Rafaella Panceri
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Os 50 refugiados venezuelanos que vieram de Boa Vista (RR) para Brasília na última terça- feira terão até seis meses para se adaptar na cidade. Os adultos deverão conseguir emprego e as crianças serão matriculadas em escolas públicas do Distrito Federal. Nesse período, a organização humanitária SOS Aldeias Infantis vai gastar, em média, R$ 700 mensais com cada pessoa e auxiliar os grupos na busca por trabalho e por serviços públicos, além de viabilizar o acesso a cultura e lazer. Eles não receberão quantias em dinheiro, mas já têm acesso a alimentos e moradia na Asa Norte, em uma espécie de vila. Cada casa é ocupada por três famílias.
O sub-gestor nacional do Aldeias Infantis SOS Brasil, Sérgio Eduardo Marques Rocha, explica que os imigrantes serão atendidos por uma equipe de assistência social, com educadores e psicólogos. “Com a divulgação da chegada deles, diversas empresas expressaram interesse em fornecer vagas de trabalho. Estamos avaliando a escolaridade e as competências de cada um, inclusive das crianças, para montar um plano de atendimento específico para cada caso”, esclarece.
O sub-gestor acrescenta que os moradores da vila vão participar da administração dos recursos recebidos. “Como estamos em coletividade, eles vão montar um comitê com dois representantes de cada residência para nos ajudar com o dinheiro. Não é muito, mas o suficiente para eles viverem e para começarmos a adaptá-los à moeda do País e à dinâmica dos preços, que na Venezuela mudam a cada momento”, esclarece.
Vulnerabilidade
A maior complicação que os refugiados terão por aqui será com documentos pessoais. “Há uma dificuldade natural de comprovar e validar os diplomas de curso superior, porque a Venezuela não autoriza o envio de certos documentos. Há crianças sem documentação escolar que comprove a conclusão do ano letivo”, expõe Rocha. “Alguns são perseguidos politicamente. O governo não mandará esses documentos”, analisa.
Para evitar que as famílias caiam na informalidade, a SOS Aldeias Infantis vai orientá-los a criar um registro de microempreendedor individual (MEI). “Assim eles poderão emitir nota e ter os impostos recolhidos”, sugere Rocha. As crianças devem começar a estudar imediatamente. “Estamos em parceria com a Secretaria de Educação e, estando em solo brasileiro, todos têm direito ao que é garantido na Constituição”, frisa.
Desejo de voltar
A intenção de uma das famílias é morar no Brasil pelo período de tempo mais curto possível. “A gente não quer ficar aqui. Vem pela situação. Queremos o nosso país, mas não desse jeito. Há pessoas morrendo de fome, desnutridas, e eu não quero isso para a minha família”, declara Gimelsón Jose Corsega Espinoza, 48 anos. Supervisor em uma empresa da indústria petroleira na Venezuela, ele deixou o país em 12 novembro de 2017 e foi procurar emprego em Boa Vista (RR).
Lá, dormiu na rua e chegou a passar fome por alguns dias. “Mas logo fiz muitos amigos que me ajudaram a seguir adiante”, lembra, e menciona que eles eram militares. “Me orientaram na cidade e viraram minha família. Os amo muito”, completa.

Ao lado do filho, Gimelsón José Corsega Espinoza afirma ter saído da Venezuela em busca de melhores condições de viuda. Ele estava em Roraima desde novembro do ano passado. Asa Norte. 18. Foto: Paiva Franco/Jornal de Brasília.
Qualquer oportunidade é agarrada
Na capital de Roraima, Gimelsón Jose trabalhou capinando terrenos, pintando paredes. “Fui até ajudante de pedreiro, mesmo tendo distribuído mais de 50 currículos na cidade, mas sem conseguir nada”, recorda. Durante o período, a família dele viveu no abrigo São Vicente, mantido pelo Governo Federal em Boa Vista. Como entrou no Brasil sozinho, ele reencontrou a mulher e o filho pequeno, de três anos, em 20 de dezembro. O mais velho, de 15 anos, atravessou a fronteira em março.
A administradora de empresas Rosimar Yanet Marin, 38, compartilha que os brasileiros, em geral, foram receptivos. “Há pessoas que nos fizeram mal, mas em geral fomos muito queridos”, avalia.
O casal se comunica com a família todos os dias. “Meu irmão está fraco, acabado. Trabalhava de pintor de carros antes de tudo isso e agora está sem trabalho. Nosso poder aquisitivo lá não vale nada. É muito pior do que você pode pensar”, garante Marin. “Meus irmãos estão cuidando do que é nosso lá. Vamos resolver a nossa vida aqui e ajudá-los”, promete Gimelsón.
Saiba Mais
O Brasil é parte da Convenção Internacional sobre o Estatuto dos Refugiados de 1951 e do Protocolo de 1967. Além disso, integra o Comitê Executivo do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) desde 1958.
De acordo com esses tratados, uma pessoa que esteja fora de seu país de origem e não possa retornar — ou tenha medo de ser perseguida por motivos de raça, religião, nacionalidade, pertencimento a grupo social específico ou opinião política — poderá solicitar refúgio no Brasil.
Cerca de 127 mil venezuelanos atravessaram a fronteira entre 2017 e 2018. Dos 50 que estão em Brasília, 10 solicitaram refúgio. A família entrevistada pela reportagem tem residência temporária no País.
Serviço
Qualquer pessoa pode apoiar a organização humanitária SOS Aldeias Infantis. A instituição recebe quantias em dinheiro e doações diversas. A conta bancária está disponível no site www.aldeiasinfantis.org.br, os telefones para contato são (61) 3372-3482 e 99689-4584 e o e-mail é brasilia.df@aldeiasinfantis.org.br.