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Brasília

Renda média no DF ultrapassa os R$ 5 mil, mas desigualdades persistem 

Estudo do IPEDF revela contraste entre as regiões

Caroline Purificação

29/01/2026 18h45

Foto: Geovana Albuquerque/Agência Brasília

Foto: Geovana Albuquerque/Agência Brasília

Um levantamento divulgado nesta segunda-feira (26/1) pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF) aponta que o rendimento domiciliar médio no Distrito Federal urbano é de R$ 5.424,77, o que representa uma renda per capita de R$ 3.168,94. Os dados constam no Informe Distrital de Rendimentos, elaborado a partir da Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios Ampliada (PDAD-A 2024), e traçam um panorama detalhado sobre a capacidade econômica das famílias na capital.

Apesar de a renda média ser considerada elevada, o estudo evidencia fortes desigualdades entre as regiões administrativas do DF. Enquanto o Lago Sul lidera o ranking de renda domiciliar, com média de R$ 29.802,04 e renda per capita de R$ 15.780,19, no Setor Complementar de Indústria e Abastecimento (SCIA), que engloba a Cidade Estrutural e a Cidade do Automóvel, o rendimento per capita é de R$ 815,85 por morador. A pesquisa utiliza como referência o salário mínimo vigente em 2024, de R$ 1.412.

O rendimento domiciliar corresponde à soma da renda de todos os moradores do domicílio, incluindo salários do trabalho principal, atividades extras e outras fontes, como aluguéis, bolsas de estudo, aplicações financeiras e benefícios sociais. Já o rendimento per capita é calculado a partir da divisão desse total pelo número de moradores da residência.

O levantamento também aponta diferenças significativas conforme a posição na ocupação no mercado de trabalho do DF. Os maiores rendimentos médios são registrados entre os empregados do setor público, com R$ 10.523,66 mensais, seguidos pelos militares (Forças Armadas, Polícia Militar e Corpo de Bombeiros), com média de R$ 10.483,53. Já os empregadores apresentam rendimento médio de R$ 8.343,69.

Na outra ponta, trabalhadores do setor privado e autônomos registraram rendimentos médios de até R$ 3.832,05. Entre as menores faixas estão os empregados domésticos, com renda média de R$ 1.615,73. O recorte reforça o peso do setor público na composição da renda do DF e evidencia a desigualdade de ganhos entre diferentes formas de inserção no mercado de trabalho.

Para a diretora de Estatística e Pesquisas Socioeconômicas (Dieps) do IPEDF, Francisca Lucena, as diferenças de renda entre as regiões administrativas estão diretamente relacionadas ao perfil da população de cada território. No Lago Sul, por exemplo, predominam moradores mais velhos, com maior escolaridade e inseridos em ocupações de maior remuneração, o que eleva os níveis de renda domiciliar. “São pessoas que trabalham em postos de trabalho com renda mais elevada, e isso acaba influenciando a experiência da renda domiciliar desses territórios”, explicou.

Ela também destacou que o cálculo da renda per capita leva em consideração o número de moradores por domicílio. “Quando calculamos a renda per capita, dividimos o rendimento pelo número de moradores. Em regiões como a Estrutural, as famílias tendem a ser mais numerosas do que no Lago Sul, o que aumenta a densidade de moradores e reduz o valor per capita. Além disso, fatores como a antiguidade do território e a composição dos moradores também influenciam esses resultados”, afirmou.

Ao analisar o mercado de trabalho do DF, a diretora ressaltou ainda que cerca de 35% das ocupações estão concentradas no setor público, o que contribui diretamente para a renda média mais elevada registrada na capital.

Desigualdade territorial

Para o economista e diretor da VLGI Asset, Matheus Portela, a desigualdade no DF tem forte componente territorial, com regiões que concentram renda e infraestrutura, enquanto outras enfrentam longos deslocamentos e menos oportunidades de emprego. Segundo ele, o perfil de renda da população brasiliense é desigual e segmentado.

“O setor público é o principal motor da economia do DF. Ele garante estabilidade e impulsiona setores como o imobiliário e o de serviços, mas também amplia o contraste entre salários públicos e privados. O desafio é usar esse motor para gerar oportunidades mais amplas no setor privado e, ao mesmo tempo, reduzir a dependência da renda do servidor público”, afirmou.

Portela avalia que algumas medidas podem contribuir para uma melhor distribuição de renda, como investimentos em mobilidade urbana eficiente, qualificação profissional alinhada à demanda do mercado, estímulo à formalização e ao pequeno negócio, além de incentivos ao desenvolvimento da indústria local. 

Sobre educação, o economista pondera: “formação sem inserção profissional não reduz desigualdade. Educação, estágio e emprego precisam caminhar juntos. O foco em tecnologia é fundamental para o longo prazo, enquanto as escolas técnicas tendem a trazer impacto mais imediato”.

Entre dois mundos

Morador do Plano Piloto, segunda região administrativa com maior renda domiciliar mensal do DF, o empresário Fábio Catramby avalia o custo de vida na capital como alto, mas afirma sentir-se satisfeito em viver em uma das áreas de maior poder aquisitivo da cidade. Segundo ele, que vive apenas com a esposa, a renda familiar é suficiente para manter o padrão de vida atual com tranquilidade, o que contribui para a percepção positiva sobre a qualidade de vida.

Ele também considera que a localização facilita o acesso a oportunidades de trabalho e renda. Ainda assim, afirma perceber a desigualdade social no DF no dia a dia, especialmente nos deslocamentos pela cidade. “Há um aumento significativo de moradores de rua”, observou.

Na Cidade Estrutural, a realidade é diferente. Ana Cristina vive com o marido e três filhos com apenas um salário mínimo. Segundo ela, a renda não é suficiente para cobrir todas as despesas da família. “Aqui a gente vive com um salário mínimo e não dá para pagar todas as contas. Tenho um filho com problema de saúde e gasto muito com remédios, que às vezes não consigo na rede pública. Para ser sincera, faltam muitas coisas. Estou há dois dias sem gás porque não tenho dinheiro para comprar outro”, relatou.

Ana afirma que a situação é semelhante à de outras famílias da comunidade de Santa Luzia, onde predominam domicílios numerosos e baixa escolaridade. “A situação está muito precária aqui na comunidade. As autoridades precisam olhar mais para esse povo. As doações caíram muito nos últimos meses, e muita gente aqui depende disso para sobreviver”, completou.

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