Eric Zambon
eric.zambon@grupojbr.com
Com tantas línguas diferentes congregadas no 8º Fórum Mundial da Água, era natural que algumas se encontrassem. Muito conhecimento e cultura concentrados geram diversos tipos de interesse, incluindo aquele que faz mexer no cabelo, sorrir com o canto da boca e refletir o brilho no olhar. Na era da frivolidade, o termômetro para esse tipo de atividade são os aplicativos de relacionamento.
Os gringos que não gostam de ser chamados de gringos abusaram de filtros e poses não ortodoxas para se exibir na telinha e para fazer os dedos dos pretendentes deslizarem para a direita, nunca para a esquerda e nem no “x” vermelho. A estratégia é comum por aqui, mas quando alguém de fora reaproveita é como uma afirmação da fórmula que deu (?) certo.
Brasília já tem uma confluência natural de diferentes nacionalidades permeando sua camada social. Membros de corpos diplomáticos e intercambistas, para citar o grosso desse demográfico, vivem exibindo seus rostos sorridentes e fotos de viagens exóticas no Tinder, com direito a descrições em portunhol recheadas de informações sérias sobre interesses da vida.
Melina (nome fictício) tem a pele curtida de quem passou pela praia antes de se conformar com a capital. Inscrita como congressista no evento, ela revela decepção com a noite brasiliense. “Eu sei que é dia de semana, mas achei que tem pouca movimentação. Bebi uma cervejinha e vi pessoas”, resumiu a nicaraguense.
Essa cervejinha, porém, é comemorada pela Secretaria Adjunta de Turismo como parte dos R$ 40 milhões (!) que podem ser injetados na economia local devido aos 13 mil inscritos pagantes do Fórum. Pouco mais de cinco mil estrangeiros de 150 nacionalidades distintas ajudaram a deixar a rede hoteleira do DF com 80% de sua capacidade preenchida durante a semana e a movimentar bares e restaurantes.
Ao Piauí (o boteco, não o estado), parece que nenhum foi, pelo relato dos bêbados de quarta-feira. Nos restaurantes das comerciais mais próximas do centro, na Asa Sul e na Asa Norte, porém, muitos garçons hablaram ou tiveram que speak, alguns até parler, para atender aos novos visitantes. Foi a realidade da Copa do Mundo revivida em um microcosmo semanal.
O próximo
Os senegaleses foram a nação mais animada do Fórum. Em meio aos telões do pavilhão montado na estrutura do estacionamento do estádio Mané Garrincha, quatro músicos nativos agruparam uma percussão tribal e hipnotizante no fim da tarde de cada um dos dias de evento. Como a maioria dos outros estandes encerrou suas atividades no horário comercial – os marroquinhos bem antes disso – a única diversão garantida depois das seis na feira era o batuque africano.
Fotos e olhares admirados contemplavam os quatro animadores, que devolviam com sorrisos e acenos. O público foi variado, mas sempre cheio, o que gerou conversas no pé do ouvido entre representantes do pavilhão e visitantes encantados. Senegal vai sediar, na capital Dakar, o próximo Fórum Mundial e tinha que causar boa impressão. Causou.
Muitos brasileiros estranharam que a língua oficial do Senegal fosse o francês. Poucos membros do grupo que veio a Brasília falavam um inglês compreensivo, então as tentativas de aproximação viraram interações pouquíssimo verborrágicas e muito gestuais. Cenas engraçadas foram registradas ao lado de um grande painel branco que mostrava como o país africano tratava sua água residual.
Gerou dinheiro, gerou beijo e, gerou sexo muito provavelmente. Nada como um evento internacional para fazer o Turismo apresentar algumas porcentagens poucos significativas e os bares se derreterem pelos não falantes da língua. A próxima vez pode demorar, então bom proveito.








