Com a chegada do fim do ano, não é somente a decoração natalina que chama a atenção nas ruas. Nos principais pontos da cidade, é possível encontrar uma variedade de vendedores ambulantes, que se instalam em locais de grande movimentação na esperança de um lucro extra nesta época. Sem temer a fiscalização, muitos ocupam pontos que poderiam servir de passagem para pedestres. O governo reconhece que neste período a venda informal acontece com mais frequência. Para os comerciantes legalizados, a concorrência é desleal. A população, por sua vez, tem opinião dividida.
A reportagem do Jornal de Brasília percorreu alguns pontos da cidade e verificou que a maior concentração de camelôs está no centro de Taguatinga, no Setor Comercial Sul, na Rodoviária do Plano Piloto e nas proximidades do Conic.
Para quem trabalha no comércio formal, o maior desafio é atrair os clientes. É o caso da comerciante Roseli Pereira, 29 anos. “Eles não pagam impostos e por isso cobram um preço muito mais barato. O cliente acaba indo para lá. A gente tenta lançar novidades para não perdê-los”, afirma.
Segundo ela, os vendedores informais precisam de incentivos para abandonar a ilegalidade. “Eles só querem trabalhar. Como falta muito emprego, acabam recorrendo a isso. Se tivessem oportunidade, não iriam querer trabalhar dessa forma”, acredita.
Outro ponto levantado por Roseli é a desorganização deixada nas ruas pelos ambulantes. “A cidade fica muito feia. As pessoas não têm por onde andar. Com a chegada da Copa, ano que vem, vai ser uma vergonha a cidade cheia de camelôs”, destaca.
Fiscalizações são frequentes, afirma Seops
O diretor de operações da Secretaria de Ordem Pública (Seops), Jorge Colbe, acredita que o combate ao comércio ilegal é responsabilidade de todos. “Estamos com um trabalho educativo para conscientizar as pessoas sobre os danos do comércio ilegal”, destaca.
Colbe confirma que nessa época do ano há o aumento da presença de ambulantes ilegais no Distrito Federal. No mesmo ritmo, segundo ele, seguem as ações de fiscalização. “É um fenômeno que ocorre todos os anos. É um trabalho que sempre combatemos, mas a solução exige uma contemplação maior de emprego”, assegura.
Também são clientes
Os comerciantes que vendem no atacado encontram uma maneira de minimizar a perda de clientes. De acordo com Roberto Moura, 33 anos, que trabalha há 15 anos no comércio, os ambulantes transformaram-se em fregueses. “Como minha loja fica muito perto das barracas, eles compram os produtos de mim pra revender”, salienta.
Mesmo admitindo que a clientela mudou, ele ressalta que a concorrência é desleal. “Eles vendem os produtos até 20% mais baratos. Aí fica muito difícil atrair o cliente”, aponta. Segundo ele, a solução para a mudança do quadro está na geração de empregos. “Muitos não têm formação e não contam com outras opções. Aí o comércio informal aparece como alternativa mais viável”, declara.
Lojas oferecem mais segurança aos clientes
Segundo o diretor de Operações da Secretaria de Ordem Pública e Social (Seops), Jorge Colbe, a presença dos comerciantes informais não será combatida somente com fiscalização. “O que a gente precisa fazer é legalizar dentro do possível. O Estado precisa contemplar a geração de emprego”, indica.
Ele frisa que a compra no comércio ilegal expõe a segurança dos clientes. “Quando a pessoa está comprando o produto na rua, não tem garantias. Em uma loja legalizada, mesmo pagando mais caro, é mais seguro”, salienta.
Para Colbe, apesar das dificuldades encontradas, o resultado das operações já pode ser observado. “Ali no calçadão perto da Rodoviária, por exemplo, até um tempo atrás era impossível transitar. Hoje, a presença dos ambulantes é muito menor”, garante.
Baratos e acessíveis
Entre os consumidores, não há uma única opinião a respeito do assunto. A professora Sílvia de Souza, 50 anos, por exemplo, não vê problemas no comércio informal. “Eu sou a favor. Os produtos são mais baratos e mais acessíveis à população”, diz. Segundo ela, a prática é a única alternativa de sustento para muitas pessoas. “Tem gente que vem de fora, não acha emprego e recorre a isso para não passar fome”, acredita.
Quanto ao prejuízo ocasionado aos comerciantes que atuam dentro dos parâmetros legais, ela tem uma sugestão: “Eles poderiam baixar o preço dos produtos, em vez de só reclamar. O mercado do DF tem o preço altíssimo”, conclui.
Já o vendedor de uma loja de roupas do centro de Taguatinga, que preferiu não se identificar com medo de represálias dos ambulantes, disse que o comércio irregular atrapalha as vendas. “Eles tiram os clientes de quem trabalha regularmente. As autoridades precisam tomar uma providência porque isso é uma vergonha”, reclamou
Fiscalização aumenta
De acordo com a Seops, as operações ocorrem, em média, quatro vezes por semana a partir da definição do cronograma de ações, baseado em levantamentos das áreas mais críticas do DF. Entretanto, os logradouros públicos da Rodoviária de Brasília, do Conic e do shopping próximo ao terminal rodoviário são cobertos pela fiscalização de segunda a sábado, das 7h às 22h.
Segundo a pasta, a ação em caráter preventivo ocorre desde setembro. “Isso quer dizer que a equipe chega à área ainda no início da manhã para evitar a presença de ambulantes e camelôs desautorizados. Por vezes, são apreendidos produtos de vendedores irregulares que insistem em permanecer na região”, afirmou a secretaria.
A Seops também ressalta que o Governo do Distrito Federal não é contra o ambulante ou camelô, desde que estes trabalhem em conformidade com a legislação – Lei 4.457/2009, regulamentada pelo Decreto 31.482/2010 (leia o saiba mais).