“Nunca vou me esquecer. Na sexta (13) eu estava a cinco minutos de onde aconteceu tudo”. Helenice Mendonça Machado iniciou com estas palavras o relato sobre os atentados terroristas em Paris, na última semana. Brasiliense, morando na Cidade da Luz há cerca de oito anos, a empresária detalhou ao Jornal de Brasília os momentos vividos naquele dia.
Segundo Helenice, ela estava em um show quando recebeu a mensagem de um amigo policial informando sobre o atentado. “Terminei de ler a mensagem, olhei para o lado e diversas pessoas estavam ao telefone. De repente, todo mundo saiu correndo, desesperado, mas as vias estavam bloqueadas. Ninguém entrava ou saia. Foi uma barra”, relembrou.
Com dois filhos, de 12 e 5 anos, a empresária conta que a sensação é de constante medo. “Na rua, andamos olhando para os lados o tempo todo. Qualquer barulho de ambulância assuta, mas o meu maior medo é de que ataquem as escolas. Deixo meus filhos com o coração apertado”, desabafou Helenice.
Ainda segundo a brasileira, muitos policiais nas ruas abordam pessoas e carros suspeitos constantemente. Nos aeroportos, todas as malas são inspecionadas, além disso, as autoridades orientam que os cidadãos evitem sair em carros que tenham vidros escuros. “Estamos evitando também locais que tenham muitas pessoas, como metrôs e locais públicos, pois são o alvo deles. A vontade é de ir embora correndo, mas temos as nossas vidas e obrigações aqui. Então, vamos vivendo”, concluiu.
Medo
Em pronunciamento durante evento com prefeitos, o presidente francês François Hollande pediu, nesta quarta (18), à população francesa que não ceda ao medo após os ataques terroristas em Paris na semana passada e que a “vida deve continuar plenamente”. Ele defendeu uma coalizão internacional para combater o Estado Islâmico, informou que pretende prorrogar por 3 meses o estado de emergência no país e reiterou o compromisso de acolher 30 mil refugiados.
Hollande discursou após operação policial antiterrorista em Saint-Denis, no norte de Paris. Duas pessoas morreram durante a operação, sendo uma delas uma mulher que acionou um colete de explosivos, e sete foram detidas. A operação teve como alvo Abdelhamid Abaaoud, considerado o “cérebro” dos atentados de sexta (13) em Paris.
“Através do terror, o Daesh [acrônimo árabe do Estado Islâmico] quer instilar o veneno da suspeita, da estigmatização, da divisão. Não vamos ceder à tentação de recuar, não vamos também ceder ao medo e aos excessos”, disse o presidente francês. “Nossa coesão social é a melhor resposta”, disse. Os atentados do dia 13, de autoria do Estado Islâmico, deixaram 129 mortos.
Hollande ressaltou que a França foi alvo dos terroristas por defender a liberdade e a diversidade. “Isso é o que os terroristas visaram: a ideia mesma da França. É a juventude da França que era o alvo, porque ela representa a vitalidade, a generosidade e a liberdade.”
O presidente pediu que os franceses retomem seus hábitos. “O que será da França sem seus museus, sem seus terraços, sem seus concertos, sem suas competições esportivas? O que será de nossas cidades sem o barulho de nossas atividades? E nossos municípios sem a fraternidade de nossas festas? Hoje, a França precisa de todas as suas energias para continuar a viver. Nós devemos isso por nossa economia, por nossos empregos e por nossa juventude.”
Coalizão internacional
O presidente francês defendeu que os países se unam para deter o Estado Islâmico. Ele ressaltou que a França intensificou os ataques contra o grupo na Síria e que essas ações vão continuar enquanto for necessário.
Na terça (24), Hollande irá a Washington para discutir o assunto com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e na quinta-feira (26), a Moscou, para reunião com o mandatário russo, Vladimir Putin.
Estado de emergência
Hollande anunciou que vai apresentar hoje ao Parlamento a proposta de prorrogar por mais 3 meses o estado de emergência no país, que, segundo ele, representa “algumas restrições temporárias à liberdade”. A partir da proposta, o governo fica autorizado a impedir eventos e reuniões públicas e criar zonas de proteção em torno de órgãos públicos e prédios privados que podem ser potenciais alvos de terroristas. “Nesse momento de guerra, é preciso paciência pelo tempo que ela durar.”
Refugiados
Ele disse que não se pode vincular o fluxo de refugiados do Oriente Médio que tentam entrar na Europa com os ataques sofridos pelo país. “Algumas pessoas quiseram estabelecer relação entre o afluxo de refugiados vindos do Oriente Médio com a ameaça terrorista que pesa sobre nosso país. Essa relação não existe, porque os habitantes das regiões do Iraque e da Síria controladas pelo Estado Islâmico são martirizados por aqueles que nos atacam hoje.”
Hollande repudiou qualquer retaliação a comunidade muçulmana em decorrência dos atentados e reafirmou o compromisso da França em acolher 30 mil refugiados nos próximos dois anos. Além disso, o governo aumentou em 23 mil o número de vagas nos abrigos.
“Devemos ser implacáveis contra todas as formas de ódio. Qualquer ato xenófobo, antissemita ou antimuçulmano não deve ser tolerado.”
Segundo o presidente francês, um fundo de apoio, no valor de 50 milhões de euros, será criado para apoiar o acolhimento dos refugiados.