João Paulo Mariano
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Há dois dias, o corre-corre e o barulho da criançada foram substituídos por um ambiente vazio e silencioso na Creche Alecrim, na Estrutural. Pela primeira vez em oito anos de existência, o local não atendeu as 96 crianças que ficam ali de segunda a sexta-feira em tempo integral. A falta d’água chegou a um ponto em que seria impossível abrir as portas. Sem essa alternativa, mães reclamam que não têm onde deixar os filhos para conseguir trabalhar.
“Estou me sentindo impotente. Quero fazer algo, mas não consigo. A situação está muito difícil”, comenta a fundadora da creche, Maria de Jesus Pereira. Ela aguarda que a água volte na manhã de hoje para não precisar ficar um terceiro dia sem água. O problema começou no sábado, dia do racionamento na Estrutural. A margem para a normalização do sistema era de dois dias, porém, devido a obras na região, houve adiantamento do dia do rodízio na terça-feira.
O resultado? Foram seis dias sem água nas torneiras. Dessa forma, a creche teve que dispensar as crianças e deixar as mães na mão. Maria de Jesus explica que resistiu na segunda e na terça-feira com o uso das três caixas d’água da instituição, mas os recipientes se esvaziaram. “Toda hora tem banho, troca de fralda, refeição. Sem água não dá para fazer nada. Não tem uma gota”, desabafa.
A mulher lembra que o local só atende pessoas carentes, que realmente dependem da creche. Essa é justamente a situação das vendedoras de trufas Raquel dos Santos, 23, Maria do Livramento, 24, e Marília Rodrigues, 23.
As três tiveram que se virar na quarta e ontem para encontrar um lugar para levar os filhos. Marília conta que pagou uma conhecida para ficar com suas três crianças que deveriam estar na creche. “Gastei dinheiro com lanche, fralda e até com água para que a vizinha pudesse cuidar dos meus filhos”, afirma a mãe. Ela diz que uma das filhas fica perguntando até quando vão ficar sem a creche e se vão perder a vaga.
Raquel, por sua vez, comenta que não pode ficar sem trabalhar porque sustenta a família com o dinheiro que vem das trufas. Assim, as andanças precisam continuar para que ela obtenha a verba necessária para o alimento das crianças.
Projeto surgiu da necessidade
A fundadora da creche Alecrim, Maria de Jesus Pereira, relata que, em 2008, parou de trabalhar para cuidar do tratamento da filha, que teve um problema cardíaco. Sem poder ir ao lixão para trabalhar, ela começou a olhar o filho de uma vizinha, depois de outra, e assim por diante.
Quando deu por si, já havia começado o projeto, que conta com 14 mulheres voluntárias. Elas ajudam no cuidado das quase cem crianças.
Quem quiser contribuir com a creche, sendo com mantimentos ou uma visita, pode ligar para a fundadora no contato 9 95750755. Para as voluntárias, toda ajuda é bem-vinda.
Versão oficial
De acordo com a Caesb, vários problemas prejudicaram o abastecimento. Além da instalação de uma válvula no sábado, na terça a companhia constatou que o reservatório do Cruzeiro não estava alcançando nível satisfatório. Então, decidiu-se fechar o abastecimento para que o reservatório se recuperasse. Ontem, um registro se rompeu no Cruzeiro, o que obrigou o fechamento por mais algumas horas. Por esses imprevistos, a Caesb não fará o rodízio previsto para hoje.