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Brasília

Se o vírus Ebola chegar, o Distrito Federal está pronto?

Arquivo Geral

17/08/2014 9h14

O surto de ebola na África Ocidental já matou 1.069 pessoas, segundo balanço divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Há ainda outros 1.975 casos confirmados, prováveis e suspeitos desde o início da epidemia, em março deste ano. A doença está concentrada em Guiné, Serra Leoa e Libéria. Este último, inclusive, registrou o maior número de casos recentes, segundo o órgão, que já declarou emergência pública sanitária internacional. 

No Brasil, o Ministério da Saúde (MS) garante que não há casos ou suspeitas, e minimiza o risco de o vírus chegar aqui. Mas o medo de que o surto, que tem matado milhares todos os dias, se instale em território nacional é evidente, já que não existe vacina ou tratamento e tem taxa de mortalidade que pode chegar a 90%.  

Nas ruas, os brasilienses reconhecem o nome da doença misteriosa, mas a forma de contágio e formas de prevenção ainda são desconhecidas. O MS afirma que as possibilidades de disseminação global do vírus são mínimas: “No Brasil, não há circulação natural do vírus ebola em animais silvestres, como em várias regiões da África”. A contaminação se dá, basicamente, pelo contato de fluidos corporais do doente, e também  pode acontecer a partir do contato com ambientes e objetivos contaminados por esses fluidos, como roupas. O vírus não é transmitido pelo ar. 

CONTROLE

O surto atual chama a atenção por sua extensão e demora em controlar – já é a pior epidemia da história, segundo a OMS. “Isso ocorre pela precariedade dos serviços de saúde nas áreas em que ocorre a transmissão, bem como pelas práticas e tradições culturais de manter pacientes em casa, inclusive escondendo sua condição das autoridades sanitárias, e a realização de rituais de velórios em que os parentes e amigos têm bastante contato com o corpo do falecido”, explica o MS. 

Ainda assim, o Ministério determinou que haja maior rigor pelos fiscais em aeroportos, portos e fronteiras no Brasil, para que possíveis passageiros contaminados sejam identificados. Além disso, a área de  Portos, Aeroportos e Fronteiras da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) diz adotar protocolo internacional para identificar e isolar casos suspeitos, assim como ocorreu com outras doenças, como a Influenza A (H1N1). O ministro Arthur Chioro recomendou que a população não entre em pânico, já que os serviços de segurança reconheceriam os sintomas. 

Sem registros até agora
De acordo com o ministro Artur Chioro todos os tripulantes e passageiros que chegam ao Brasil por aeronaves ou navios são submetidos a avaliação rigorosa e, identificado algum sintoma, a pessoa é isolada para coleta de exames. No Aeroporto Internacional Juscelino Kubitschek, a Anvisa informou que nenhuma abordagem foi feita e nenhum caso de ebola foi identificado. A Secretaria de Saúde do DF também esclarece que não há registros da doença na região. 
 
Falta informação
O estudante Guilherme Moreira, 21 anos, ficou durante um mês nos Estados Unidos para um curso. Chegou ao Brasil no último dia cinco e diz ter se surpreendido com a falta de informações e fiscalizações. “Eu esperava que tivesse maior controle e fiscalização, até porque quando voltei havia uma suspeita de contaminação lá”, revela. O caso citado por ele envolve Eric Silverman, que esteve em Serra Leoa. Ele ficou dois dias isolado até ser confirmado que não havia contraído a doença. 
Guilherme garante que não passou por nenhuma placa, faixa ou aviso. Além disso, nenhuma orientação ou alerta foi dado pela tripulação do avião ou nos aeroportos em que passou. Se a contaminação chegar ao País, acredita que “vamos sofrer, porque não estamos preparados”. 
O mesmo aconteceu com a pesquisadora Gabrielle Vitório, 23, que foi neste mês ao Peru. Ela teve de passar por Rio de Janeiro e Foz do Iguaçu, além do terminal brasiliense, e garante que em nenhum dos aeroportos a doença foi citada, nem em sinais sonoros, como o Ministério da Saúde afirma acontecer. “Não escutei e nem vi nada sobre o assunto. Nem falaram nada nem dentro do avião”, conta. 
No embarque e no desembarque internacional, também não houve nenhum tipo de alerta ou instrução. Gabrielle não acredita que o País esteja preparado para um possível surto: “Além da falta de vaga nos hospitais, é possível notar a falta de preocupação com a limpeza”. 
A estudante Rafaela Alves, 19, embarcou no dia nove para a Argentina. No Aeroporto de Brasília, nada foi citado com relação ao vírus, mas na escala em São Paulo, “falaram que se sentir os sintomas tem que procurar uma unidade de saúde e dizer qual foi o país que visitou”, conta.   
A orientação da Anvisa para viagens nacionais é que o viajante mantenha atualizado o calendário básico de vacinação. Na ocorrência de surtos podem ser incluídas novas vacinas.
 
Mecanismos de controle não são precisos
Um dos países mais afetados, a Guiné, tem embaixada em Brasília. Mohamed Youla, representante do governo guineano no Brasil, afirma que a tristeza pelo o que ocorre no ocidente da África é intensa. “A sensibilidade é maior quando se trata de uma doença que afeta tanta gente em meu país”, revela. Ainda assim, garante que o surto de ebola por lá está controlado: “A OMS e os Médicos Sem Fronteiras já anunciaram que devem remover os centros de isolamento da região até o fim do mês”. 
O embaixador informou que seus conterrâneos são livres para sair do país sem informar a embaixada. Por isso, não há como precisar quantos guineanos vivem atualmente em Brasília. Apesar disso, uma série de mecanismos para controle da doença é feito em diferentes momentos naquele país. Desde o início do surto, em março, 369 casos foram confirmados no país. Destes, 242 pessoas morreram, segundo a OMS. 
Visto
O cidadão que pretende sair da região precisa solicitar o visto. Para isso, passa por uma série de certificações para garantir a inexistência do vírus. Além disso, existe um controle específico no aeroporto desde o mês passado: no momento do embarque a temperatura ocular de todos os viajantes é verificada. “No caso do Brasil, desde março há um médico contratado pelo embaixador brasileiro em Guiné. Todos os viajantes são submetidos ao especialista para verificação”, explica.  
 
Muitos capítulos
No dia 11de agosto, o primeiro europeu infectado morreu em Madri, na Espanha. O missionário Miguel Pajares, 75, teria contraído a doença em um hospital da Libéria, onde trabalhava. 
 
Após a morte do europeu, o comitê de ética médica da OMS autorizou ontem o uso de medicamentos ou vacinas experimentais para lutar contra a febre hemorrágica do ebola.
 
O Ministério da Saúde enviou, no último dia seis, uma cartilha para vigilâncias sanitárias e hospitais de referência sobre como proceder em casos em que há suspeita da doença. 
 
O Ministério as Relações Exteriores informou que as comunidades brasileiras nos locais mais afetados são muito reduzidas, não passando de 50 pessoas Ainda assim, “as embaixadas estão em contato contínuo com as comunidades patriadas”, informou o órgão. Até o momento não há situação de retirada de brasileiros daqueles locais, como ocorre em casos de guerra, por exemplo. 
 
O vírus ebola foi descoberto em 1976, quando houve 431 mortes. Desde então, os principais surtos aconteceram em 1995 (254 óbitos), 2000 (224) e 2007 (224), todos na África.
 

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