocionalmente – até voltou a fumar -, Alexandre, de 37 anos, diz que não vai parar de trabalhar. “Está todo mundo vulnerável, mas eu não estou com medo por mim, e, sim, por minha família. Não vou desistir da Uber. O carro vai ser arrumado e vou permanecer no meu trabalho digno”, promete. 

“Na vida, a gente só tem o que planta”, afirma o homem, ao dizer que não quer mal a ninguém, mas gostaria que os envolvidos fossem efetivamente presos. “O sindicato (dos taxistas) tem que tomar uma atitude. Essas ações não são contra a minha pessoa, mas contra o serviço. Não podem agir assim”, critica. 

Ele foi agredido por taxistas, que o golpearam com socos e bateram com um pedaço de madeira em sua cabeça, onde abriu um corte e o deixou ensanguentado. Após o crime, na tarde do último domingo, seis pessoas foram levadas à delegacia.

Violência

O caso não foi isolado. Existem registros de violência entre taxistas e motoristas que trabalham em parceria com o aplicativo para celulares em todo o mundo. Há cerca de um mês, o próprio Alexandre protagonizou uma cena na Rodoviária Interestadual. Hostilizado  quando foi buscar um passageiro, teve a passagem bloqueada e ainda ouviu: “Ou vai a pé ou de táxi. Aqui, Uber não passa”. 

Segundo os motoristas da Uber, as ameaças   se intensificam em épocas de festas. No início do mês,   houve confusão perto do Estádio   Mané Garrincha, durante o show da dupla Jorge e Mateus, e no Parque da Cidade, em apresentação do cantor Saulo – lá, havia estacionamento conjunto para condutores de táxis e do app. Ali, um taxista teria danificado a porta de um carro.

Versão oficial

Em nota, a Uber  declarou que se solidariza com o motorista agredido: “O uso de violência em qualquer forma, sobretudo contra cidadãos trabalhadores, é inaceitável. A Uber está oferecendo todo o apoio ao motorista  e todas as medidas legais cabíveis serão tomadas. Vamos colaborar com as autoridades locais durante a investigação”. A respeito da atuação no DF, a empresa disse   que “a missão da Uber é levar transporte confiável e acessível ao maior número de pessoas, por isso, qualquer cidade que possui um desafio de mobilidade é um mercado possível para a Uber”.

Ponto de vista

Para o cientista político e pesquisador em transportes Carlos Penna Brescianini, não haveria sequer necessidade de regulamentação, mas a letargia do governo pode, sim, inflamar os ânimos em relação às partes. “Os taxistas, na prática, estão licenciados e querem ocupar pela força, mas o governo não tinha que regular nada. Como uma empresa prestadora de serviço, a coisa se regula naturalmente. Os motoristas de táxis já têm seus privilégios, como isenção e descontos de impostos”, sustenta o especialista. Para ele, as consequências pequenas para os registros de agressão podem estimular a continuidade de violência.

Agressão contada em duas versões

Ao relatar o  caso em que foi vítima de violência, Alexandre Rocha diz que tudo começou com uma ameaça a um companheiro da Uber. “Coincidentemente, estávamos por perto. Fomos sair, de ré, e vieram para cima. Nós não estávamos no ponto deles e, mesmo que estivéssemos, o bom senso permanece. Como duas pessoas vão brigar com 20 taxistas? Não sou nenhum super-homem. Graças a Deus, só levei pontos, porque eu corri. Puxaram faca, canivete, pedra. Eu nunca vi isso na minha vida”, conta. 

Do outro lado do embate, no entanto, a história é outra. “A Uber veio atrás de nós”, dispara Silvestre Filho, taxista de 55 anos. “Eu estava no ponto, trabalhando. Eu fui pego de surpresa. Estava sentado na mesa quando chegaram dois camaradas fechando o ponto de táxi, alegando que algum de nós fechou um colega dele no trânsito e que não estávamos deixando passageiros embarcarem aqui. Eles caçaram confusão”, lembra. 

“Recebeu o que procurou”

O taxista diz que os agrediram verbalmente e receberam “o que procuraram”. Como consequência, Silvestre foi um dos seis levados à delegacia. “Eu, trabalhador, 24 anos na profissão, fui preso sem me envolver na briga. Nós não somos tratados como taxistas, mas como bandidos. Não estamos aqui para roubar ninguém, estamos para trabalhar. Se querem carro executivo, nos deem condições para ter um, mas não tratem nossa categoria como bandidos”, reclama. 

Motoristas teriam sofrido ameaças

“Tem que baixar o cacete e botar para correr. Pelo menos eles vão ter medo de chegar perto de nós”, pede um suposto taxista em mensagens que circulam pelas redes sociais. “A gente já sabe o horário que tem polícia. Desce o cacete e sai todo mundo ‘voado’ que não dá tempo nem de a polícia chegar”, recomenda outro. São, pelo menos, 14 áudios com ameaças contra motoristas da Uber, que teriam começado durante a madrugada de domingo.

Imagens de taxistas que portariam estilingues e bolas de gude no painel do veículo para afastar a presença dos motoristas indesejados também circulam pelas redes sociais. Todavia, Maria do Bonfim, presidente do Sindicato dos Taxistas (Sinpetáxi), desconhece ameaças por áudio, uso de estilingues e diz que não há orientação de violência na categoria.

“Nós somos contra qualquer tipo de ação agressiva. O que pedimos é que os companheiros não arrumem confusão e aguardem porque o sindicato está dia e noite trabalhando para resolver esse impasse com as autoridades competentes”, assegura a presidente da entidade.

Maria do Bonfim lembra que o posicionamento do Sinpetáxi é único: “A Uber é ilegal. Nós temos leis que regulam o serviço de táxi, mas só o governo vai dizer se vai regulamentar. O sindicato pede para resolver o impasse porque teme uma morte”. 

Regulamentação segue a passos curtos no GDF

Segundo Alexandre, o motorista da Uber agredido na tarde de domingo, essa discussão do governo, “que nunca tem fim”, inflama os ânimos dos taxistas. “Essa hostilidade vem de muito tempo, e vários carros já foram afetados. Eles têm que agir na Justiça”, lembra. 

Em agosto deste ano, o GDF criou um grupo para discutir a regulamentação do serviço após vetar projeto de lei que proibia o uso. De acordo com a gestão, reuniões têm acontecido, incluindo representantes da Uber e dos taxistas. 

A expectativa é cumprir o cronograma e, na primeira quinzena de novembro, bater o martelo em relação à polêmica. Mas, informou a assessoria de imprensa do GDF, não há como dizer se a decisão será pela regulamentação ou não do serviço. 

Um projeto de lei apresentado na Câmara dos Deputados pode cessar o impasse. O deputado Thiago Peixoto (PSD-GO) quer alterar a lei dos taxistas e incluir normas gerais de uso de aplicativos na Constituição.

Saiba mais

O caso foi registrado na 5ª DP (Setor de Grandes Áreas Norte)  como lesão corporal, ameaça e dano. Seis taxistas assinaram termo circunstanciado e  aguardarão audiência no Juizado Especial Criminal de Brasília. 

Agora, as demandas devem ser encaminhadas ao Tribunal de Justiça do DF (TJDFT). Somadas as penas, eles podem pegar até dois anos de detenção.

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado