
Ao sair pelo portão, o servente de pedreiro Antônio de Sousa, 59 anos, dá de cara com uma erosão que ocupa toda a pista no Setor de Chácaras Lucio Costa. Às margens da linha do trem, o que era um pequeno buraco chegou a cinco metros de profundidade. “Aconteceu de uma hora para outra, depois das chuvas”, contou o homem. Ali não é o único lugar a sofrer com falhas no sistema de drenagem. Erosões aparecem em vários pontos da cidade – três casas foram interditadas nos últimos 15 dias.
A história contada pelos moradores do Lucio Costa é que o rompimento de uma manilha do sistema de água pluvial iniciou o problema. “Com as chuvas, piorou muito. A água levou toda a terra e formou esse buraco. O trem teve de voltar para trás porque não tinha como passar”, contou o servente de pedreiro.
A erosão já alcança o muro de uma casa vizinha à de Antônio, que teme por sua moradia. “Pode chegar e derrubar tudo”, destacou. “O dono nem entra mais com o carro dele”, emendou o vigilante Francisco Serejo, 45. A Defesa Civil acompanha a situação e, apesar da proximidade com as casas, diz que não há risco.
Obra
“Eles não fizeram direito a obra de reposição das manilhas quebradas. Compactaram parte da terra para que o trem continue passando, mas a rua que dá acesso à EPTG e à Estrutural ficou interditada”, lembra o vigilante. Ele diz que o buraco começou pequeno e, sem uma drenagem eficiente, logo se ampliou.
“Quando chove, isso aqui arrebenta tudo e só tem um lugar que a água escoa. A correnteza que vem pelo outro lado não tem para onde ir”, contou Francisco, que estima que o buraco tenha se aberto há cerca de oito meses. Para evitar que pessoas caíssem, o homem sinalizou o local com galhos de árvores e faixas.
De acordo com o subsecretário de Operações da Defesa Civil, Sérgio Bezerra, a erosão aconteceu de forma isolada e não transforma o local em uma área de risco. A Caesb já fez reparos e, segundo informações da Novacap, técnicos avaliam a situação do local para recuperá-lo.
Drama recorrente
Famosa pelos buracos, Vicente Pires pode ter sido a cidade que mais sofreu com as últimas chuvas, que culminaram, inclusive, no desabamento de uma casa, agora interditada, como mostrou o JBr. no último dia 10.
Nesta semana, funcionários da Novacap estiveram em operação em diversos pontos da cidade. No acesso à Rua 3 pela Estrada Parque Taguatinga (EPTG), uma caixa de contenção maior foi construída, com uma parede de pedra ao lado, para impedir que a ação das chuvas quebre novamente a estrutura. Ali, disse o morador Rafael Pereira, 33, se um carro passasse por cima do chão danificado, poderia cair na erosão.
“Pontos localizados”
Para o professor do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da Universidade de Brasília Ricardo Silveira Bernardes, é complicado generalizar a situação no DF. “O sistema tem pontos localizados de problema”, pondera. “Em áreas não regulares, há problemas em que a drenagem não foi feita de forma correta. Então, é comum observar que, quando existe esse tipo de problema que causa erosão, ocorre em área irregular”, avalia.
Ele explica que isso ocorre porque a drenagem é a ultima que chega, após o terreno ter sido ocupado. “O grande problema é que se tem tanto degradação do solo como problemas de inundação e contaminação dos lençóis. A drenagem tem impacto muito grande e a solução é atender um plano de manejo adequado das águas pluviais”, afirma.
Desde 1960
Dickran Berberian, especialista em problemas de pavimentação e edificações, entende que o sistema de drenagem do DF não é eficiente. “Só se resolve quando algo dá problema”, afirma. O erro teria começado já na construção de Brasília. “Tudo foi feito sem um sistema de drenagem adequado para a cidade, talvez por pressa na entrega. Desde então, só se tem apagado o fogo”, avalia. No entanto, ele considera que “não há sistema que suporte” a falta de manutenção e entupimento das bocas de lobo.
Planejamento ficou para trás
“Nossa cidade foi devidamente planejada há muitos anos, mas nós mesmos quebramos esse planejamento, já que uma parte significativa das pessoas ocupou de maneira desordenada várias cidades do DF”, avalia o subsecretário de Operações da Defesa Civil, Sérgio Bezerra.
Segundo ele, isso causa vários problemas, inclusive em períodos chuvosos. “Quando não se tem um sistema de drenagem composto por manilhas, bueiros, bocas de lobo para captar águas, há grandes danos materiais e ambientais”, explica, citando áreas como Sol Nascente, Por do Sol, Fercal, Vicente Pires, Arniqueiras e Condomínio Porto Rico em Santa Maria.
“A quantidade de chuva que tem caído no DF tem sido de maneira muito concentrada em pouco tempo. Quando não se tem um sistema de drenagem ou ele está deficiente, causa erosões. O problema no DF é o sistema deficiente de drenagem e, enquanto não for resolvido, continuaremos a ter esses danos”, avisa Bezerra. No entanto, ele afirma que “existe toda uma força de governo para minimizar esses problemas”.
Recanto das Emas
No Núcleo Rural Vargem da Bênção, no Recanto das Emas, uma verdadeira cratera se abriu próximo ao terminal rodoviário depois de fortes chuvas, deixando a tubulação da Caesb exposta. Duas casas foram interditadas por riscos de desabamento e as famílias orientadas a buscar abrigo em outros locais.
Segundo a Caesb, o serviço de ancoragem das tubulações está no fim, “o que garante a segurança delas”. Já a Novacap informou que, assim que as obras finalizarem, “técnicos irão avaliar a situação da erosão para depois tomar as medidas necessárias com relação à rede de drenagem da região”.