O modelo de atendimento nas delegacias mudou com a implementação das Centrais de Flagrantes (Ceflags). São seis unidades no DF, responsáveis por registrar denúncias de crimes como furto, roubo, brigas e homicídios em todo o território brasiliense. Com esta estrutura, se uma vítima é furtada no Guará, por exemplo, ela precisa se deslocar até a 1ª Delegacia de Polícia (Asa Sul), responsável pela área, para registrar a ocorrência, em vez de ir à 4ª DP (Guará).
A justificativa da direção da Polícia Civil do DF é de que as unidades especiais têm mais recursos humanos para prestar um serviço de qualidade à população. Segundo a corporação, o quadro de policiais foi reforçado com a chegada de dois agentes por unidade. Ao todo, seriam seis agentes no plantão. Enquanto nas delegacias tradicionais, são quatro.
Na prática, para a PCDF, o modelo não difere muito do antigo. O que acontece é apenas uma reorganização de espaço físico. Para os usuários, no entanto, a necessidade de deslocamento maior tem sido motivo de insatisfação.
Desaprovação
A mudança na estrutura organizacional também não tem agrado muito os policiais militares. Para o vice-presidente da Associação dos Praças Policiais e Bombeiros Militares (Aspra-DF), Manoel Sansão Alves Barbosa, o novo formato significa um retrocesso. De acordo com o dirigente, a decisão foi tomada para suprir a escassez de pessoal no quadro da Polícia Civil do Distrito Federal.
“O que deveria ter hoje é um efetivo eficiente da Polícia Civil para continuar do jeito que estava. Policiais têm de se deslocar para longe. Quem perde com isso é a sociedade, que fica desprotegida com a ausência da PM”, explica.
A insatisfação por parte dos policiais militares diante do cenário atual encontra ressonância na percepção da entidade que representa o setor. De acordo com Barbosa, as reclamações sobre o formato da delegacias têm sido constantes e acontecem quase todos os dias. “Acabei de ligar para os policiais, e eles reclamam dessa situação”, destaca. “A gente não aprova essa atitude”, conclui.

Efetivo abaixo do considerado ideal
De acordo com a segunda vice- presidente do Sindicato dos Policiais Civis (Sinpol-DF), Marcele Alcântara, o quadro da corporação prevê o preenchimento de 8.969 cargos, entre agentes, papiloscopistas, escrivães e delegados. Hoje, segundo ela, a Polícia Civil do DF conta com um efetivo um pouco maior do que a metade deste número. “São aproximadamente 4,9 mil cargos efetivos. Ou seja, é muito pouco”, avalia. “Isso sem contar com os policiais que estão de licença médica e abono”, completa.
A funcionalidade das Centrais de Flagrantes também é contestada por especialistas em segurança pública. Para o presidente da Comissão de Ciências Criminais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-DF), Alexandre Queiroz, a criação das unidade se deve à carência de policiais. “Falta gente nas delegacias. Ao meu ver, essas centrais servem para isso”, afirma. “Nunca vi um modelo assim”, emenda.
Em contrapartida, o especialista em segurança pública e professor da Universidade Católica de Brasília (UCB) Nelson Gonçalves, vê a reformulação com bons olhos. “Se for para melhorar o atendimento, reforçando com mais policiais, é uma boa iniciativa. O que as pessoas reclamam nas unidades policiais é a falta de atenção que recebem”, pondera.
Mais prejudicadas
Entre as localidades mais prejudicadas com a criação das centrais está a cidade de Brazlândia. Isso porque os flagrantes de roubo, furto, assassinato e tráfico de drogas têm de ser encaminhados para a 23ª Delegacia de Polícia (P Sul). Para isso, é preciso percorrer uma distância de 34 quilômetros, entre uma localidade e outra.
A reportagem acompanhou a dificuldade de quatro equipes do Batalhão Ambiental da Polícia Militar (BPMA) para lavrar o flagrante de um caso de tráfico de drogas e porte ilegal de armas, que ocorreu em Brazlândia. Quando chegaram à 23ª DP, os policiais militares foram obrigados a deixar dois presos no cubículo das viaturas enquanto esperavam o delegado de plantão, que havia saído para o jantar.
Um policial que participou da operação, que preferiu não se identificar, lamentou a decisão da Polícia Civil de tirar de Brazlândia a responsabilidade de registrar algumas ocorrências. “Essa situação dificulta a nossa missão. Enquanto isso, podem estar ocorrendo outros crimes com a nossa ausência”, destaca.
Dor de cabeça sem fim
Após um desentendimento, dois moradores vizinhos, que dividem um mesmo lote em Ceilândia, foram parar na delegacia. O que eles não imaginavam era que o pior ainda estava por vir. Depois de chegarem à 15ª DP (Ceilândia Centro), eles descobriram que precisariam ir até a Central de Flagrantes da 15ª DP (P Sul).
“Olha, não quero nem falar sobre isso. Estou muito furiosa com essa espera”, reclamou a dona da propriedade, que não quis se identificar. “O certo seria fazer o boletim de ocorrência na 15ª DP”, emendou um policial militar que conduziu as duas partes.
Longa espera
Na ocasião, os policiais militares permaneceram na 23ª DP durante duas horas. Um agente da unidade policial afirmou que estava contrariado com a transformação daquela delegacia em Ceflag. “Hoje, aqui tem cinco agentes no plantão. Mas já estiveram sete. Amanhã, pode ser que tenhamos somente quatro”, afirmou.
Quem também enfrentou transtornos ao tentar registrar uma ocorrência foi o comerciante José Antônio da Conceição. Morador da Vila Planalto, ele teve a loja roubada por dois assaltantes.
Depois do crime, ele conta que foi orientado a se dirigir à 2ª DP (Asa Norte). No entanto, ao chegar ali, foi informado de que deveria procurar a 5ª DP (Setor de Grandes Áreas Norte) para fazer a denúncia.
“Na minha opinião, isso é totalmente errado isso. Fazem as mudanças, mas não comunicam a sociedade”, reclama o comerciante.